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O «narcoterrorismo» e a possibilidade de interferência dos EUA no Brasil

Não se trata, no Brasil, de uma disputa entre um campo político anti-EUA e um campo político pró-EUA, mas de uma disputa entre dois setores políticos que querem o apoio dos EUA para governarem o Brasil.

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No dia 5 de junho de 2026, o Departamento de Estado dos EUA confirmou a inclusão das duas maiores organizações narcotraficantes do Brasil – o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) – na lista de organizações consideradas terroristas pelos EUA. O motivo principal alegado seria o fato de que as operações de ambas organizações teriam passado a afetar os EUA e envolveriam pelo menos alguns elos estadunidenses, enquanto o objetivo com essa categorização seria facilitar o uso de mecanismos econômico-financeiros para estrangular essas organizações, especialmente no que concerne sua capacidade de lavar e movimentar dinheiro usando instituições financeiras internacionais.

Oficialmente, com essa medida, todas as instituições bancárias e financeiras dos EUA, automaticamente, congelariam os bens e recursos de quaisquer indivíduos ou empresas ligadas às organizações em questão. Simultaneamente, eles não conseguiriam transferir recursos utilizando instituições estadunidenses ou ligadas aos EUA. Ainda, os EUA passariam a ter mecanismos para pressionar instituições bancárias e financeiras estrangeiras para que, também, congelassem bens e recursos e deixassem de autorizar movimentações e transferências.

No Brasil, oficialmente, a designação é vista como, em primeiro lugar, um artifício visando legitimar eventuais interferências diretas ou indiretas (sejam de teor político, financeiro, jurídico, eleitoral, etc.) no país; e, em segundo lugar, como um equívoco teórico, já que se considera que as organizações narcotraficantes não podem ser categorizadas como terroristas, por definição, por elas estarem supostamente privadas de uma dimensão política ou religiosa. A figura do “narcoterrorismo”, assim, é vista como mera narrativa legitimadora de intervenções.

Para complicar a equação, porém, essa semana, o instituto AtlasIntel divulgou uma pesquisa que indica que 53% da população brasileira apoia a decisão dos EUA, uma parcela superior até mesmo à dos apoiadores de Bolsonaro (41,8%, conforme o mesmo instituto), o que representa um problema significativo para Lula, bem como um calcanhar de Aquiles fácil de ser explorado.

O próprio Flávio Bolsonaro reivindica, junto com seu irmão Eduardo, a responsabilidade por convencer Donald Trump e Marco Rubio a tomarem essa decisão. Se for verdade, a jogada é inteligente. Flávio Bolsonaro sofreu um impacto significativo em suas intenções de voto após revelações de uma conexão bastante próxima com o banqueiro e especulador brasileiro Daniel Vorcaro, preso ano passado e acusado de envolvimento com inúmeros esquemas fraudulentos e criminosos que movimentaram bilhões em dólares em parceria com diversos políticos (do governo e da oposição) e juízes. Mas ao transferir o foco midiático para o problema da segurança pública, Bolsonaro coloca Lula numa área na qual ele reiteradamente comete erros estúpidos e impopulares.

É que como com todos os políticos liberal-progressistas, Lula e seu partido defendem uma narrativa segundo a qual traficantes, ladrões e assassinos seriam “vítimas da sociedade”, que deveriam ser “reeducados” e não combatidos, em vez de vê-los como parasitas sociais que precisam ser extirpados da face da terra. Reiteradamente, Lula já se referiu a criminosos como “coitados” que só roubam para “tomar uma cervejinha”, e recentemente disse que traficantes eram “vítimas” dos “usuários”. Como não poderia deixar de ser, assim que soube da decisão dos EUA, Lula disse em público que estava “muito triste” pelos “nossos criminosos” serem considerados terroristas.

Para que se entenda a seriedade do problema de segurança pública no Brasil, é necessário apontar que aproximadamente 20% da população brasileira vive em territórios sob controle direto de organizações criminosas. Essa semana mesmo, num bairro de uma cidade periférica próxima ao Rio de Janeiro, membros do CV assumiram o controle de um condomínio e impuseram uma “taxa de moradia” a todos os moradores. Poucos anos atrás, na região Nordeste, uma pequena cidade inteira foi evacuada por ordem de uma organização criminosa. Massacres de comerciantes que se recusam a pagar “taxas” para os criminosos se tornaram algo corriqueiro, para não falar na violência quotidiana. Organizações como o CV cobram aluguel, taxas aos comerciantes e oferecem serviços de luz, água, internet e TV a cabo. Em alguns casos, são também responsáveis por igrejas evangélicas. No caso específico do PCC, estamos falando de uma organização num patamar ainda superior, que controla postos de gasolina, usinas de cana, fazendas, fintechs, juízes, policiais e uma miríade de outros ativos, atuando não apenas em todo o Brasil, mas em dezenas de outros países.

Claramente, independentemente da questão específica da classificação do PCC e do CV e o papel dos EUA nisso, bem como seus reais interesses, estamos falando de circunstâncias que foram toleradas pelo Estado brasileiro, que simplesmente permitiu que a situação saísse do controle. Nisso, também, é importante destacar o papel do Judiciário, educado em teses delirantes de origem europeia que levam os juízes a sempre soltarem os criminosos o mais rápido possível, bem como o papel das ONGs de direitos humanos, que atuam perseguindo policiais e defendendo criminosos.

Agora, de que maneira os EUA podem prejudicar o Brasil com essa classificação das organizações criminosas como terroristas, caso este seja, de fato, o seu interesse? Existem várias possibilidades.

A possibilidade de pressionar bancos estrangeiros abre um caminho para acusar os bancos brasileiros de cumplicidade com as organizações criminosas e, com isso, facilitar que sejam sancionados. A resposta adequada a isso é o governo brasileiro obrigar os bancos a serem mais rigorosos na fiscalização de transferências financeiras. Mas nisso tudo, uma pressão ainda maior pode recair sobre o “PIX” o sistema brasileiro de pagamentos automáticos que, hoje, é mais usado que o VISA ou o Mastercard e que tem sido constantemente criticado pelos EUA. O curioso, aqui, é que o PIX foi criado pelo próprio governo Bolsonaro…

Uma outra via de agressão contra o Brasil pode passar pelo etanol de cana-de-açúcar. Existe uma rivalidade de mais de 20 anos com os EUA nesse setor, já que os EUA também têm uma grande produção de biocombustíveis, porém baseados no milho. Considerando que uma pequena parcela da produção de etanol do Brasil (estima-se que 1-2%) seja controlada pelo PCC, todo o produto pode acabar sendo artificiosamente sancionado pelos EUA, conquistando, assim, para o etanol de milho, novos mercados.

Não se pode, porém, descartar a possibilidade de um jogo ainda mais sujo por parte dos EUA. Historicamente, organizações criminosas que são forçadas a recuar num determinado setor sempre buscam compensar as perdas através de outras operações. Um ataque coordenado e em larga escala contra as operações de lavagem de dinheiro e as movimentações do PCC, podem fazer regredi-lo para as atividades de dominação territorial e para outras formas de crime, como o roubo a bancos, sequestros, etc. Considerando, porém, que o PCC se faz presente em todo o país, estaríamos falando de um possível aumento da violência em larga escala, o que poderia, inclusive, desestabilizar o governo. Isso poderia ser não apenas uma hipótese, mas o próprio design dessa movimentação do governo dos EUA.

Engana-se, ademais, que crê que o governo Lula está se preparando para resistir. Na verdade, o governo Lula já fala em concessões para tentar apaziguar Donald Trump. A realidade é que não se trata, no Brasil, de uma disputa entre um campo político anti-EUA (Lula) e um campo político pró-EUA (Bolsonaro), mas de uma disputa entre dois setores políticos que querem o apoio dos EUA para governarem o Brasil.

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‘Narcoterrorism’ and the possibility of U.S. interference in Brazil

The reality is that this is not, in Brazil, a dispute between an anti-U.S. political camp and a pro-U.S. political camp, but a dispute between two political sectors that both want U.S. support to govern Brazil.

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On June 5, 2026, the U.S. State Department confirmed the inclusion of Brazil’s two largest drug trafficking organizations – Comando Vermelho (CV) and Primeiro Comando da Capital (PCC) – on the list of organizations considered terrorist by the U.S.. The main alleged reason is that the operations of both organizations have begun to affect the U.S. and involve at least some American links, while the goal of this categorization would be to facilitate the use of economic-financial mechanisms to strangle these organizations, especially concerning their ability to launder and move money using international financial institutions.

Officially, with this measure, all U.S. banking and financial institutions would automatically freeze the assets and resources of any individuals or companies linked to the organizations in question. Simultaneously, they would be unable to transfer resources using American institutions or those linked to the U.S.. Furthermore, the U.S. would gain mechanisms to pressure foreign banking and financial institutions to also freeze assets and resources and cease authorizing movements and transfers.

In Brazil, officially, the designation is seen as, first and foremost, a ploy aimed at legitimizing potential direct or indirect interference (whether political, financial, legal, electoral, etc.) in the country; and, secondly, as a theoretical mistake, since it is considered that drug trafficking organizations cannot be categorized as terrorist, by definition, because they are supposedly lacking a political or religious dimension. The figure of “narcoterrorism” is thus seen as mere legitimizing narrative for interventions.

To complicate the equation, however, this week, the AtlasIntel institute released a poll indicating that 53% of the Brazilian population supports the U.S. decision, a share even higher than that of Bolsonaro supporters (41.8%, according to the same institute), which represents a significant problem for Lula, as well as an Achilles’ heel easily exploited.

Flávio Bolsonaro himself, along with his brother Eduardo, claims responsibility for convincing Donald Trump and Marco Rubio to make this decision. If true, it is a smart move. Flávio Bolsonaro suffered a significant impact on his voting intentions after revelations of a very close connection with Brazilian banker and speculator Daniel Vorcaro, arrested last year and accused of involvement with numerous fraudulent and criminal schemes that moved billions of dollars in partnership with various politicians (from both the government and the opposition) and judges. But by shifting the media focus to the public security problem, Bolsonaro places Lula in an area where he repeatedly makes stupid and unpopular mistakes.

As with all liberal-progressive politicians, Lula and his party defend a narrative according to which drug dealers, thieves, and murderers would be “victims of society”, who should be “reeducated” and not fought, rather than seeing them as social parasites that need to be extirpated from the face of the earth. Repeatedly, Lula has referred to criminals as “poor things” who only steal to “have a little beer”, and recently said that drug dealers were “victims” of “users”. Unsurprisingly, as soon as he learned of the U.S. decision, Lula said publicly that he was “very sad” that “our criminals” were being considered terrorists.

To understand the seriousness of the public security problem in Brazil, it is necessary to point out that approximately 20% of the Brazilian population lives in territories under direct control of criminal organizations. Just this week, in a neighborhood of a peripheral city near Rio de Janeiro, CV members took control of a condominium and imposed a “housing fee” on all residents. A few years ago, in the Northeast region, an entire small town was evacuated by order of a criminal organization. Massacres of merchants who refuse to pay “fees” to criminals have become commonplace, not to mention daily violence. Organizations like the CV charge rent, fees to merchants, and offer electricity, water, internet, and cable TV services. In some cases, they are also responsible for evangelical churches. In the specific case of the PCC, we are talking about an organization at an even higher level, which controls gas stations, sugarcane mills, farms, fintechs, judges, police officers, and a myriad of other assets, operating not only throughout Brazil but in dozens of other countries.

Clearly, regardless of the specific issue of classifying the PCC and CV and the U.S. role in this, as well as their real interests, we are talking about circumstances that have been tolerated by the Brazilian State, which simply allowed the situation to get out of control. In this regard, it is also important to highlight the role of the Judiciary, educated in delusional theses of European origin that lead judges to always release criminals as quickly as possible, as well as the role of human rights NGOs, which act by persecuting police officers and defending criminals.

Now, in what ways can the U.S. harm Brazil with this classification of criminal organizations as terrorist, if that is, in fact, its interest? There are several possibilities.

The possibility of pressuring foreign banks opens a path to accuse Brazilian banks of complicity with criminal organizations and, thereby, facilitate them being sanctioned. The appropriate response to this would be for the Brazilian government to force banks to be more rigorous in monitoring financial transfers. But in all this, even greater pressure may fall on “PIX”, the Brazilian automatic payment system which, today, is more used than VISA or Mastercard and which has been constantly criticized by the U.S.. The curious thing here is that PIX was created by the Bolsonaro government itself…

Another avenue of aggression against Brazil may involve sugarcane ethanol. There is a rivalry of more than 20 years with the U.S. in this sector, since the U.S. also has a large biofuel production, but based on corn. Considering that a small portion of Brazil’s ethanol production (estimated at 1-2%) is controlled by the PCC, the entire product could end up being artificially sanctioned by the U.S., thus securing new markets for corn ethanol.

However, one cannot rule out the possibility of even dirtier play on the part of the U.S.. Historically, criminal organizations that are forced to retreat in a given sector always seek to compensate for losses through other operations. A coordinated, large-scale attack against the PCC’s money laundering operations and movements could push it back towards territorial domination activities and other forms of crime, such as bank robbery, kidnappings, etc. Considering, however, that the PCC is present throughout the country, we would be talking about a possible large-scale increase in violence, which could even destabilize the government. This could be not only a hypothesis, but the very design of this U.S. government move.

Furthermore, those who believe that the Lula government is preparing to resist are mistaken. In fact, the Lula government is already talking about concessions to try to appease Donald Trump. The reality is that this is not, in Brazil, a dispute between an anti-U.S. political camp (Lula) and a pro-U.S. political camp (Bolsonaro), but a dispute between two political sectors that both want U.S. support to govern Brazil.

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