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Um país marcado pela humilhação não pode fazer dela um projeto de poder

Quando uma liderança política que representa a elite afirma que pretende “humilhar”, essa fala não pode ser vista apenas como uma metáfora eleitoral. No Brasil, a palavra humilhação carrega marcas profundas de uma história construída sobre a escravização, o autoritarismo e as desigualdades sociais.Como demonstram Fernando Novais (1979), Luiz Felipe de Alencastro (2000), Caio Prado Júnior (1942) e João Fragoso e Manolo Florentino (1993), o Brasil foi estruturado por um sistema colonial que naturalizou a exploração e a humilhação como formas de dominação. Essa herança atravessa séculos e ainda se manifesta na política contemporânea, quando lideranças recorrem à ideia de “humilhar” adversários. Não se trata de mera retórica eleitoral, mas da reprodução de símbolos de hierarquização social que marcaram a escravização e a marginalização de povos negros, indígenas, sertanejos e das periferias das cidades.Esses povos foram historicamente submetidos à humilhação como mecanismo de dominação: a negação da humanidade, da dignidade e do direito à existência plena. Essa lógica atravessou séculos e permanece presente nas relações de poder, na política e nas desigualdades que estruturam a sociedade brasileira. Por isso, discursos que naturalizam a ideia de “humilhar” alguém — especialmente no campo político — precisam ser profundamente refletidos. A democracia deve ser construída a partir do debate de ideias, do respeito às diferenças e da disputa legítima de projetos para a sociedade, e não pela tentativa de desqualificar, inferiorizar ou constranger o outro.Quando essa fala se dirige a uma liderança política que carrega em sua trajetória a representação dos povos historicamente marginalizados, incluindo as raízes dos povos originários e das populações do interior baiano, o debate ganha uma dimensão ainda mais séria. Em um país marcado pelo racismo estrutural, pelo elitismo e pelas desigualdades históricas, determinadas narrativas e práticas políticas acabam reproduzindo símbolos de dominação e hierarquização social.Como lembram Lélia Gonzalez (2020), Lélia Gonzalez e Hasenbalg (1982), o racismo brasileiro opera muitas vezes por meio da negação e da naturalização da inferiorização, sustentando práticas que desumanizam e silenciam populações negras e indígenas. Nesse sentido, discursos que evocam a humilhação atualizam mecanismos históricos de exclusão e reafirmam a permanência da colonialidade nas relações de poder.A Bahia conhece profundamente o peso das desigualdades históricas e precisa banir a lógica da humilhação como demonstração de poder. Precisamos fortalecer uma política comprometida com a dignidade humana, com o respeito aos territórios e identidades populares e com a construção de justiça racial, social e ambiental, a partir da força da resistência popular, negra e democrática. Chega de política baseada na humilhação de seu povo!Também é preciso responsabilidade ao comparar realidades sociais e econômicas entre os estados brasileiros. Não se pode analisar indicadores da Bahia a partir dos mesmos parâmetros de estados situados nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, sem considerar os processos históricos de concentração de riqueza, industrialização e investimentos públicos que marcaram de forma desigual o desenvolvimento regional do país.O Nordeste brasileiro, e especialmente a Bahia, enfrentou séculos de exclusão econômica, concentração fundiária e ausência de políticas estruturantes, processos históricos que contribuíram para o êxodo rural e regional, aprofundando desigualdades sociais que até hoje impactam a vida da classe trabalhadora. Essas marcas estão diretamente relacionadas ao racismo estrutural, à concentração de riquezas e à histórica marginalização dos povos negros, indígenas, sertanejos e das populações do campo e das periferias das cidades.Ainda assim, o povo nordestino e baiano nunca deixou de resistir. Foi justamente dos territórios historicamente invisibilizados que emergiram culturas, conhecimentos, formas coletivas de organização, produção de riquezas e estratégias solidárias de sobrevivência que sustentam, até hoje, a força e a identidade do povo nordestino e baiano.Comparar números sem considerar essas desigualdades históricas é ignorar o contexto social que produziu o Brasil desigual que conhecemos hoje. O debate político precisa ser feito com seriedade, responsabilidade histórica e compromisso com a redução das desigualdades regionais e sociais.Chega de humilhação como prática política. O que o povo baiano, nordestino e brasileiro precisam é da garantia de direitos, da promoção da equidade social e racial e da distribuição de riquezas a partir de políticas públicas estruturantes. Precisamos construir um país, um Nordeste e uma Bahia onde todas as pessoas tenham acesso digno à educação de qualidade e contextualizada, saúde em sua plenitude, trabalho, terra, alimentos e oportunidades, sem preconceitos, discriminação, exclusão ou desigualdade.Portanto, a crítica à humilhação como prática política só se torna completa quando reconhecemos que ela é herdeira direta das estruturas coloniais que moldaram o Brasil desigual. Essa herança ainda se manifesta nas relações de poder e nas desigualdades sociais, mas pode ser transformada pela construção de uma democracia comprometida com a dignidade humana, a justiça social e a equidade racial. Romper com a lógica da humilhação é também romper com séculos de desigualdades herdadas, e afirmar um projeto de país que valoriza sua diversidade, respeita seus territórios e garante direitos para todas as pessoas. *Tatiana Veloso é engenheira agrônoma e professora-doutora em geografia e presidente das Voluntárias Sociais da Bahia

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É preciso resposta rápida: assédio no transporte público reduz mulher a objeto

A mudança na percepção dos brasileiros sobre a violência contra a mulher tem duas faces. A primeira é positiva: mostra uma sociedade mais consciente de um problema historicamente naturalizado. A segunda é inquietante: revela que a violência alcançou um nível capaz de provocar espanto coletivo. Não por acaso, pesquisa Datafolha encomendada pelo Movimento Mulher 360 mostrou que, pela primeira vez, a violência contra a mulher passou a liderar a lista de preocupações dos brasileiros quando o assunto é criminalidade. Seis em cada dez entrevistados afirmam estar preocupados com o tema e quase 90% acreditam que os casos aumentaram no último ano.Os números ajudam a explicar essa percepção. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 1.568 feminicídios em 2025, o maior número da série histórica. São mais de quatro mulheres assassinadas por dia. A maioria das vítimas é negra.Mas a violência contra a mulher não se resume aos feminicídios. O medo faz parte da rotina de milhões de brasileiras em casa, no trabalho, nas ruas e no transporte público. Pesquisa dos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva, divulgada pela Agência Brasil, apontou que 97% das mulheres entrevistadas já sofreram algum tipo de assédio no transporte público e 71% conhecem outra mulher que passou pela mesma situação. É preciso mecanismos que deem respostas rápidas e concretas. É dessa realidade que surgem iniciativas como a Lei nº 9.835/2025, de minha autoria após demanda popular na capital, conhecida como Lei do Vagão para Mulheres. A proposta prevê espaço exclusivo para mulheres no metrô nos horários de pico, quando aumentam os relatos de assédio e importunação sexual. Sua implementação permanece suspensa por decisão judicial, após liminar de uma associação de empresários metroviários sediada em Brasília.A mesma preocupação orienta a Política Municipal de Enfrentamento ao Feminicídio, aprovada em 2023 e ainda não implementada pelo município. É preciso combater o assédio no transporte, por isso também apresentei o projeto Abrigo Amigo, inspirado em outros estados, para criar pontos de ônibus mais seguros, com monitoramento e acompanhamento remoto para mulheres que aguardam transporte.Em Salvador, essa discussão possui um recorte ainda mais evidente. As mulheres negras, maioria da população da cidade, seguem entre as principais vítimas da violência de gênero. Como ensina Carla Akotirene, gênero, raça e classe social se cruzam e ampliam vulnerabilidades. Quando a violência contra a mulher se torna a principal preocupação dos brasileiros, o país recebe um sinal claro. A conscientização é um avanço. Mas ela também revela a urgência de transformar proteção em política pública eficaz e que saia do papel e do discurso.  *Vereadora de Salvador pelo PT e presidente da Comissão de Reparação

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Dia da Marinha: tradição, história e futuro

O 11 de junho é mais que uma data: é um marco da identidade nacional. Nesse dia, em 1865, a Marinha do Brasil escreveu uma das páginas mais decisivas da nossa história, na Batalha Naval do Riachuelo. Às margens do rio Paraná, sob o comando do Almirante Barroso, nossos marinheiros enfrentaram forças superiores e, com coragem e determinação, asseguraram a vitória que definiria os rumos da Guerra da Tríplice Aliança. Riachuelo não foi apenas uma batalha; foi a afirmação de que o Brasil sabe defender sua soberania quando chamado.Essa herança de bravura ecoa até hoje. A Marinha é guardiã da Amazônia Azul, área marítima de mais de 5,7 milhões de km², vital para o comércio exterior, a energia, a pesca e a ciência. O mar é fonte de vida e de futuro para o Brasil.A Bahia sempre foi palco da história naval brasileira. Foi por suas águas que o País foi descoberto e onde se travaram combates decisivos para a Independência. Os saveiros, com suas velas coloridas, simbolizam essa alma marítima, renovada na presença constante da Marinha, por meio do Comando do 2º Distrito Naval (Com2ºDN).Sob sua jurisdição atuam organizações militares essenciais: a Base Naval de Aratu; a Capitania dos Portos da Bahia, com Delegacias em Ilhéus e Porto Seguro; a Capitania Fluvial de Juazeiro, com a Agência de Bom Jesus da Lapa; o Comando da Força de Minagem e Varredura; o Grupamento de Patrulha Naval do Leste; o Centro de Intendência da Marinha em Salvador; o 2º Batalhão de Operações Litorâneas; o Serviço de Sinalização Náutica do Leste; a Estação-Rádio da Marinha em Salvador e o Hospital Naval de Salvador, além da Capitania dos Portos de Sergipe. Juntas, formam um mosaico de capacidades que assegura a presença do Estado no mar, nos rios e nas comunidades costeiras.Hoje, o 2º Distrito Naval responde por 1.263 km de costa, cerca de 590 mil km² de território e uma área de busca e salvamento superior a 2,7 milhões de km². Essa responsabilidade se traduz em patrulhas, inspeções navais, salvamentos, inovação tecnológica e iniciativas culturais, ações diuturnas que contribuem para o desenvolvimento nacional.O mar, como lembrava Ruy Barbosa, “é um curso de força e uma escola de previdência”. A defesa nacional é compromisso de toda a sociedade. Nossa Amazônia Azul, representada pela Baía de Todos-os-Santos, pelo litoral baiano e pelas águas sergipanas, exige consciência e proteção.Neste Dia da Marinha, celebramos o legado de Riachuelo. No 2º Distrito Naval, honramos nossos antecessores e reafirmamos nossa missão: proteger a vida no mar, garantir a segurança da navegação e servir ao Brasil com disciplina, coragem e profissionalismo.Viva a Marinha! Tudo pela Pátria!*Comandante do 2⁰ Distrito Naval

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Templos e política

Acompanhei, pelas redes sociais, embates entre pessoas que concordaram com a chamada Marcha para Jesus e a Parada do Orgulho LGBT, quando se argumentavam onde e para que uma e outra. Naturalmente, e infelizmente, se tornou campo de batalha, onde um condenava a ação do outro, o entendimento sobre para que eram as manifestações em si. Entendo e sinto que há lugares que nasceram para o silêncio, não ausência de som, mas o silêncio da ausência, aquele que permite ouvir o que o barulho do mundo não alcança. Um templo, uma igreja, um centro espírita, uma casa de oração são como portos construídos para acolher embarcações cansadas das tempestades da vida. Quem atravessa suas portas não procura slogans. Procura sentido. A religião, em sua essência mais profunda, é uma ponte lançada sobre o abismo das inquietações humanas. Ela convida o olhar a ultrapassar os limites da matéria, a perceber que a existência não se resume às disputas do presente, aos interesses passageiros ou às paixões que dividem os homens. Seu horizonte é mais amplo. Seu convite é mais elevado.Por isso, causa estranheza quando o altar se transforma em palanque e a linguagem da transcendência passa a disputar espaço com a retórica da campanha político-partidária. São universos diferentes. Um aponta para o eterno, o outro se ocupa do transitório. Um busca unir consciências em torno de valores universais; o outro, por sua própria natureza, organiza preferências, escolhas e divergências. Quem busca uma experiência religiosa não deseja vestir a camisa de uma torcida. Não chega ao templo para ser recrutado para um lado ou para outro das disputas humanas. Chega porque carrega perguntas que a política não responde. Leva consigo dores que nenhum programa de governo consegue aliviar por completo. Procura paz, consolo, esperança, reconciliação. Procura um encontro com algo maior do que si mesmo. A fé, entendo assim, é uma janela aberta para o infinito. A campanha eleitoral é uma estrada que percorre as urgências do presente. Quando essas duas paisagens se confundem, ambas perdem algo de sua identidade. A religião corre o risco de reduzir sua mensagem espiritual às fronteiras de um projeto temporal. A política, por sua vez, tenta apropriar-se da autoridade moral que pertence à esfera da consciência e da crença. Valores espirituais podem inspirar cidadania, ética, solidariedade e compromisso com o bem comum. Mas inspirar não é instrumentalizar. Iluminar não é dominar. Há uma diferença importante entre levar princípios para a vida social e transformar espaços de fé em arenas de disputa eleitoral. Quem entra em um lugar de oração não deveria encontrar bandeiras. Deveria encontrar horizontes.*Mestre em família pela Ucsal e fundador da Cidade da Luz

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Crescimento da população indígena e a consolidação das políticas públicas

“Minha avó era ‘índia’.” Quantas vezes ouvimos essa frase, dita com um misto de orgulho, nostalgia e desconhecimento? Por muito tempo, o apagamento da identidade indígena no Brasil se deu por meio da negação histórica, da violência simbólica e da exclusão institucional. A invisibilidade forçada resultou em gerações que deixaram de se reconhecer como indígenas, mesmo carregando em seus corpos essa ancestralidade.No entanto, o cenário está mudando. No Censo Demográfico de 2022, o número de pessoas que se autodeclaram indígenas no Brasil cresceu cerca de 89% em relação ao Censo de 2010, alcançando 1,69 milhão de pessoas. Na Bahia, são 229,4 mil indígenas, o segundo maior contingente do país, atrás apenas do Amazonas. O estado abriga 31 povos indígenas distribuídos em 245 comunidades. Isso não é apenas um crescimento demográfico, é reconfiguração da consciência identitáriaEssa diversidade e resistência têm sido fortalecidas pelas políticas públicas promovidas pelo Governo do Estado, especialmente a partir da eleição de Jerônimo Rodrigues, primeiro governador autodeclarado indígena do Brasil. Sua trajetória e seu compromisso com os povos originários têm colocado essa pauta no centro das ações governamentais.Um exemplo desse compromisso é o investimento destinado à garantia de acesso e infraestrutura nas comunidades indígenas, como a construção de estradas, a perfuração de poços e a instalação de sistemas de abastecimento de água, assegurando dignidade e saúde.Uma conquista emblemática é a habilitação do Hospital Materno-Infantil Dr. Joaquim Sampaio, em Ilhéus, como a primeira unidade do estado especializada no atendimento à população indígena, respeitando suas especificidades culturais, linguísticas e espirituais.Na Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte, essa pauta ganha força por meio de projetos de qualificação profissional financiados pelo Fundo de Promoção do Trabalho Decente (Funtrad), além da realização de festivais e feiras de artesanato e economia solidária, importantes vitrines e fontes de geração de trabalho e renda para essas comunidades.No esporte, destacam-se o 1º Campeonato Estadual de Futebol dos Povos Indígenas da Bahia, realizado no final de 2025, e a 18ª edição dos Jogos Indígenas Pataxó, em Santa Cruz Cabrália, no extremo sul do estado.O avanço desses indicadores e ações demonstra que reconhecer-se indígena não é mais apenas um gesto de resistência solitária, é também resultado de políticas públicas comprometidas com a reparação histórica. Importante frisar que tudo isso é fruto da mobilização dos mais diversos movimentos e lideranças indígenas, peças fundamentais para essa construção coletiva de reconhecimento e reafirmação identitária.*Secretário em exercício do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte da Bahia

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Não é punitivismo. É justiça

A condenação pelo feminicídio de Lindiane Rufino Soares, na semana passada, representa mais do que a responsabilização criminal de um homem, o suboficial da Marinha Mercante Gilmar Correia da Silva. É uma afirmação pública de que a vida das mulheres importa. Exemplar, a sentença aplicada pelo juiz Gabriel Igleses, da 1ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de Salvador, carrega uma mensagem clara e inequívoca. Nenhum homem tem direito de vida e morte sobre qualquer mulher. E quem agir como se tivesse deverá responder por isso perante a Justiça.Para o júri, as provas e argumentos apresentados pelo Ministério Público eram consistentes com a denúncia. Tratava-se de um feminicídio — homicídio cometido no contexto de violência doméstica e familiar. Também foram reconhecidas circunstâncias qualificadoras que agravaram a pena imposta ao réu: meio cruel, recurso que impossibilitou ou dificultou a defesa da vítima e motivo torpe.O julgamento da quarta-feira, 3 de junho de 2026, entrou para a história por alcançar justiça para Lindiane. Mas esse resultado começou a ser construído muito antes da sentença. Teve início no próprio dia do crime, graças a um conjunto de ações: do motorista de aplicativo que se recusou a dar fuga ao criminoso; da policial militar que pediu sua prisão ao vê-lo ensanguentado caminhando pela rua; da juíza que negou o pedido de liberdade provisória; da mobilização de familiares e amigos; e da atuação de organizações antifeminicídio que permaneceram vigilantes e firmes na cobrança por justiça.Lindiane era uma mulher como tantas outras. Mãe, filha, irmã, amiga, vizinha. Viveu um relacionamento de quase duas décadas acreditando, como tantas vítimas de relações abusivas, que a situação poderia melhorar. Disfarçado de amor, o sentimento de posse percorreu a escalada previsível da violência: controle, humilhações, agressões verbais, maus-tratos físicos e, por fim, mais de 40 golpes de faca.O desfecho foi o mesmo de tantas outras histórias interrompidas pela violência de gênero. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025, o maior número registrado desde a criação da lei. Por trás de cada número há uma vida ceifada, uma família devastada e uma rede de afetos obrigada a conviver com a ausência.Mas, diferentemente de muitas vítimas, Lindiane não foi silenciada pela violência. Sua voz continuou ecoando por meio de familiares, amigos e pessoas que se recusaram a aceitar que sua morte se transformasse apenas em mais um número.A condenação de Gilmar Correia da Silva reafirma algo que deveria ser óbvio: a vida das mulheres importa. Não é vingança. Não é revanchismo. Não é punitivismo. É justiça.*Jornalista, integrante da Comissão de Mulheres do Sinjorba e primeira-secretaria da Associação Bahiana de Imprensa.

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A reforma tributária que pune quem emprega

O Brasil vive um momento histórico de transformação tributária. A aprovação da Emenda Constitucional nº 132/2023 e sua regulamentação pela Lei Complementar nº 214/2025 prometem simplificação, neutralidade e estímulo ao crescimento. São objetivos legítimos e necessários. No entanto, há uma distorção grave que precisa ser dita em voz alta: a reforma, como estruturada, penaliza justamente o setor que mais contribui para a modernização do País — o setor de Tecnologia da Informação.O problema da não cumulatividadeO novo sistema tributário institui o IVA Dual, composto pela CBS e pelo IBS, com base no princípio da não cumulatividade ampla: cada elo da cadeia produtiva pode creditar os tributos pagos na etapa anterior. A lógica é moderna e bem-intencionada. O problema está na sua aplicação a setores cujo principal insumo não é matéria-prima, máquina ou mercadoria — mas gente.No setor de TI, entre 60% e 80% dos custos operacionais correspondem à folha de pagamento: salários, encargos e benefícios de profissionais altamente qualificados. Esses gastos não geram crédito de IBS nem de CBS na nova sistemática. Enquanto a indústria se credita de equipamentos e a distribuidora se credita de mercadorias, a empresa de software que produz valor intelectual fica de fora da cadeia de créditos — e absorve uma carga tributária efetiva significativamente maior. Leia Também: ARTIGOS Algoritmos também têm gênero? O desafio das mulheres na economia da Inteligência Artificial ARTIGOS Os gêneros literários e um autortemporão ARTIGOS Ameaças à sociedade e respostas institucionais A dupla oneração do INSSHá ainda uma camada adicional de injustiça que envolve o INSS. As empresas de TI recolhem 20% de contribuição patronal sobre toda a folha de pagamento — um custo bilionário para o setor, que financia diretamente a Previdência Social. Esse encargo, no entanto, não gera qualquer crédito no novo sistema. O Estado tributa o trabalho via previdência e tributa novamente o serviço gerado por esse mesmo trabalho via CBS e IBS, sem nenhum mecanismo de compensação. É uma dupla oneração sobre o mesmo fator produtivo.A contradição se aprofunda quando se considera que a CBS nasceu justamente para substituir o PIS e a COFINS — contribuições historicamente vinculadas ao financiamento da seguridade social. Faz sentido, portanto, que os encargos previdenciários pagos pelas empresas sejam reconhecidos como base de crédito presumido de CBS. Não como favor fiscal, mas como coerência sistêmica.ConclusãoOs números tornam o problema concreto. Uma empresa com faturamento de R$ 500 mil mensais e folha de R$ 350 mil pagava, no regime anterior, 8,25% entre PIS/COFINS e ISS. Com a reforma, a carga tributária efetiva sobre o valor agregado pode chegar a 26,5% — um aumento de até três vezes. Esse salto não é ajuste marginal. É uma mudança estrutural que ameaça empresas que empregam formalmente, pagam bem e sustentam a infraestrutura digital do País.Uma reforma tributária verdadeiramente moderna não pode penalizar o setor que mais contribui para a digitalização da economia brasileira. Reconhecer os encargos previdenciários como base de crédito não é concessão — é equidade. O setor de TI não pede privilégio: pede que os princípios da neutralidade e da não cumulatividade se apliquem também a quem produz com conhecimento. Essa correção é uma escolha de desenvolvimento nacional.*Jumara Tanajura Vaz é CEO da Ciberian Tecnologia · Empresa Associada ASSESPRO-BA, CEO de GovTech com ampla experiência em tecnologia, compliance e gestão pública, atuando há mais de 20 anos na liderança estratégica de empresas de TI. 

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Os gêneros literários e um autortemporão

Há dois meses lancei na Academia de Letras da Bahia o livro de contos Histórias Urbanas. Por uma deformação profissional, a maioria dos meus contos envolvem questões urbanas. Ao contrário do que acontece com minhas crônicas jornalísticas, que têm “resposta paga” no Facebook, os comentários ao meu livro pingam à medida que encontro ocasionalmente leitores dele em eventos sociais. As apreciações são elogiosas, mas criticamente pobres. Por discrição, os que não gostaram, não comentaram.Sou basicamente um cronista e já publiquei dois livros de crônicas originárias deste jornal: A memória das pedras (ALBA, 2017) e Navegação errante (Mondrongo, 2021). As crônicas são flash da vida cotidiana, mas geralmente alternadas pela crítica à vida social e à política. Rubem Braga, o maior cronista brasileiro, além de crônicas poéticas fez também políticas.Histórias Urbanas é meu primeiro livro de contos. O conto tem uma duração um pouco maior, poucos personagens, um clímax dramático e um desfecho que ilumina todo o narrado anteriormente. Já o romance envolve um número maior de personagens e ambientes e pode envolver até mais de uma geração. Julio Cortázar, o maior contista argentino, autor do genial O Jogo da Amarelinha, dizia que a literatura podia ser comparada a uma disputa de boxe, o romance é uma vitória por rounds, enquanto o conto é uma vitória por nocaute. Desisti, assim, de me aventurar no romance. Leia Também: ARTIGOS Ameaças à sociedade e respostas institucionais ARTIGOS A Baixa dos Sapateiros de Geraldo Badá ARTIGOS Educação climática, território e justiça socioespacial Nada contenta mais um autor que ser lido, mas na era dos whatsapp e emojis é cada vez menor o número de leitores, especialmente de ficção. O que mais se vende hoje são os livros de autoajuda, para uma sociedade cada vez mais neurótica. As feiras de livros se proliferam pelo interior do país, mas se transformaram em promoções de muitos municípios, com shows, tertúlias de gente famosa, venda de artesanato, exposições de arte e festivais gastronômicos e etílicos.Diante desse quadro e na esperança que alguém possa fazer uma resenha crítica do meu livro, resolvi fazer a divulgação do livro. Histórias urbanas são contos breves e bem humorados, pois ninguém tem mais saco para ler muita coisa e também pelo calo que criei de escrever crônicas para este jornal com o limite de 2.700 caracteres incluindo os espaços.Histórias urbanas e outros contos tem prefácio generoso de Heloísa Prazeres e seis capítulos: Histórias Urbanas, Revivendo o surrealismo, Contos picantes, Fábulas contemporâneas, Tumultos de amor e Cantata natalina. Os contos dos quatro primeiros capítulos são irônicos no bom sentido. Tumultos de amor envolve sentimentos contraditórios e Cantatas natalinas é o capítulo mais lírico. Os meus livros podem ser encontrados nas livrarias Escariz no Shopping Barra, Leitura no Shopping da Bahia e LDM nos Shoppings Paseo e Bela Vista, ou pedindo à Editora Mondrongo. Boa leitura!*Arquiteto, professor titular aposentado da UFBA e membro da ALB, IAB e ABI

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