Francisco Amaral critica consulta de tabagismo no IPO marcada para 2027
O médico e antigo presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, Francisco Amaral, criticou publicamente uma marcação do Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil para uma primeira consulta de tabagismo apenas em maio de 2027.
A publicação, feita nas redes sociais a 26 de maio, foi acompanhada por uma fotografia de um agendamento do IPO Lisboa, onde surge uma consulta de “Primeira Tabagismo” da área de Pneumologia marcada para 10 de maio de 2027, às 14:30.

“Assim não”, escreveu Francisco Amaral, defendendo que esperar quase um ano pode comprometer o momento em que o fumador decide deixar de fumar. Na mesma publicação, o médico sublinhou que “uma das razões do êxito” do Programa de Combate ao Tabagismo do Município de Castro Marim é precisamente a consulta de cessação tabágica acontecer “no próprio dia” em que o fumador toma a decisão.
A observação vai ao encontro de uma posição que Francisco Amaral já defendia publicamente em 2018: “a consulta tem que ser imediata” para aproveitar a motivação do fumador no momento em que decide parar.
O caso divulgado por Francisco Amaral diz respeito a uma consulta de cessação tabágica, não a uma consulta de tratamento oncológico. Ainda assim, ganha especial relevância por envolver o IPO Lisboa, uma unidade do SNS com área de influência direta que inclui Lisboa e Vale do Tejo, Alentejo e Algarve.

O próprio mapa público da Rede de Consultas de Apoio Intensivo à Cessação Tabágica da ARS Lisboa e Vale do Tejo, atualizado em 2023, identifica no IPO Lisboa uma consulta de cessação tabágica no Serviço de Pneumologia, com funcionamento semanal à segunda e quinta-feira, destinada a utentes do IPO e funcionários, por referenciação interna.
Em Castro Marim, Francisco Amaral tem sido uma das figuras centrais no combate ao tabagismo. O programa municipal foi implementado em 2015 e trabalha em duas frentes: sensibilização e motivação para deixar de fumar, e acompanhamento clínico e psicológico ao longo do processo.
Segundo a informação institucional da autarquia, o programa começa com uma consulta de cessação tabágica com médico e psicólogo e mantém acompanhamento até à alta.
Os dados mais recentes divulgados pelo Município de Castro Marim apontam para mais de mil consultas realizadas e mais de 800 pessoas que terão deixado de fumar ao fim de um ano, com uma taxa de sucesso de 82,37%. A autarquia refere ainda que a iniciativa assenta num modelo de voluntariado médico promovido por Francisco Amaral, que criou e lidera o projeto.
Câmara inaugurou a escultura “Eco Pulmão”
O impacto do programa tem ultrapassado o concelho. Segundo notícias publicadas em 2025, os participantes chegaram não só de Castro Marim, mas também de Vila Real de Santo António, Tavira, Faro, Mértola, Almodôvar, Portimão, Loulé e Lisboa, além de pessoas oriundas de países como Espanha, Alemanha e Reino Unido.
Para além das consultas, o projeto tem promovido campanhas de sensibilização, encontros de ex-fumadores e ações públicas como a escultura “Eco-Pulmão”, instalada na Praça 1.º de Maio, em Castro Marim. A aposta de Castro Marim na prevenção não é recente. Em 2019, a Câmara inaugurou a escultura “Eco Pulmão”, da autoria de Carlos Correia, como forma de alertar para os malefícios do tabaco e para o impacto ambiental das beatas. Na altura, a autarquia referia uma taxa de sucesso a rondar os 85% e 437 aderentes ao programa, números que entretanto cresceram de forma significativa.

Francisco Amaral, que terminou funções autárquicas em 2025 após 32 anos à frente dos municípios de Alcoutim e Castro Marim, manteve disponibilidade para continuar a dar o seu contributo voluntário como médico. O antigo autarca tem uma carreira ligada à medicina geral e familiar e ao poder local, tendo sido presidente da Câmara de Castro Marim entre 2013 e 2025.
A crítica agora feita ao agendamento do IPO surge num contexto em que o cancro do pulmão continua a ser uma das grandes preocupações de saúde pública. O cancro do pulmão é a principal causa de morte por doença oncológica em Portugal e tem forte associação ao consumo de tabaco. A European Lung Foundation refere que entre 80% e 90% dos casos de cancro do pulmão são atribuíveis ao tabaco.
Castro Marim foi recentemente apontado como o concelho algarvio com menor incidência de cancro do pulmão, segundo dados divulgados durante as 16.ªs Jornadas de Pneumologia do Algarve.
A autarquia associa esse resultado ao trabalho desenvolvido pelo Programa de Combate ao Tabagismo, embora uma relação causal direta deva ser lida com prudência, por depender de vários fatores epidemiológicos.
A rede nacional de cessação tabágica existe no SNS desde a Lei do Tabaco de 2007, mas o próprio despacho que criou a rede de referenciação em 2015 reconhecia dificuldades de cobertura em todo o território nacional.
O mesmo diploma defendia a organização de consultas de apoio intensivo à cessação tabágica e o acompanhamento dos fumadores em vários momentos do processo.
Para Francisco Amaral, a questão central continua a ser o tempo de resposta. Quando um fumador decide deixar de fumar, defende o médico, a intervenção deve ser rápida.
O caso agora divulgado, com uma primeira consulta marcada para 2027, reacende o debate sobre a capacidade do SNS para responder em tempo útil a uma decisão que, muitas vezes, depende de uma janela curta de motivação.
Números do programa de Castro Marim
Ano de implementação: 2015
Consultas realizadas: mais de 1.000
Pessoas que terão deixado de fumar ao fim de um ano: mais de 800
Taxa de sucesso divulgada: 82,37%
Modelo: voluntariado médico, com acompanhamento clínico e psicológico
Informações/marcações: 961 010 169
IPO Lisboa diz que consulta de cessação tabágica tem “caráter complementar”
Questionado pelo POSTAL sobre a marcação de uma primeira consulta de tabagismo para 10 de maio de 2027, o IPO Lisboa respondeu que as consultas de cessação tabágica no SNS “devem ser asseguradas, de forma preferencial, pelos cuidados de saúde primários da área de residência”, por serem estes a “porta de entrada” e a estrutura que garante o acompanhamento regular dos utentes.
Na resposta enviada ao POSTAL, o Instituto Português de Oncologia de Lisboa acrescenta que, naquela unidade, esta resposta “assume um caráter complementar”, enquadrado “no contexto do tratamento oncológico ativo e da saúde ocupacional dos profissionais”, integrando-se na abordagem global da doença e na otimização dos resultados terapêuticos.
O IPO Lisboa adianta ainda que, em 2025, a Consulta de Cessação Tabágica realizou 915 consultas.
A resposta, datada de 12 de junho, não esclarece, contudo, se existem atualmente primeiras consultas de tabagismo marcadas para 2027, qual o tempo médio de espera, quantas vagas estão disponíveis por semana, se há mecanismos de antecipação em casos urgentes, nem a razão concreta para o agendamento divulgado por Francisco Amaral.

POSTAL solicitou ao IPO Lisboa os seguintes esclarecimentos, mas, como se pode ver na missiva recebida na redação e que reproduzimos acima, a resposta não esclareceu as questões em causa.
- Confirma o IPO Lisboa que existem primeiras consultas de cessação tabágica atualmente marcadas para 2027?
- Qual é, neste momento, o tempo médio de espera para uma primeira consulta de cessação tabágica no IPO Lisboa?
- A consulta de cessação tabágica no IPO Lisboa destina-se apenas a utentes acompanhados no próprio Instituto e funcionários, ou também recebe utentes referenciados externamente?
- No caso de um fumador que pretenda deixar de fumar com urgência, existem alternativas, mecanismos de priorização ou possibilidade de antecipação da consulta?
- Qual a razão para uma eventual marcação de primeira consulta de tabagismo a cerca de um ano de distância?
- Quantas consultas de cessação tabágica realiza atualmente o IPO Lisboa por semana e qual a capacidade disponível?
- Pretende o IPO Lisboa comentar a crítica feita por Francisco Amaral, que defende que a consulta deve ocorrer no momento em que o fumador decide deixar de fumar?
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