
Às vésperas da estreia do Brasil de Carlo Ancelotti na Copa do Mundo, a população parece estar esquentando o engajamento em torno dos jogadores. O GLOBO foi às ruas de São Paulo e do Rio de Janeiro para medir o interesse e a conexão da população com os atletas que representarão mais de 213 milhões de brasileiros. Em entrevistas com exatas 100 pessoas em locais icônicos das cidades, como a Avenida Paulista, a Praia de Copacabana, a rua 25 de março, o comércio do Saara e universidades, a reportagem pediu que os entrevistados tentassem identificar os jogadores da seleção por meio da foto no álbum do Mundial. Entre várias possibilidades de interpretações, há um fato: Vini Jr. é o principal nome do elenco atual. Ou, pelo menos, o rosto mais conhecido.
Entre todos os 18 atletas que possuem figurinhas no álbum da Copa do Mundo, o camisa 7 do Brasil e do Real Madrid foi o único identificado por todos 100 os entrevistados.
Copa 2026: Você conhece todos os jogadores brasileiros no álbum da Copa?
Preferências regionais
Curiosamente, há nítidas diferenças de apreço e preferência por determinados jogadores a depender da região. Em São Paulo, onde o engajamento com a seleção brasileira foi menor entre os entrevistados — a média foi de sete acertos entre os 18 jogadores retratados no álbum —, Matheus Cunha e Luiz Henrique tiveram as menores taxas de acurácia, tendo sido reconhecidos somente pelos seis torcedores que gabaritaram a pesquisa.
Já no Rio de Janeiro, onde a média subiu para 10 acertos entre os 18 jogadores retratados, a história foi outra. Revelado pelo Fluminense e ídolo do Botafogo, onde foi o principal nome das conquistas do Campeonato Brasileiro e da Libertadores em 2024, Luiz Henrique esteve no top-10 dos mais reconhecidos, com 29 citações. Cunha, por sua vez, foi o segundo menos mencionado, mas, ainda assim, num número bem maior: 20 vezes. Na Cidade Maravilhosa, o goleiro Bento, que acabou fora da lista de convocados, foi o menos lembrado pelo povo. Apenas 17 vezes.
Outro ponto curioso é que, se em São Paulo apenas seis entre os 50 entrevistados acertaram todos os nomes, no Rio de Janeiro a quantia quase dobra: 11 torcedores, ou seja, 22% da pesquisa, gabaritaram o nome de todos os 18 jogadores presentes no álbum. Entre esses, oito têm entre 19 e 24 anos — os outros têm 29, 41 e 52 anos. Isso indica que o público jovem é quem mais está engajado com a atual seleção brasileira.
Tal cenário se repete em São Paulo. Dentre os lugares pesquisados na capital paulista, as universidades tiveram a maior média de acerto. Enquanto isso, as pessoas de meia-idade, que já viram títulos passados da seleção, apresentaram médias inferiores na pesquisa. Um dos entrevistados, que preferiu não se identificar, fala desse sentimento. “Já vi o Brasil ganhar título, essa seleção de agora parece que só joga bem nos times de fora, eles não dão o sangue pela nossa camisa como os jogadores antigos. Acho que a confiança foi embora desde a copa de 2014 com o 7 a 1”.
Neymar segue forte na lembrança do povo brasileiro
Como é de praxe em Copas do Mundo, as páginas das seleções classificadas esbanjam diversas gafes por terem jogadores que, embora tenham participado do ciclo até o torneio — e, por isso eles estão no álbum —, não estiveram presentes na lista final. Assim, falta espaço para as famigeradas surpresas de última hora. E com o Brasil não foi diferente. 50% dos 26 convocados por Ancelotti não foram registrados nas figurinhas, sendo que a ausência de Neymar foi a mais sentida.
Mas, mesmo sem estar entre os pacotinhos que viraram febre nas ruas da cidade, o craque do Santos teve seu nome lembrado por 42 dos 50 torcedores entrevistados no Rio de Janeiro. Até entre os atletas que possuem suas fotos registradas, o camisa 10 só ficou atrás de Vini Jr na cidade. Em São Paulo, além de Neymar, o atacante Endrick, revelado e muito identificado pelo Palmeiras, também foi citado em diversas oportunidades.
Confusão entre os craques
Rumo a sua segunda Copa do Mundo com a seleção brasileira, Lucas Paquetá fecha o ranking dos três jogadores mais mencionados pelos torcedores em solo carioca, com 41 citações. A justificativa está na forte identificação do atleta com o Flamengo, clube que retornou em janeiro, e no apelo popular por suas famosas dancinhas nas comemorações.
No território paulista, outra curiosidade foi a confusão feita por metades dos entrevistados do GLOBO entre os atacantes João Pedro, que ficou de fora da lista, e Raphinha, destaque do time de Ancelotti. O dado chama atenção por envolver atletas com características físicas distintas, mas que no contexto da página acabaram sendo confundidos pelos entrevistados. Uma explicação seria a disposição das imagens no álbum. Como os dois aparecem posicionados próximos um do outro, os participantes podem ter confundido os atletas.
Clima de copa
Historicamente, o interesse pela Copa do Mundo cresce conforme os jogos se aproximam, especialmente após as primeiras partidas da seleção. Para muitos torcedores, o envolvimento emocional com o mundial ultrapassa os jogadores convocados e está ligado à tradição de acompanhar a nação em busca de mais um título. Para o professor e cientista social com experiência na sociologia do Esporte, José Paulo Florenzano Florenzano, o desempenho da equipe comandada por Carlo Ancelotti será mesmo o fator decisivo.
— Sempre tem uma expectativa de que o Brasil vença a Copa, eu acho que essa expectativa tem diminuído nas últimas edições e talvez tenha atingido o nível mais baixo agora. Mas acho que se o Brasil apresentar um bom futebol e for avançando na Copa, isso inevitavelmente vai despertar a paixão adormecida do brasileiro pelo futebol, não tenho a menor dúvida.