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Filosofia portuguesa, a provável existência | Por Jorge Queiroz

Há uma filosofia portuguesa? Foram diversas as tentativas de sínteses da História da Filosofia Portuguesa.

Nos séculos XVI e XVII a teoria geocêntrica foi substituída pela heliocêntrica, a Terra deixou de ser centro do universo, provou-se girar à volta do sol, a descoberta provocou mudanças profundas. As ciências autonomizaram-se da religião, a filosofia ganhou asas, capacidades e liberdade critica.

Encontramos centenas de obras de filosofia produzidas por autores portugueses ou de períodos anteriores à nacionalidade. As marcas são o debate do cristianismo primitivo face às heresias, identidades, o “encoberto” e o messianismo, sebastianismo, e o Destino, Quinto Império, problemáticas psicanalíticas mais recentes sobre “ser português”.

Da filosofia, repositório de temas da existência, uma breve viagem sobre Portugal.

JORGE QUEIROZ
Sociólogo

Na Idade Media surgiram teólogos como Paulo Orósio do século V, natural de Bracara Augusta, foi a Hipona conhecer Santo Agostinho, ambos escreveram obras inspiradas na tomada de Roma por Alarico I, o primeiro a “História contra os Pagãos” e Agostinho na “Cidade de Deus” reflecte sobre os Bárbaros e o ataque a Roma.

São Martinho de Dume, ou de Braga, no século VI, foi um bispo que escreveu o “De Correctione Rusticorum”, influenciado pelos ciclos astrais sugeriu o início equinocial do ano, a mudança da designação romana dos dias da semana para a forma actual.

Pedro Hispano ou João XXI (1215-1277), único Papa português, foi médico, professor, teólogo, escreveu a “Summulæ Logicales”, análise da lógica aristotélica que teve 260 edições em toda a Europa. Papa durante oito meses, morreu em Viterbo soterrado por um desmoronamento no palácio onde vivia.

D. Duarte (1391-1438), décimo rei de Portugal, o “Rei Filosofo”, escreveu o “Leal Conselheiro” e um manual de cavalaria, o “Livro da Ensinança de Bem Cavalgar Toda Sela”. Morreu vitimado pela peste deixando herdeiro menor, o futuro rei Afonso V “o Africano”.

O Infante D. Pedro (1392-1449) o mais culto da dinastia de Avis, “Infante das Sete Partidas” viajou pela Europa, foi regente dez anos por morte do irmão D. Duarte e por vontade popular. A “Carta de Bruges” dirigida ao irmão contém reflexões e recomendações sobre a boa governação ainda actuais. Escreveu o “Tratado da virtuosa benfeitoria”, traduziu o “Livro dos ofícios” de Cícero. Justo e ético, morreu em Alfarrobeira numa cilada da aristocracia feudal, deixou obra relevante, foi injustamente apagado da História de Portugal.

Com a expansão marítima portuguesa, revelou-se Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), cosmógrafo que negociou o Tratado de Tordesilhas, estava na armada de Pedro Alvares Cabral que “achou” o Brasil, deixou o misterioso “Esmeraldo Situ Orbis”, desaparecido durante 400 anos, reflecte a ciência sustentada pela prática, a “madre de todas as cousas”.

Damião de Góis (1502-1574) destacou-se nos centros da cultura europeia, foi secretário da feitoria de Antuérpia, guarda-mor da Torre do Tombo, conheceu Erasmo e Loyola, na sua extensa obra destacam-se a Crónica de D. Manuel I, universalista com temas inovadores. Despertou invejas, o companheiro jesuíta Simão Rodrigues denunciou-o à Inquisição como erasmista, foi maltratado e preso. Morreu em Alenquer, terra natal onde hoje existe um museu com o seu nome, dedicado às vítimas do Santo Ofício.

Francisco Sanches (1550-1622), foi um filósofo céptico, adversário do pensamento de Aristóteles, a sua obra de referência é “Quod nihil scitur” ou “O Que nada se sabe”.

O jesuíta Padre António Vieira (1608 -1697), missionário e pregador no Brasil e também filosofo, usou sermões para defender ideais humanistas e os indígenas, a abolição da escravatura. Em 2013 a obra completa de Vieira foi publicada em trinta volumes.

Luís António Verney (1713-1792), filosofo “estrangeirado” foi personalidade destacada do iluminismo português, criticou os jesuítas pela excessiva teorização e dogmatismo, o ensino devia basear-se na experiência. Escreveu o “Verdadeiro Método de Estudar” editado em 1746 a pedido de D. João V, colaborou na reforma do ensino, defendeu que a escola elementar devia ser para ambos os sexos e para todas as classes sociais, paga pelo Estado. Exilou-se em Roma, devido às ameaças, onde morreu.

O atribulado século XIX, com invasões napoleónicas, fuga da corte para o Brasil, guerra civil entre liberais e absolutistas, o ultimato inglês deu origem a acesos debates e à ascensão das correntes republicanas. Sucederam-se pensadores como Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846) anti idealista defendeu a separação entre filosofia e ciência, teve a oposição de Guerra Junqueiro (1850-1923) Sampaio Bruno (1857-1915), Teófilo Braga (1843.-1924),…

A Geração de 70, reflecte o mal-estar do século XIX, os “Vencidos da Vida” teve continuidade no século XX, no debate entre as visões europeístas e antieuropeístas.

Entre a I Republica e o Estado Novo entre 1910 e 1932 surgiu a revista “A Águia” órgão da Renascença Portuguesa nela escreveu António Sérgio. O movimento filosófico da Escola do Porto, inspirou-se em Sampaio Bruno, Leonardo Coimbra, Amorim Viana e outros.

Em 1943, Álvaro Ribeiro publicou “O Problema da Filosofia Portuguesa”, considerava que o pensamento filosófico em Portugal não era autónomo, porque exposto a sistemas filosóficos estrangeiros, a dialéctica de “castiços” e “estrangeirados”.

Cabral de Moncada afirmou em 1960 que a “preocupação nacionalista mais ou menos extravagante, é fortemente detractora das filosofias estrangeiras e quase xenófoba“, António Braz Teixeira considerava a ideia de Deus, que as relações entre a filosofia e a religião são o cerne do debate especulativo português, Fernando Pessoa como uma «forma de provincianismo mental».

Eduardo Lourenço em finais do século XX afirmou “logo que nos aproximamos da linha tórrida do racional tornamo-nos tímidos, ficamos paralisados, perdemos a imaginação”.

Personalidade filosófica singular e libertária não enquadrável em grupos foi Agostinho da Silva (1904-1994), exiliado político, expulso do ensino por se recusar a assinar a declaração de que não participava em “organizações subversivas”. Foi para o Brasil em 1947 onde leccionou em Universidades, regressou a Portugal em 1969. Deixou extensa obra como as “Sete cartas a um jovem filósofo” (1945), “Carta Vária” (1989) e “Vida conversável” (1994).

Entre os filósofos da segunda metade do século XX de uma corrente com proximidades com a psicologia social e a psicanalise destacaram-se os irmãos Fernando e José Gil, Mário Sotto Mayor Cardia, Eduardo Lourenço.

A filosofia portuguesa é um oceano de turbulências, o mistério de existir.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Leia também: Geohistória e alterações climáticas | Por Jorge Queiroz

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Algarve: Reino da Água no Império de Aquém e Além-Mar | Por Virgílio Machado

As relações entre água, sociedade e poder são estudadas na geopolítica. Neste cantinho da Península Ibérica que foi Reino multisecular e de Aquém e Além-Mar cumpre discernir significados e sentidos políticos associadas à hidrografia de massas de água como ribeiros, rios, açudes, correntes, barragens, lagos, mares e oceanos.

Afinal, Portugal foi Império construído na água, segundo Jerry Brotton em Trading Territories. Faz sentido. Mas teria o Algarve, esse ufanado Reino, algum antecedente nessa construção? A hipótese é ousada. Aceita-se o desafio. Com observação atenta e estrutural.

Existe um fortíssimo legado de água em toponímias de cidades ou lugarejos no Algarve. Lagos, Lagoa, Olhão, Albufeira são hoje sedes de município. Fontes da Benémola, Santa em Quarteira, do Poço do Bispo, de Boliqueime, Sítio das Fontes, Olhos de Água induzem urbanidade no seu controlo e domínio.

VIRGÍLIO MACHADO, Professor da UAlg e autor dos livros
“Viagem ao Reino do Algarve” e “Portugal Geopolítico”

Nomes atuais de rios e ribeiras (Guadiana, Odeleite, Odelouca), provindos do wad árabe, constituíram reforço de uma cultura hidrológica perene, fonte de riqueza e poder para atividades humanas diversas como agricultura, produção de energia ou fluxo de água para orientação no transporte e comércio.

O respeito do Guadiana como fronteira natural entre Portugal e Castela no Tratado de Badajoz de 1267 na fundação do Reino do Algarve português. Facto geopolítico singular na história medieval peninsular prenunciador da importância da água na demarcação  e aceitação das ordens políticas. O mar, a sul e ocidente, seriam outros elementos naturais para domínio e controlo do Reino, facto hidropolítico que o vincularia à procura de outras margens além-mar, na existência de ameaças inimigas que nele se transportavam para saque, pirataria e captura de escravos.

Fortaleza de Sagres. Fonte (Município de Faro, 2026)

Eventos dramáticos têm consequências geopolíticas dinâmicas. Ainda que faltem dados científicos decisivos, secas como as 1385-1398 ou 1412-1413, marcaram escassez de trigo com a necessidade de sua procura para o Norte de África. Assim como de ouro para pagamento do financiamento da guerra com Castela até 1411. O Algarve seria apoio decisivo nas expedições marítimas e militares consequentes.

O controlo apurar-se-ia no tempo. Cartas marítimas precisas que localizavam rotas de navegação, mercados e mercadorias. Implantação de portos e ilhas chave em bacias hidrográficas com água potável. Conhecimento prático de ventos, marés e inclinações de sol e lua para eficiência no transporte marítimo. O respeito toponímico da cultura hidrológica no Algarve é causa e reflexo da expansão geopolítica de Portugal. Os reis recusaram a expressão Império. Preferiram Reino dos Algarves de Aquém e Além-Mar.

A assimilação dos mouros foi outro fator decisivo. A miscigenação e o casamento inter-racial foram mote inspirador. J. H. Parry e Boies Penrose em Europe and a Wider World e The Age of Discovery apontam aqui a fragilidade da eficiência administrativa e prática na ordem imperial portuguesa face aos congéneres europeus. Pela mistura inter-racial que prejudicou capacidades de hierarquia e controlo. Mas a História do Algarve teve outros antecedentes.

Nas periferias dos Impérios, em reação militar, formam-se outros Impérios. O Império Otomano na periferia do Bizantino. Ou as confederações bárbaras nos confins do Romano. Por sua vez, na Baixa Idade Média, as tribos nómadas berberes do Norte de África procuraram em sociedades agrárias ou com boas localizações comerciais, extorsão de recursos, coleta de impostos ou termos favoráveis de troca. O Sul Ibérico seria cobiçado e conquistado.

Entre o desmembramento do Califado de Córdova(1031) e a conquista do Algarve(1249-1250), dois Impérios berberes formaram-se, os Almorávidas e os Almoadas, caracterizadas por um sunismo ortodoxo religioso e monoteísmo profundo. Chegaram a ter entre 1 e 2 milhões de km2 de extensão.

Rio Guadiana. Fonte (Município de Faro, 2026)

A resposta do Portugal cristão vitorioso seria nomádica e mimética. O fim dos Almoadas no Algarve nunca deixou de criar um efeito reflexo, como desejo de um Império- Espelho alimentado por brilhos de outrora e ameaças atuais sobre capacidade militar, desafios no acesso renovado a trigo, cobiça em ouro para meio de pagamento e escravos para mão de obra no Norte de África. O Algarve fronteira seria o território logístico conveniente.

É a História do Império nomádico português causa das suas forças e fraquezas. Marítimo, com vocação agrária assente em produtos exportáveis, menor capacidade de coleta de impostos populacionais, dependência de pontos-chave críticos para vantagem no transporte e comércio, matriz energética e de produção alimentar dispersas. O Algarve inspirou matricialmente a experiência hidrográfica.

Nas falésias de Sagres, fronteiras da bacia do Guadiana ou nas águas da Ria Formosa respira-se uma das belas Histórias HidroPolíticas do Mundo. A Água como suporte de identidade geopolítica. Não há melhor forma de inspirar o respeito do Poder pela Natureza!

Virgílio Machado, autor dos livros “Viagem ao Reino do Algarve” e Portugal Geopolítico” (http:reinosdoalgarve.com).

Leia também: O primeiro mapa geopolítico de Portugal (e do Algarve) | Por Virgílio Machado

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A melhor coisa em ser eu, é ter umas óptimas mamas. A pior é só verem isso: Pornoprecariedade e feminismo em Mia Khalifa | Por Cobramor

Mia Khalifa sentiu, no cinema porno, uma glória com duração tão efémera como a das ejaculações masculinas a que foi sujeita.

Embora tenha sido apenas actriz de filmes para adultos durante três meses, foi o suficiente para carregar uma mácula frequentemente associada à da prostituição, embora a relação entre ambas seja virtualmente nula.

Desde então, tentou e falhou em vários empregos 9 às 5, de empregada de escritório até comentadora desportiva, devido à dificuldade de se libertar do estigma da pornografia, sofrendo regularmente os efeitos no já intrinsecamente ambiente de toxicidade corporativa.

COBRAMOR
Autor, tradutor e editor

Como forma de assumir o controlo da narrativa da sua própria sexualidade e corpo, e também como rejeição declarada do ciclo de exploração da produtora de filmes pornográficos que detém os direitos dos seus filmes, disponíveis na internet, optou, como tantas outras mulheres, pela plataforma onlyfans, onde pode decidir os limites e o grau de exposição.

Mia reconhece e assume toda as contradições que encarna ao afirmar-se feminista e criticando abertamente a uberização da indústria pornográfica, subsistindo, simultaneamente da mesma linha extractiva, com a lucidez de quem foi sujeita, mesmo brevemente, ao varrimento de quaisquer barreiras na maximização da rentabilidade da degradação feminina.

Mia Khalifa. Crédito: Slow Factory

A controvérsia sobe de nível pela fama ter surgido quando filmou cenas de sexo envergando um hijab, numa confirmação da hipersexualização étnica, materializada no infindável fetiche da dominação eurocêntrica sobre todos os corpos femininos, em particular, os racializados.

Nunca tal a impediu de se pronunciar contra a instrumentalização cum shot das mulheres pelo capitalismo normalizador da violência sexual, de género como exercício hegemónico do poder.

Ao ser libanesa filha de emigrantes, Mia ilustra na perfeição a tese de Edward Said, onde a única característica unificadora dos orientais é uma fabricação pseudogeográfica e antropológica ocidental. Toda a sua identidade foi construída por terceiros, na impossível encruzilhada do conflito entre as exigências dum cristianismo neoliberalizado e as do neoconservadorismo islâmico. Chegou mesmo a conhecer períodos de crise aguda onde tentou, em todos os sentidos, branquear-se, para corresponder à ideia predominante da mulher ocidental, sucumbindo tanto ao beco sem saída do género feminino como à labiríntica condição de Estrangeiro, ambos, papéis desenhados pela autoridade masculina.

Surgindo como uma Barbie, não no sentido tradicional, mas no reformado como proposto pelo filme homónimo, Mia tem feito a travessia do trauma para a cura, numa manifestação exacta da cultura pós-moderna, apesar de todas as forças a empurrarem, o sentido oposto.

Todas as críticas de Mia à estrutura heteronormativa, cujas tendências são ditadas pela pornografia, são frequentemente desconsideradas, dada a razão da sua fama, numa obstrução de qualquer possibilidade de reconhecimento da sua autenticidade ou mesmo redenção – ambas, concedidas, por defeito ao género masculino.

Assim, vê todas as suas acções automaticamente remetidas para a esfera performativa e sexualizada, também devido às suas voluptuosas formas, exibindo-as despudoramente enquanto critica a mentalidade que as valoriza sobre outras características femininas, expondo assim a armadilha dessa atenção vazia. Como a própria descreve: a melhor coisa em ser eu é ter umas óptimas mamas, a pior é só verem isso.

A Mia, resta frequentar o pântano dos apátridas, não encaixando nos modelos americanos ou nos libaneses. Nessa zona cinzenta tanto autónoma como ghettificada Mia ostenta, qual estandarte, a sua unibrow – inaceitável pelos padrões de beleza ocidentais e pela qual foi humilhada – como orgulhoso símbolo de revolta e afirmação árabe, igualmente sustentada na sua permanente crítica à situação do Médio Oriente, desenhando um paralelo entre a indiferença perante o genocídio e o male gaze do voyeurismo sobre as mulheres.

O triplo grau de desumanização a que Mia tem sido sujeita – actriz porno, mulher e imigrante – remetem-na para a situação limite de decidir entre a submissão às lógicas mercantis ou à autoexploração nos próprios termos, concedendo-se espaço para recorrer a uma artificialização da beleza acompanhada de uma censura às condições que a encorajam, também na forma de autocrítica.

Identificando as tensões internas do feminismo, onde tantas vezes o moralismo burguês de raiz religiosa colide com a vontade de interseccionalidade, Mia é apátrida também nessa ideologia que a rejeita por falta de enquadramento na ideia ocidental de emancipação. Não só o seu corpo é o proverbial campo de batalha anunciado por Barbara Kruger na sua arte homónima produzida para a Marcha de Washington em 1989, mas também por ser duplamente refém, tanto do fetiche como das restrições do orientalismo.

Se o uso declarado do corpo para consumo alheio, a inscreve na categoria das trabalhadoras sexuais, essa condição proletária apenas se consegue mover nas franjas do proletariado maioritariamente conservador e assim sustentáculo involuntário da arquitectura pornoprecária, inspiradora e também continuidade do mundo do trabalho, antecipadora em décadas do pseudonarcisismo da cultura influencer / empreendedor.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Leia também: Cristina Ferreira, santa padroeira do machosfera | Por Cobramor

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Um jardim fora do tempo | Por Maria João Neves

Queridos leitores e participantes do Café Filosófico,

O texto que vos deixo para esta sexta sessão dedicada ao Estoicismo é inteiramente ficcional. Nasceu do desejo — quase da necessidade — de imaginar uma conversa entre dois grandes pensadores andaluzes: María Zambrano, natural de Vélez-Málaga, e Séneca, nascido em Córdoba. Ambos se envolveram na política do seu tempo, ambos sofreram as agruras da condenação ao exílio.

A ligação entre ambos não é apenas fruto da imaginação. María Zambrano dedicou mesmo uma obra a Séneca, reconhecendo nele uma voz filosófica profundamente próxima da sua própria reflexão sobre a condição humana, a razão e o destino.

Embora separados por mais de vinte séculos, sinto que este diálogo impossível faz todo o sentido. E é precisamente essa conversa sonhada, construída entre tempos, silêncios e afinidades, que hoje quero partilhar convosco.

Um jardim fora do tempo

O entardecer descia lentamente sobre o branco pátio andaluz. As colunas lembravam vagamente a mesquita de Córdoba; a brisa trouxe de longe o perfume do mar, como se soprasse desde Vélez-Málaga. Não havia Roma, nem Madrid, nem século algum. Apenas duas figuras caminhando lado a lado: Séneca e María Zambrano.

MARIA JOÃO NEVES
Doutorada em Filosofia Contemporânea, Vice-presidente BlueZC Institute (www.bluezc.com)

Zambrano: Há lugares que continuam a viver dentro da alma mesmo quando somos expulsos deles. A Andaluzia é um desses lugares. Não é apenas terra; é uma luz que permanece na memória.

Séneca: O sábio aprende que nenhuma terra lhe pertence verdadeiramente. Somos hóspedes do mundo.

Zambrano: E, no entanto, sofremos quando somos arrancados da origem.

Séneca: Sofremos porque confundimos o necessário com o eterno. Fui exilado para a Córsega e descobri que o homem leva consigo a sua verdadeira pátria: o espírito disciplinado.

Zambrano: Tu transformaste o exílio em exercício moral. Eu transformei-o em noite interior. Cruzar fronteiras, perder Espanha, atravessar oceanos… tudo isso me ensinou que a alma humana não pensa apenas com conceitos — pensa com feridas.

Séneca: A dor pode instruir, se não a transformarmos em tirana.

Zambrano: Mas há dores que falam como oráculos. A minha filosofia nasceu ouvindo aquilo que a razão pura desejava calar: o coração, o sonho, a memória, a esperança, o delírio, a poesia. Assim é a razão poética.

Séneca: Explica-me essa razão. Na minha escola, a razão deve governar as paixões.

Zambrano: A tua razão é solar. Quer clareza, firmeza, ordem. A minha aceita também a sombra. Há verdades que não aparecem sob a luz violenta da lógica. Algumas revelações chegam como música distante, entendem-se melhor na penumbra.

Séneca: Então desejas reconciliar filosofia e mistério?

Zambrano: Sim. O homem não vive apenas de conceitos. Vive de símbolos, de silêncio, de esperança. A filosofia muitas vezes expulsou a alma para construir sistemas perfeitos.

Séneca: E, no entanto, sem disciplina interior, a alma dispersa-se. Vi em Roma homens destruídos pelos desejos, pela ambição, pelo medo da morte. Considero a razão a nossa maior aliada na luta contra as paixões.

Zambrano: Também na política do meu século vi ideologias transformarem homens em abstrações. Talvez por isso eu tenha desconfiado das filosofias excessivamente sistemáticas e tenha querido acolher as razões do coração.

Séneca: Isso pode ser perigoso? A tirania nasce quando o homem deixa de se governar a si mesmo. Nero queria dominar o mundo porque era incapaz de dominar os seus próprios impulsos.

Zambrano: Tu estiveste tão próximo do poder. Isso atormentava-te?

Séneca: Todos os dias. Ensinar virtude a um imperador é como tentar ensinar serenidade a uma tempestade. Permaneci porque pensei poder moderar a violência. Talvez me tenha enganado.

Zambrano: Mas tentaste viver a tua filosofia. Isso é raro.

Séneca: Nem sempre consegui. O filósofo não é um deus; é um doente que tenta curar-se enquanto ajuda outros doentes.

Zambrano: Essa frase contém mais verdade do que muitos tratados. Também eu fracassei muitas vezes. Escrevia sobre esperança enquanto atravessava desespero. Falava da aurora enquanto caminhava pela noite do exílio.

Séneca: Talvez a filosofia verdadeira só possa nascer assim: quando a vida põe à prova cada palavra.

O vento moveu as folhas do limoeiro sob o qual conversavam. Durante alguns instantes, ambos permaneceram em silêncio.

Zambrano: Diz-me, Séneca: o que é a liberdade?

Séneca: Não depender daquilo que o destino pode tirar. Quem depende da riqueza, da glória ou da aprovação vive acorrentado. Livre é aquele que governa a sua alma.

Zambrano: Vejo nisso grandeza, mas também certa solidão. Eu diria que a liberdade nasce quando o ser humano consegue reconciliar-se consigo mesmo e com o mistério do mundo. Não apenas dominar-se — escutar-se.

Séneca: Escutar-se sem disciplina pode ser perigoso.

Zambrano: E disciplinar-se sem escutar-se pode matar a alma.

Séneca: Talvez as nossas filosofias sejam dois remédios para doenças diferentes.

Zambrano: Sim. Tu escrevias para um império fatigado pelo excesso. Eu escrevia para um século destruído pela ruptura interior.

Séneca: Mas ambos vimos o mesmo abismo: o homem afastado de si.

A primeira estrela apareceu no céu, e o perfume do jasmim espraiou-se pelo ar.

Séneca: Sempre considerei a morte uma lei natural. Não deve ser temida.

Zambrano: Eu nunca consegui olhar a morte apenas com serenidade estóica. Para mim, ela permanece envolta em sombra sagrada. Não apenas termina a vida — revela algo dela.

Séneca: A morte revela o valor do tempo.

Zambrano: E também a fragilidade da consciência humana. Talvez por isso eu tenha amado tanto a aurora: porque cada amanhecer parece dizer que a verdade ainda não terminou de nascer.

Séneca: Enquanto eu preferia o entardecer. A hora em que o espírito recolhe o que aprendeu durante o dia.

Zambrano: Aurora e entardecer… talvez sejamos dois modos da mesma luz andaluza.

Séneca: Dois exilados procurando uma pátria que não pode ser conquistada pelos exércitos.

Zambrano: Como se chama essa pátria?

Séneca: Ataraxia — Serenidade.

Zambrano: Mas afinal, que lugar ocupam os sentimentos no teu estoicismo?

Séneca: Não lhes nego lugar algum, María, apenas lhes recuso o trono. Os sentimentos pertencem à natureza humana; surgem em nós como o vento levanta o mar. O erro não está em senti-los, mas em entregar-lhes o governo da alma. Há uma primeira comoção que nenhum sábio evita: o estremecimento diante da perda, a sombra do medo perante a morte, a ternura diante do sofrimento. É próprio da condição humana.

O estoicismo não deseja transformar o homem em pedra. Deseja apenas que ele não se torne escravo das suas tempestades.

Zambrano: Talvez, Séneca, a nossa divergência não esteja nos sentimentos, mas no modo como escutamos aquilo que eles revelam.

Tu desejas salvaguardar a lucidez contra a tirania das paixões — e compreendo a nobreza desse esforço. Mas eu temo que, ao exigir dos sentimentos que se submetam à medida da razão, acabemos por ouvir apenas aquilo que a consciência já consegue traduzir em ordem. Há zonas da alma que chegam antes da clareza; regiões obscuras onde a verdade ainda não aprendeu a falar através de conceitos.

O sofrimento, por exemplo, nem sempre vem para ser dominado. Às vezes vem para abrir. Há dores que desorganizam o eu precisamente porque trazem consigo uma revelação impossível de alcançar pela serenidade. O homem não se conhece apenas quando se governa a si mesmo; conhece-se também quando se perde, quando vacila, quando desce às suas próprias entranhas.

E talvez a filosofia tenha cometido, durante séculos, o erro de querer iluminar demasiado cedo aquilo que precisava amadurecer na penumbra.

Não desejo um homem afogado pelas paixões, tampouco. Mas temo o homem excessivamente reconciliado consigo mesmo. Há uma lucidez que protege — e outra que empobrece. Talvez a verdade não habite apenas na calma do sábio, mas também na inquietação do homem comum.

Café Filosófico | 17 Junho 2026 | 21:00 – 22:30 | Club Farense | Contribuição: 5€ | Inscrições: filosofiamjn@gmail.com

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia

Leia também: A Visão do Alto | Por Maria João Neves

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EA 24: A pedra de Roseta | Por José Garrido

Quando Ptolomeu V foi coroado rei do Egipto em 204 AC, o aparelho de estado, numa iniciativa com prática pujante até aos dias de hoje, apressou-se a emitir um decreto estabelecendo o culto divino do novo governante… Pese embora o papiro estivesse nessa altura em uso continuado havia mais de dois mil anos, era práctica comum que as leis mais relevantes fossem entalhadas numa laje de pedra, uma estela, instalada num templo.

Séculos mais tarde, em data imprecisa, talvez na Idade Média, como tantas vezes na história, a pedra, sem atenção ao seu papel e mensagem original, foi utilizada como material de construção numa fortificação na cidade de Roseta, no delta do Nilo, a sessenta quilómetros a leste de Alexandria.

Novo salto na história, em 1798, Napoleão Bonaparte embarca para a sua Campanha do Egipto, nos três anos seguintes deambula pelo Próximo Oriente, somando vitórias, derrotas e também episódios caricatos… não resiste à tentação de se enroupar na religião local e por ocasião do aniversário do Profeta apresenta-se de turbante, vestido à oriental, e proclama-se ‘digno filho do Profeta’, nada que Alexandre não tivesse feito 2000 anos antes, filho de Amon, ou que Trump não faça com os seus memes com Cristo.

JOSÉ GARRIDO
Consultor em Marketing Turístico e Escritor

Sensivelmente por essa altura, o tenente francês Bouchard, redescobre, por entre as muralhas arruinadas do forte de Roseta, a estela de Ptolomeu V que é recolhida com o propósito de a despachar para Paris. Os grandes homens sabem quando começam as campanhas militares, mas a verdade é que ninguém prevê quando elas acabam – o que também é válido até hoje. Cópias da pedra original são então distribuídas por várias instituições. A estela é capturada pelas tropas inglesas e termina no British Museum, onde continua a ser exibida, com curtos hiatos, como quando por receio dos bombardeamentos de Londres, esteve temporariamente num dos túneis do chamado metropolitano postal a 15 metros de profundidade, próximo de Holborn. Com o número de inventário “EA 24”, é considerada o objecto mais visitado do museu.

Figeac na Occitânia. Crédito: José Garrido

Adiantando a história: sabemos de que tratava a pedra, mas não logo à época da sua descoberta. Que Ptolomeu tinha feito uma oferta de prata e cereais ao templo – ça va de soit, poderia ter dito o tenente Bouchard, na altura – que as cheias do Nilo tinham sido particularmente fortes naquele ano e que haviam represado as águas – aqui está a primeira coisa que não parecemos ter aprendido com a história – e que, como contrapartida, o clero honraria o nascimento e a coroação do rei como dias santos e prestar-lhe-ia culto ao lado dos outros deuses.

Estará o leitor a perguntar-se: onde é que vai esta digressão histórica? Peço-lhe um pouco mais de paciência.

A reprodução gigante da Pedra de Roseta. Crédito: José Garrido

O decreto inscrito na estela termina com a indicação de que seja colocada uma cópia em cada templo escrita na “língua dos deuses”, os hieróglifos egípcios, na “língua dos documentos oficiais” uma versão mais moderna do egípcio, usada nos negócios e pelas pessoas no seu dia-a-dia, e “na língua dos gregos” então utilizada na corte ptolemaica. Ou seja, a Pedra de Roseta apresentava-se, à época, apesar de os textos estarem incompletos, como um documento único: trilingue.

Agora sim.

Figeac é uma pequena cidade histórica, arrimada à margem do rio Célé, na região francesa da Occitânia. Para além de um centro histórico medieval de grande interesse, com profusão de edifícios de notável arquitectura, foi a terra do linguista Jean-François Champolion, famoso por ter sido o primeiro a decifrar o mistério, ou os mistérios, da Pedra de Roseta, providenciando a sua primeira tradução.

Bem no coração de Figeac, um excelente edifício de vários andares, perfeitamente integrado no casco urbano, alberga o museu que lhe é dedicado, o Museu Champolion das Escritas do Mundo, sobre a evolução diacrónica das diferentes escritas que a humanidade foi desenvolvendo desde os alvores da História.

Uma rua de Figeac. Crédito: José Garrido

Não contam com o original da Pedra de Roseta, mas sim com uma réplica – moldagem precisa – a instrumentação moderna para a sua análise detalhada e uma instalação artística de grandes dimensões recobrindo o pátio, ao ar livre, do próprio museu.

Desde 1799 que se sabia que a pedra tinha o carácter de um documento trilingue, mas pouco mais se sabia. Sensivelmente desde o fim do Império Romano que a língua dos hieróglifos deixara de ser entendida, a componente grega, apesar do conhecimento generalizado do grego antigo, utilizava a versão helenística da corte ptolemaica, uma coisa razoavelmente desconhecida, e o texto em demótico, pensava-se, que fosse língua copta. Logo em 1803 foi possível contar com uma tradução do grego, mas graças ao génio de Champolion, apenas vinte anos mais tarde era anunciada a decifração dos hieróglifos. Um trabalho meticuloso de recuperação das três versões do mesmo texto e, a partir daí, não só a sua interpretação integral como o estabelecimento do seu papel instrumental na descodificação de muitos outros textos.

Orgulho no filho da terra. Crédito: José Garrido

Em Junho de 1823 Champolion escrevia a um colega: “A minha investigação demonstrou que o sistema gráfico egípcio […] é uma mistura de três tipos de sinais empregues simultaneamente em todos os textos […]: sinais figurativos, sinais simbólicos e sinais fonéticos (dos sons).“

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Leia também: Uma égua ruça, um jumento com albarda, um rapaz e um podengo* | Por José Garrido

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