Acordo Irão-EUA: o mundo inteiro contra Israel
O acordo de paz entre o Irão e os Estados Unidos não foi assinado este domingo, ao contrário daquilo que o presidente norte-americano, Donald Trump, tinha previsto – mas a continuação dos ataques de Israel ao Líbano fez o Irão exigir uma pausa. É agora claro para todos os países que são as iniciativas militares determinadas pelo primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, contra o Líbano que estão a impedir a assinatura do acordo, a abertura do Estreito de Ormuz, o regresso da normalidade aos mercados internacionais, a descida do preço do petróleo, a normalização do setor energético e a ‘despressurização’ da inflação global, entre outras coisas.
Mais uma vez, Trump manifestou o seu grande descontentamento face a Netanyahu: Benjamin Netanyahu “não tem juízo nenhum”, disse em declarações ao jornal norte-americano ‘Axios’, repetindo, de forma mais branda, o que lhe dissera num telefonema há pouco mais de uma semana. Alheio a qualquer compromisso dos Estados Unidos e à vontade da esmagadora maioria dos países. Israel continua a colocar no terreno o seu plano para o Líbano, afirmando que o acordo não tem nada a ver com o assunto. Só Israel é que acha isso, e os analistas debatem até que ponto é que o acordo entre Teerão e Washington conseguirá aguentar, depois de ser assinado, uma eventual investida de Israel sobre o território iraniano. Uma coisa parece ser certa entre os analistas: se isso acontecer, os Estados Unidos deixarão, desta vez, Israel por sua conta e risco – ao contrário do que sucedeu em fevereiro passado e em junho de 2025.
Indiferente a tudo o que se passa fora das suas fronteiras e não está alinhado com os seus interesses, Israel passou o fim-de-semana a pressionar o sul do Líbano e a atacar os arredores de Beirute, sempre com a ‘desculpa’ da eliminação de células do Hezbollah. Mas o desgaste político de Netanyahu vai aumentando e as críticas dos seus adversários internos vão aumentando de tom.
Um “suicídio coletivo”
o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett, líder do Bennett 2026 (e ex-líder de partidos da direita radical e dirigente do Juntos, a coligaçãp com o ex-primeiro-ministro Yair Lapid) lançou um ataque feroz contra a estratégia Netanyahu. Em entrevista ao ‘The Times of Israel’, Bennett denunciou a “abordagem geral” de Netanyahu, criticando “esta guerra muito prolongada” em múltiplas frentes. “Nunca foi doutrina de Israel manter uma guerra contínua, que está a exaurir a sociedade e a economia israelitas e prejudica drasticamente a nossa posição internacional”.
Bennett afirmou que Netanyahu simplesmente perdeu a capacidade de governar, de vencer guerras, de restaurar a lei e a ordem, de integrar os ultraortodoxos na sociedade israelita e de recuperar abalada posição de Israel no mundo. O Estado hebraico enfrenta “um momento existencial” e alertou que mais um mandato sob o atual governo (o país tem eleições previstas para o outono) deixaria o país sem uma economia funcional, uma sociedade sólida ou uma posição internacional relevante. Bennett disse que a dependência de Netanyahu em relação aos parceiros de coligação de extrema-direita (Itamar Ben Gvir e Bezalel Smotrich) o impede de ter em vista os interesses nacionais de Israel. Esta ‘prisão’ acabará naquilo que definiu como um “suicídio nacional em câmara lenta” – nomeadamente devido à forma como Netanyahu está a lidar com o recrutamento militar dos ultraortodoxos (que simplesmente não existe, havendo por isso israelitas que, ao contrário da maioria, não têm de exporem à morte na linha da frente).
“Não temos soldados suficientes, mas Netanyahu é incapaz de recrutar os 20 mil soldados haredi desaparecidos. O público já está sobrecarregado: 90% dos israelitas seculares e religiosos são recrutados. Os ultraortodoxos estão perto de zero por cento”, disse. Mas não ficou claro que Bennett faça, se for caso disso, muito diferente de Netanyahu: “a minha estratégia é: precisamos de apostar numa estratégia de longo prazo para acelerar o colapso do regime iraniano, não apenas por meio de ações cibernéticas, mas também garantindo que eles não consigam obter uma arma nuclear. Com a Mossad e outros grupos, iniciei cerca de 30 ações diferentes — não apenas bombardeamentos. Estou a falar de ações económicas, cibernéticas, ações abertas e secretas”.
“Fiquei chocado”
Agastado com tudo isto, Donald Trump ainda tem esperança no acordo. Trump disse que ficou “chocado” quando os seus assessores o informaram sobre o ataque israelita em Beirute este domingo. “É tão mau – eu nem conseguia acreditar. Uma hora antes de assinarmos o acordo…” Trump reconheceu que o Hezbollah atacou Israel primeiro, mas enfatizou que não causou nenhum dano e ninguém morreu. “Porque é que Netanyahu teve de fazer esse ataque? Eu fiquei muito chateado. Deixei-lhe isso bem claro. Ele não tem o menor juízo. Deixei isso bem claro “, disse Trump.
Os principais pontos do acordo – ou do memorando que funciona como uma base provisória, foca-se em duas fases de cedências mútuas: abertura do Estreito de Ormuz e uma trégua imediata: Em troca, os Estados Unidos comprometem-se a levantar o bloqueio naval aos portos do país e contribuir para o descongelamento de cerca de 25 mil milhões de dólares em ativos iranianos retidos pelas sanções. Os Estados Unidos deverão também fornecer uma pausa temporária nas sanções sobre o petróleo do Irão. Do seu lado, o governo iraniano aceita manter o estatuto atual do seu programa nuclear (sem avançar no enriquecimento). Após a assinatura oficial deste memorando, os dois países iniciam um período de 60 dias de conversações intensas para finalizar os detalhes práticos e de longo prazo sobre o desmantelamento nuclear.
O Irão prometeu que retaliaria – o que pode vir a suceder ao longo da noite.
Até ao fecho desta edição, o acordo ainda não tinha sido assinado. A assinatura deverá acontecer na Suíça, e o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, será quem vai assinar pelo lado norte-americano.


