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Bezos: Prometheus vai "acelerar o ciclo de invenção"

Com financiamento acima de 12 mil milhões de euros e talentos da OpenAI, a Prometheus ambiciona acelerar a invenção em áreas como motores a jato, robótica e medicamentos.

© AFP via Getty Images

Jeff Bezos anunciou o projeto Prometheus em novembro de 2025, sendo co-CEO juntamente com Vik Bajaj.
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Empreendedores e empresas juntam-se na “Future Business Summit” em Portimão

A StartUP Portimão promove, no próximo dia 19 de Junho, entre as 09h00 e as 13h00, na Casa Manuel Teixeira Gomes, o Future Business Summit – O Futuro das Empresas e da Liderança.

Esta é uma iniciativa que reunirá empreendedores da comunidade StartUP Portimão e do Portimão Cowork Space para partilharem experiências, soluções e perspetivas sobre os desafios e oportunidades que atualmente moldam o mundo empresarial.

Promovido pela incubadora de empresas do Município de Portimão, o Future Business Summit pretende aproximar o conhecimento, a experiência e a capacidade de inovação existentes no ecossistema empreendedor local das empresas e organizações da região, criando um espaço de reflexão, aprendizagem e partilha entre empreendedores, empresários, gestores e profissionais de diferentes áreas.

Ao longo da manhã, o Future Business Summit irá promover momentos de reflexão e debate em torno de dois temas centrais para a competitividade das organizações. O painel dedicado à Aceleração Digital nas Empresas contará com os contributos de Nádia Veloso, da 3HR Solutions, Carla Martins, da BLiSS Image & Life Consulting, e Raquel Melo, da Inboundware, que irão partilhar experiências e perspetivas sobre liderança e alta performance, comunicação com propósito, valorização do talento e construção de marcas diferenciadoras num contexto empresarial cada vez mais exigente e digital.

Já o painel “O Fator Humano na Era da Inteligência Artificial” reunirá Luís Silva, da Tecnologias Imaginadas, João Amado e Sara Cartucho, da JFA Training, e Tiago Fernandes, da Thinkerdots, para abordar temas como a literacia digital, a cibersegurança, a utilização prática da inteligência artificial nas empresas e o seu impacto nos processos de inovação, tomada de decisão e desenvolvimento de produtos e serviços.

A componente prática da iniciativa será assegurada através de um conjunto de workshops temáticos dinamizados pelos próprios empreendedores da comunidade StartUP Portimão e Portimão Cowork Space, permitindo aos participantes aprofundar conhecimentos e experimentar metodologias e ferramentas aplicáveis ao contexto profissional.

As sessões irão abordar áreas como a gestão de pessoas, a estratégia de imagem e comunicação, a construção de marcas diferenciadoras, a utilização prática da inteligência artificial em contexto empresarial e a cibersegurança, proporcionando momentos de aprendizagem, experimentação e contacto direto com quem diariamente desenvolve soluções e projetos inovadores no mercado.

Ao reunir empreendedores, empresários, gestores e profissionais de diferentes setores de atividade, o Future Business Summit reforça a missão da StartUP Portimão enquanto plataforma de dinamização do empreendedorismo, da inovação e da transferência de conhecimento, promovendo a criação de redes de colaboração e contribuindo para o fortalecimento do ecossistema empresarial do concelho e da região.

A participação no Future Business Summit é gratuita, mediante inscrição prévia, estando sujeita à lotação disponível. As inscrições podem ser efetuadas através do formulário disponível em https://forms.office.com/e/YjGzHQJsiv onde poderá igualmente ser consultado o programa detalhado da iniciativa.

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Os trilhos da oportunidade: a corrida das empreendedoras do Sertão para embarcar na Transnordestina

A primeira boneca nasceu de uma camiseta. Maria da Paz precisava aumentar a renda, pegou uma peça do próprio guarda-roupa, cortou e costurou à mão um brinquedo que ela mesma não imaginava que viraria ofício. "Mostrei às colegas, agradou, agradou a clientela, e comecei a fazer bonecas para vender.

A partir dessa iniciativa, as portas se abriram", conta a artesã de Arcoverde, hoje aposentada, que costura na sala de casa entre uma tarefa doméstica e outra. Veterana das feiras de artesanato – entre elas a Feneart –, ela também ministra oficinas e já foi contemplada com projetos das leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo. "Artesanato é inspiração, é sentimento, é alma."

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Artesã, aposentada, faz bonecas de pano à mão desde antes de 2020. - Cortesia

É exatamente na cidade dela, Arcoverde, que outra costura começa – só que de aço. Em outubro de 2025, o governo federal lançou o edital para retomar 73 quilômetros de trilhos parados desde 2016, o chamado Lote SPS-04 do ramal pernambucano da Ferrovia Transnordestina.

São R$ 200 milhões anunciados, dentro de um projeto de R$ 14,9 bilhões que promete ligar o interior aos portos e despejar, segundo o governo, cerca de 6 mil empregos diretos e indiretos no Sertão do Moxotó. Para cidades que vivem de transferências constitucionais e do comércio miúdo, é um número que reacende a esperança.

Mas entre a esperança do canteiro e a realidade da costureira existe um abismo feito de calendário. A grande obra compra como empresa grande: nota fiscal impecável, certidões em dia, prazo de pagamento de 60, 90, até 120 dias depois da entrega. A pequena fornecedora vive no giro diário – paga o material à vista, a funcionária na quinzena, o imposto no dia 20. É o descompasso que pode transformar a maior oportunidade da década na armadilha que quebra o negócio.

A poucas quadras do ateliê de Maria da Paz, na Praça da Bandeira, Ana Valéria Chaves comanda a cozinha da Trattoria Don Preto, restaurante de massa artesanal italiana referência no Sertão. Diferente da artesã, ela já cruzou a catraca da formalização, emite nota, tem fornecedores, equipe, e enxerga com clareza o tamanho do que vem por aí, mas é justamente por isso que se prepara com pé atrás.

"Esse é um dos maiores desafios dos pequenos empreendedores. Os insumos precisam ser comprados diariamente, os funcionários precisam receber seus salários em dia, e todas as despesas continuam acontecendo independentemente do prazo de recebimento dos contratos."

 

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Valeria Chaves - Cortesia

A pressão começa antes mesmo do primeiro pedido sair da cozinha. "Os desafios são diários: aumento dos preços dos insumos, carga tributária elevada, dificuldade de mão de obra qualificada e a necessidade de manter a qualidade mesmo diante das oscilações do mercado."

Valéria conta que a Trattoria já tem experiência em eventos e fornecimento de refeições, e estuda atender as demandas corporativas que devem chegar com a obra. Mas a régua que ela aplica a esse tipo de contrato não é o tamanho do cheque – é se a operação aguenta os meses entre entregar e receber.

"Trabalhamos com controle rigoroso do fluxo de caixa e buscamos manter relações transparentes com fornecedores e parceiros. Nem sempre o maior contrato é o melhor contrato. Muitas vezes é preciso analisar se a operação é sustentável financeiramente. Crescer é importante, mas crescer de forma responsável é essencial para garantir a continuidade do negócio."

E nem todas as empreendedoras do entorno da obra estarão tão preparadas quanto ela. Maria da Paz, por exemplo, sequer cruzou a primeira catraca. "Eu não sou formalizada com o MEI", admite. "Seria uma boa oportunidade para trabalhar com as pessoas em associações, mas eu ainda não sou formalizada." A frase, dita sem drama, resume a distância real entre o discurso do "empreendedorismo para todos" e o portão de entrada das grandes obras, onde quem não tem CNPJ ativo nem chega a ser olhado.

A OBRA EM NÚMEROS

R$ 200 mi
Investimento do trecho
Referência do pregão: R$ 415 mi · Lote SPS-04
73 km
Custódia → Arcoverde
37% já executado fisicamente
~6 mil
Empregos previstos
Diretos e indiretos · contrato de 57 meses
R$ 14,9 bi
Projeto total
+1.200 km · Eliseu Martins (PI) a Suape (PE)
~8,7%
Desemprego em PE (2025)
Um dos maiores do país — IBGE / PNAD Contínua
~48%*
Na informalidade (PE)
Quase 1 em cada 2 trabalhadores

*Estimativa citada pelo economista Werson Kaval (4º trimestre de 2025). Demais dados: Ministério dos Transportes / Infra S.A. (out/2025) e IBGE.

Armadilha 

Para o economista Werson Kaval, professor do Centro Universitário Tiradentes (UNIT), a euforia precisa ser lida com a calculadora na mão.

"A Transnordestina pode gerar renda ao Sertão, mas não transformar automaticamente a informalidade em desenvolvimento local sustentável. Sem política de compras locais, capital de giro, capacitação e proteção contratual, parte relevante dos pequenos fornecedores pode entrar na obra achando que está diante de uma grande oportunidade e, na verdade, sair endividada", afirmou. 

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Werson Kaval - Economista e professor do Centro Universitário Tiradentes (UNIT), especialista em desenvolvimento regional. - Cortesia

O alerta tem chão estatístico. Pernambuco fechou 2025 com uma das maiores taxas de desemprego do país, na casa dos 8,7%, segundo o IBGE, e, mais grave para esta história, com quase metade da força de trabalho na informalidade.

Kaval cita o índice de informalidade do estado em torno de 47,8% no fim de 2025: praticamente um em cada dois trabalhadores fora da carteira assinada, do CNPJ, das certidões. "A pergunta central não é se haverá oportunidade", resume o economista, "mas quem terá estrutura para capturar essa oportunidade."

É aqui que entra o conceito que dá nome à dor sentida no caixa da Trattoria Don Preto e em mil outros balcões do Sertão. Kaval o chama pelo nome técnico: descasamento do ciclo financeiro. "Se a empresa pequena vende hoje e só recebe em 60, 90 ou 120 dias, ela termina por virar uma financiadora informal das grandes construtoras", explica.

O pequeno fornecedor precisa pagar combustível, mercadoria, funcionário, imposto e aluguel muito antes de o dinheiro da obra cair na conta. Quando falta capital de giro, "a respiração financeira da empresa", nas palavras dele, recorre ao cheque especial, ao cartão, à antecipação de recebíveis.

E aí a margem evapora. "O lucro esperado é consumido por juros, multas e descontos para antecipar. O empresário passa a administrar a sobrevivência financeira em vez de melhorar a operação."

A consequência é cruel na sua aritmética: a empresa pode parecer lucrativa no papel e quebrar mesmo assim. "Faturamento sem gestão não garante resultado", diz Kaval, ecoando um diagnóstico que o próprio Sebrae repete há anos sobre a mortalidade precoce dos pequenos negócios, no Brasil, cerca de 40% das empresas não chegam aos cinco anos.

 

ARMADILHA DO FLUXO DE CAIXA

DIA 1

Compra à vista

Insumos pagos na hora – e no varejo inflacionado. Cimento e aço chegaram a subir entre 114% e 205%.

 

Caixa: esvaziando

DIA 30

Entrega + nota fiscal

Produto entregue. Mas a folha vence na quinzena e o imposto no dia 20. As contas não esperam.

 

Caixa: no limite

DIA 120

Pagamento

Só agora a construtora paga, após a "medição" do engenheiro. Quatro meses depois do primeiro gasto.

 

Caixa: vermelho

O descasamento do ciclo financeiro: quando a pequena empreendedora se torna financiadora informal das grandes construtoras.

Mas a armadilha do caixa é só o primeiro tempo do jogo. O segundo é o que a literatura econômica batiza de boom e colapso (boom and bust) – e que Kaval descreve com a frieza de quem já viu o filme. "A obra chega, aumenta a demanda por comida, hospedagem, transporte, material, combustível. Existe um movimento econômico muito grande no entorno.

Agora, depois que o canteiro é desmobilizado, os trabalhadores vão embora, o consumo cai e sobram dívidas, estoque parado, um negócio superdimensionado para quem não trabalhou planejado.

O risco, no caso pernambucano, é maior porque a obra carrega um histórico de paralisações: o trecho Salgueiro–Suape foi devolvido pela concessionária privada em 2022, virou obra pública sob a Infra S.A., e segue sob escrutínio do Tribunal de Contas da União (TCU), que exige novos estudos de viabilidade antes de liberar compromissos financeiros maiores.

Em outras palavras: o trem pode parar de novo. E quem apostou o patrimônio na euforia fica a ver navios ,ou, no caso, a ver os trilhos seguirem para o município vizinho. "Comprar caminhão, pegar pousada emprestada, abrir restaurante só faz sentido se tiver contrato assinado", adverte o economista. "Caso contrário, a obra vira apenas uma folha de pagamento temporária."

A vacina: capacitar antes, unir sempre

Se o diagnóstico assusta, a parte construtiva da história começa onde a esperança encontra método. E o método tem nome: encadeamento produtivo.

A ideia é simples de enunciar e difícil de executar – fazer com que os grandes consórcios, as chamadas "empresas-âncora", se comprometam a comprar localmente, enquanto instituições de fomento preparam o pequeno negócio para entregar com a qualidade e a regularidade que a âncora exige.

Foi assim, lembra Kaval, na chegada dos parques eólicos ao Araripe, em que o Sebrae preparou fornecedores locais para grandes investidores, com contrapartida das próprias empresas demandantes.

Quem traduz esse método para o chão batido do Sertão é Amanda Barbosa, analista do Sebrae na unidade do Sertão Central, que cobre 34 municípios dos sertões do Pajeú, Moxotó e Itaparica, com sede em Serra Talhada.

Ela acompanhou de perto a ansiedade que a obra despertou. "Quando foi divulgada, existia um receio muito grande sobre como os pequenos negócios poderiam reagir à chegada de uma obra tão grande", relata. "Vai aquecer a comunidade em geração de emprego e renda, mas existe também o medo de como o cenário vai ficar quando essas obras encerrarem", complementa. 

A aposta do Sebrae, diz Amanda, é preparar sem deixar a euforia virar dependência. "A nossa ideia é ajudar os pequenos e médios empreendedores a diversificar o atendimento, garantir essas grandes corporações, mas sem abandonar o mercado local.Senão a gente provoca um colapso de abastecimento e, depois da saída dessas empresas, a falência imediata dessas micro e pequenas empresas."

É a vacina contra o boom e colapso, diversificar hoje para sobreviver à desmobilização de amanhã.

Antes disso, porém, há o mesmo portão que barra Maria da Paz: a formalização. "Essas grandes corporações têm legislações a cumprir, trabalham no sistema B2B. Sem CNPJ, não dá", resume a analista.

O papel do Sebrae, explica, é desmistificar o caminho: "A formalização não é um bicho de sete cabeças. O MEI tem limitações, mas é o primeiro passo." A instituição usa programas como o Contrata Mais Brasil – que qualifica pequenos negócios para vender ao governo – como ensaio para a mesma lógica das construtoras: "Vender para o governo é muito parecido com vender para essas grandes empresas."

Quem já fez essa travessia confirma o efeito de virada de chave. "A formalização foi um passo fundamental para o crescimento da Trattoria Don Preto. Hoje podemos emitir notas fiscais, participar de negociações com empresas maiores, atender exigências legais e apresentar toda a documentação necessária para contratos corporativos.

Além disso, trouxe mais organização administrativa, maior controle financeiro e mais credibilidade perante clientes, fornecedores e instituições. Isso nos permitiu enxergar o negócio de forma mais profissional e estratégica", conta Valéria Chaves. 

E é justamente nas exigências que sufocam a empreendedora sozinha – as certidões negativas, os prazos de pagamento – que a união muda o jogo. "Tem certidão de 15 dias, de 30, de 45; órgãos com protocolos diferentes, taxas diferentes. O pequeno negócio não sabe nem por onde emitir", descreve Amanda. "Na associação, o órgão de representação já tem toda essa documentação preparada e atualizada. É um conjunto de documentação única", pontua a analista. 

E é justamente nas exigências que sufocam a empreendedora sozinha – as certidões negativas, os prazos de pagamento, que a união muda o jogo. "Tem certidão de 15 dias, de 30, de 45; órgãos com protocolos diferentes, taxas diferentes. O pequeno negócio não sabe nem por onde emitir.

Na associação, o órgão de representação já tem toda essa documentação preparada e atualizada. É um conjunto de documentação única", explica Ananda. 

O mesmo vale para o fôlego do caixa: "Pelo rateio dos custos e da depreciação do maquinário, o preço fica mais competitivo, e isso ajuda a resistir ao prazo de pagamento de 60 a 120 dias."

Para a ponte final, o crédito, o Sebrae entra como fiador. Amanda cita o FAMPE Mulher, linha em que a instituição avaliza 100% do valor financiado, e o microcrédito do Banco do Nordeste.

"A gente dá o suporte para entender qual a melhor linha, para que a empreendedora não comprometa toda a produção por causa de um prazo de pagamento maior que o normal do comércio."

Mas o programa que Amanda idealizou vai além da planilha. O "Elas Que Fazem" capacita mulheres em três ciclos – Inspirar, Estruturar e Consolidar –, misturando workshops técnicos de precificação, custos e negociação com rodas de conversa sobre os desafios de ser, ao mesmo tempo, mulher, mãe e dona do negócio.

"A gente trata muito a parte psicológica da mulher: o desgaste, o esgotamento, o medo de empreender, a maturidade para permanecer no mercado mesmo com os percalço, principalmente no fornecimento dessas grandes demandas, que exigem muito física e mentalmente."

No último ano, o programa alcançou mais de 400 mulheres e registrou índice de satisfação (NPS) 9; a meta é chegar a 500 em 2026 e a todo o estado em 2027. "Tivemos mulheres que não eram empreendedoras e começaram a empreender na garagem de casa."

Associativismo

Se o Sebrae costura a preparação individual, é o associativismo que devolve escala a quem o mercado tratou como pequeno demais – e nele as mulheres do Sertão e do Agreste já estão se movimentando por conta própria.

Jussara Pereira preside o Conselho da Mulher Empreendedora (CMEC), em Arcoverde, e descreve um clima de entusiasmo cauteloso diante da obra. "As mulheres vêem essa retomada como uma oportunidade para impulsionar hospedagem, alimentação, comércio, serviços e artesanato. Nosso objetivo é que elas sejam protagonistas desse desenvolvimento, e não plateia."

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Jussara Pereira, presidente do Conselho da Mulher Empreendedora (CMEC) de Arcoverde. - Cortesia

Ela conhece de perto a dor que Kaval descreve em planilhas. "A gestão financeira é uma preocupação constante. O aumento do faturamento nem sempre significa mais recursos disponíveis", diz, a tradução, no balcão, do descasamento de ciclo.

E sabe que a porta de entrada continua emperrada na falta de informação. "Muitas empreendedoras desconhecem os requisitos para fornecer a grandes empresas. Regularização fiscal, emissão de notas, documentação, ainda são desafios", afirma a presidente. 

A saída que o CMEC prega é a mesma que o economista defende em tom técnico: ninguém atravessa esse deserto sozinho. "O associativismo fortalece os pequenos negócios. Em rede, as empreendedoras ampliam o acesso a informações, parcerias e oportunidades", afirma Jussara.

Para Kaval, a matemática é direta: unidas em associações, cooperativas ou centrais de negócios, as pequenas compram insumos com escala e desconto, dividem a contabilidade, ganham poder de barganha e conseguem disputar contratos que, sozinhas, jamais alcançariam. "O associativismo resolve parte do problema, mas não é milagre", pondera o economista.

A diferença entre uma coisa e outra, no fim, é dinheiro mais barato na hora certa. O economista lembra que a munição existe: o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) terá R$ 52,6 bilhões em 2026, com a maior parte destinada a micro e pequenos negócios, e o Banco do Nordeste já oferece linhas de capital de giro com carência. "O dinheiro existe", resume Kaval.

"O problema é fazer ele chegar na hora certa, no formato certo e para quem realmente vai fornecer – antes que o pequeno empresário se endivide tentando crescer no escuro", conclui. 

INFOGRÁFICO 5 — A Peneira e a Vacina 

DE FINANCIADORA FRÁGIL A FORNECEDORA FORTE

A peneira

O que exclui a pequena

CNPJ ativo e venda no sistema B2B

Notas fiscais e CFOP sem erros

Certidões negativas federal, estadual e municipal

Due diligence anticorrupção & normas de segurança

Pagamento em 60 a 120 dias

Insumos caros & crédito no varejo

A vacina

O que mantém de pé

Encadeamento produtivo com a empresa-âncora

Capacitação em fluxo de caixa & precificação (Sebrae)

Associativismo: rateio de custos e certidão única

FNE, microcrédito do BNB e FAMPE Mulher

Antecipação de recebíveis com lastro em contrato

Diversificar sem abandonar o mercado local

Legado: o que fica quando o trem passa

Maria da Paz não fala em PIB, em bitola mista ou em medição de engenheiro. Mas ela enxerga, à sua maneira, o problema central de qualquer política de desenvolvimento territorial, a riqueza que só passa não fixa raiz.

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Bonecas de pano, feitas com retalhos de tecido por Maria da Paz; servem para decoração e para o público infantil. - Cortesia

Perguntada sobre o que o artesanato da cidade precisa fazer para crescer com a ferrovia sem depender dela, sua resposta é quase uma tese de economia regional.

"O que a gente precisa é criar uma identidade própria, porque isso traria mais turista para a cidade. Nós não temos ainda um artesanato que identifique a cidade, como Caruaru tem o barro. A partir do momento que for criada essa identidade cultural, eu acredito que tudo mudaria."

Na cozinha da Trattoria, Valéria diz a mesma coisa traduzida em estratégia empresarial. "Nossa estratégia é utilizar esse momento como uma oportunidade de fortalecimento da marca, e não como uma dependência. Os clientes locais continuam sendo a base da nossa história e do nosso crescimento."

A obra é um capítulo, não a sinopse. "Se houver um aumento temporário da demanda, queremos transformá-lo em visibilidade, novos relacionamentos e oportunidades futuras. O objetivo é que a Trattoria Don Preto saia desse ciclo ainda mais forte, consolidada e preparada para crescer de forma sustentável nos próximos anos."

É exatamente o que Jussara e Kaval defendem com outras palavras. "É fundamental investir em qualificação profissional, fortalecimento dos pequenos negócios e desenvolvimento de fornecedores locais. As empresas precisam aproveitar esse período para melhorar sua gestão e se preparar para o futuro. Assim, os benefícios se transformam em empregos, empresas mais fortes e desenvolvimento duradouro", diz a presidente do CMEC.

O economista completa: os negócios que sobrevivem ao canteiro são os que se conectam à economia permanente – gesso, agroindústria, fruticultura, armazenagem, logística, alimentação estruturada – e não os que nasceram apenas para servir café aos operários.

A pergunta de Kaval ainda paira sobre Custódia e Arcoverde: quem terá estrutura para capturar a oportunidade? A resposta, esta reportagem sugere, não virá do peso bruto dos guindastes estatais. Virá do trabalho silencioso e antecipado de capacitar a costureira, formalizar a cozinheira, unir as artesãs em cooperativa e levar crédito justo ao balcão antes que a euforia ofusque a planilha.

Porque quando a poeira da obra baixar e o último dormente for cravado, o legado que importa não será o trilho – será o ecossistema de pequenas fornecedoras formalizadas, organizadas e de pé.

Maria da Paz talvez tenha resumido a principal questão levantada por esta reportagem sem perceber. Ao comentar a possibilidade de vender para grandes empresas, ela afirma: “Se tem condições de atender essas exigências e a demanda, eu não vejo problema nenhum.”

O ponto central está justamente nesse “se”. A chegada da Transnordestina cria oportunidades, mas elas não se distribuem automaticamente. Para que pequenos empreendedores consigam ocupar espaço nessa nova dinâmica econômica, será necessário superar barreiras que vão do acesso a crédito e capital de giro à capacidade de produção, gestão e articulação coletiva.

Mais do que a passagem dos trilhos, é a capacidade de transformar esse “se” em realidade que definirá o legado da ferrovia para o Sertão. É dessa resposta que dependerá se a Transnordestina deixará uma marca duradoura de desenvolvimento regional ou será lembrada apenas como mais um grande projeto que cruzou a região sem alterar de forma profunda as oportunidades de quem vive nela.

© Michel Corvello/Ministério dos Transportes

Retomada das obras da Transnordestina reacende expectativas de geração de emprego e renda no Sertão pernambucano
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