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Crucifixo de papel

11 – SEF

Lúcia foi fazer o turno da noite, na Hamburgueria, com o estômago embrulhado pela tensão em que ficara depois do sucedido com Miguel, conhecia bem o seu grau de perversidade quando invadido pela raiva. Agilizou o serviço com gestos mecânicos, ausente e corroída, dominada por um estado de alerta impotente. A filha, fora do seu alcance, à mercê da instabilidade anímica do pai.

Margarete levou Luana a jantar fora na sua pizzaria favorita – a dos baloiços com cara de dinossauro no pátio interior. Guete tentou por tudo dissuadir a ressonância do episódio daquela tarde da cabeça da menina – lembrando-a de que a festa tivera muitos momentos alegres, que não desse importância ao chilique de Miguel.

O pai às vezes é mau, pois é Guete, ele fica muito zangado com a mãe e hoje ele ficou zangado contigo, eu vi.

Esquenta, não, Luana, os adultos são assim mesmo, a gente é difícil de entender, melhor mesmo é ser assim criança, que nem você é. O importante é que a sua festinha foi linda, cheia de amiguinhos, e agora você já tem cinco anos e é uma moça linda.

O pai diz que tu me vais roubar e levar para longe, às escondidas da mãe, o pai disse para eu nunca falar contigo, mas eu gosto de falar contigo, ele disse que conseguia ouvir tudo o que a gente fala, que ele paga a um senhor que está sempre na janela da nossa casa a ouvir a conversa, não é verdade que tu vais-me roubar, pois não, Guete?

É claro que não, menina, você acha que eu ia me dar ao trabalho de roubar uma dorminhoca que nem você, e para que é que eu ia querer uma moça que só sabe é dormir, para me dar despesa, você acha mesmo, aí eu ia ter que te dar comida, comprar roupa, levar na escola, ôxi, Deus me livre, não quero roubar você, não, menina.

Ouvir a pequena Luana falar do pai, perceber a desordem interior em que aquela situação a deixava, transportava Guete para dentro do caldeirão das memórias da sua própria infância. Utilizar estratégias que convencessem a menina a não temê-lo, que visassem desvalorizar a gravidade do cenário envolvente, resultava numa forma voluntária e premeditada de amansar as garras dos seus próprios pesares – esses fantasmas à reprimidos e sempre dados ao oportunismo. Cuidava dela como se assim remediasse a violência porque outrora passara. Amava-a como nunca fora amada nos tempos da meninice em Dançolândia.

Boa noite, meu amor, dorme bem, espero que você tenha gostado do seu dia de aniversário. Já já a mamãe está chegando e vem deitar com você, dorme tranquila, que eu fico aqui do seu lado até você pegar no sono, E cantou-lhe ao ouvido a canção do Sono É Um Gigante.

Antes de adormecer, a menina ainda lhe perguntou, Guete, queres ser minha madrinha, eu não tenho nenhuma madrinha, a mãe é madrinha da Bia, mas eu não tenho uma madrinha.

Então, a partir de hoje pode-me chamar de madrinha, que eu serei a melhor madrinha do mundo para a melhor afilhada do mundo, te amo, viu.

Guete sabia que precisava de um novo espaço para morar, uma nova casa, um quarto alugado, qualquer coisa, não podia mais ficar onde estava, sob pena de uma denúncia de Miguel à polícia.

Durante esse ano, das três vezes que estivera no SEF para tratar do seu processo de residência, foram-lhe sempre sendo requisitados novos documentos, cujas burocracias associadas ao deferimento dos mesmos lhe prolongavam a permanência na precária condição de ilegal. Nesta última tentativa – em que, numa noite gelada de inverno, ficara na fila à porta do SEF, desde as duas da manhã, para conseguir uma senha de atendimento geral quando o gabinete abrisse, às oito – voltou ainda com a informação de que o registo criminal não estava devidamente carimbado, era necessário apostila-lo junto dos serviços de segurança nacional do país de origem. Recorreria a Cida, para que o fizesse, através de procuração, e o enviasse por correio. Mais alguns meses de espera, clausura e angústia permanente.

Qualquer denúncia, qualquer incidente, qualquer contacto com as autoridades lhe valeria um convite de saída e consequente expulsão.

Pelo menos, Pensava, o contrato de trabalho, a manifestação de interesse, o registo nas finanças e segurança social foram aceites e está tudo certo, descontar, eu estou descontando.

Poucos dias depois, vagou um quarto no alojamento da Hamburgueria. Lúcia viu-a enfiar os pertences do seu quarto improvisado, ao fim do corredor, numa simples trouxa de pano e partir.

Era fim-de-semana, Luana estava com o pai. Despediu-se de Guete com um engasgado Amanhã a gente se vê na hamburgueria, até amanhã, amiga, beijo, espero que você fique bem lá no quartinho.

Fechou a porta e chorou a casa vazia, desfez a esperança de uma família que construira no sigilo mais fantasioso. Tirou a rolha à garrafa de cachaça 51, abasteceu o martelinho vezes sem conta e anestesiou-se.

(próximo capítulo: edição 25 de junho)

Com o apoio da Junta de Freguesia da Guia

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“Noi sfruttati a 4 euro l’ora. Basta salari da fame, tagli e precarietà”: in piazza lo sciopero dei lavoratori della cultura

“Siamo sfruttati, invisibili, ricattabili. Con contratti precari e salari da fame. Contro di noi abusi, ricatti e molestie. Ci vogliono divisi e isolati, ma scioperiamo insieme perché siamo stanchi di un lavoro che non è riconosciuto, pagato 4 euro l’ora, dopo dieci anni di formazione e anche più”. A Largo di Torre Argentina, a Roma, a pochi passi dallo storico teatro, tra i più antichi della Capitale con i suoi quasi 300 anni di storia, a scendere in piazza sono stati i lavoratori e le lavoratrici della cultura, per un inedito sciopero generale di tutto il settore. Il primo, secondo gli organizzatori, nella storia del Paese, a cinquant’anni di distanza dall’ultima mobilitazione che coinvolse musei e biblioteche. Ma mobilitazioni e proteste sono state organizzate in tutta la penisola: da Milano a Torino, passando per Napoli, Genova, Cagliari e non solo, a fermarsi, oltre ai teatri, sono stati musei, biblioteche, archivi. A Venezia sono così rimasti chiusi alcuni padiglioni della Biennale, a Firenze l’Archivio di Stato e gli uffici amministrativi degli Uffizi; a Roma chiusi il Museo dei Fori Imperiali, call center turistico e punti informativi, con musei a postazioni ridotte.
“Il nostro contributo e la nostra professionalità sono sistematicamente sminuiti, a livello economico e giuridico, favorendo una generale condizione di precarietà, povertà e incertezza, mentre i profitti vanno nelle tasche di pochi“, hanno rivendicato nel corso dell’assemblea pubblica, alla quale hanno partecipato artisti, dipendenti del settore pubblico e privato, autonomi dello spettacolo e dell’editoria, archivisti, bibliotecari, ma anche archeologi e storici dell’arte, insieme ad associazioni e collettivi come “Mi riconosci?” e ‘Vogliamo tutt’altro‘, passando per la Fp Cgil, i sindacati di base e le Camere del lavoro autonomo e precario (Clap).
Diverse realtà che, dopo più di un anno di confronto, sono riuscite a stilare un programma di rivendicazioni condivise, in grado di andare oltre la frammentazione del settore, per cercare soluzioni e lotte comuni, di fronte alle condizioni inaccettabili di precarietà strutturale, ai ripetuti tagli governativi al finanziamento pubblico, ai processi ormai continui di esternalizzazione, alle carenze croniche nel personale.
“Siamo accomunate dalla precarietà, siamo stagiste, finte partite IVA, lavoratori con contratti brevi, lunghi e medi. A collaborazione, a prestazione occasionale, in nero, lavoriamo coi corpi, con le nostre parole e con i nostri saperi”, c’è chi ha rivendicato dalla piazza. “Dopo 20, 30 anni della stessa narrazione, che vuole i lavoratori separati, vogliamo invertire la rotta. E dire che i salari di questo settore fanno schifo. Serve un salario minimo, perché il paradosso molto spesso è che chi tiene aperti i musei, le biblioteche, i teatri non può permettersi di fruire di un museo o di vedere uno spettacolo a teatro, perché viene pagato troppo poco. Quindi serve un reddito universale, perché in questo settore spesso e volentieri c’è tantissimo lavoro che non viene pagato”, ha rivendicato Tiziano Trobia, coordinatore nazionale delle Clap. Perché, ha sottolineato un’attrice in piazza, “il lavoro non è solamente il momento in cui si va sul palco e si fanno le prove, ma è tutto quello che viene prima, la preparazione, la scrittura. E tutto poi quello che viene dopo, come la promozione”. Eppure, ha aggiunto, “questa parte del lavoro non ha un riconoscimento economico e questo vuol dire che viviamo in una precarietà economica enorme, che non ci permette di immaginare un futuro, farci delle famiglie o di avere un mutuo”.

L'articolo “Noi sfruttati a 4 euro l’ora. Basta salari da fame, tagli e precarietà”: in piazza lo sciopero dei lavoratori della cultura proviene da Il Fatto Quotidiano.

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