A BANDEIRA DA INCLUSÃO

“Sou um órfão do mar que navega de uma identidade para outra.” – Michael Gouveia, O Herdeiro
Até 1978, celebrava-se o nosso 10 de Junho com a designação de “Dia de Camões e da Raça Portuguesa”, na lógica de um simbolismo nacionalista que retratava o espírito imperial do Estado Novo. Só depois da Revolução dos Cravos, o Dia de Portugal passou a chamar-se “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. Esta alteração teve a ver com a consciência de que Portugal, desfeito o império, não era apenas um país confinado à sua parte continental e insular, mas abrangia também todas as comunidades de emigrantes espalhadas pelo mundo, tendo-se passado, assim, a valorizar a nossa diáspora. Contas feitas, direi que estamos a dois anos de completar 50 anos de reconhecimento do papel de todos os portugueses que, em determinada altura das suas vidas, procuraram fora o que não encontraram cá dentro. E foram muitos!
É, por isso, cada vez mais incompreensível que a maioria dos que estão ausentes, condene os movimentos migratórios que, nos últimos anos, têm chegado a Portugal. Pior ainda, é concluirmos que toda essa má vontade está expressamente ligada ao facto de terem uma cor de pele e hábitos culturais diferentes dos nossos, como se isso, por si só, fosse um crime. Quando se deram as grandes vagas migratórias dos portugueses, não existiam redes sociais, pelo que o retrato que deles foi feito ficou circunscrito a artigos de opinião e fotografias que agora fazem parte de arquivos históricos que ninguém consulta, salvo um diminuto grupo de estudiosos da matéria. Nos tempos que correm, tudo está exposto e ganha uma amplitude nunca antes experimentada. Já para não falar dos inúmeros vídeos falsos e das frases curtas de grande impacto, que determinados grupos se encarregam de manipular, tornando-se na “vox populi, vox dei” como se de verdades se tratasse.
O fenómeno é novo? Não, apenas no que aos meios de divulgação diz respeito. Basta-nos recuar uns séculos e fazermos uma visita ao nosso poeta, cronista e músico Garcia de Resende, que viveu entre 1470 e 1536. Num dos seus poemas, depois de se indignar por ver “(…) muito espalhar/ Portugueses no viver;/ Brasil, ilhas povoar/ e às Índias ir morar,/ natureza lhe esquecer.”, remata com o seguinte: “Vemos no reino meter/ tantos cativos crescer/ (…)/ que se assim for serão mais/ eles que nós a meu ver. Ou seja, já Garcia de Resende aflorava a Teoria da Substituição (Grand Remplacement), apesar de esta só ter surgido em 2011, imbuída de uma retórica de incitamento ao ódio e à violência.
Passados quase quinhentos anos sobre a morte do nosso cronista e depois de séculos de tantas misturas étnicas, nada mudou na nossa matriz cultural, mantendo-nos fiéis à tão discutida lusitanidade que se receava poder ser beliscada.
A pergunta que se deve colocar é, então, a seguinte: “Por que motivo, estamos agora a levantar a questão do risco de descaraterização iminente de um povo que, desde sempre, foi o resultado de vários encontros (leia-se como um eufemismo) de povos com que se foi cruzando, viajando de identidade em identidade? Porquê agora?” A resposta é óbvia: para satisfazer desígnios ocultos que fazem crescer e aumentar o ódio contra o outro, como se o conceito de alteridade tivesse sido descoberto no século XXI.
Para que o Dia de Portugal seja celebrado na sua plenitude, é imperativo que aprendamos a juntar às nossas Comunidades todas as outras que connosco se estão a misturar. Para que se sintam incluídas, para que possam fazer parte de um todo que se chama Portugal, esteja ele onde estiver nas suas tão díspares coordenadas geográficas. Sentir-nos-emos, orgulhosos quando, em cada 10 de junho, içarmos a bandeira de Portugal, cantando bem alto:
– Contra a exclusão, marchar, marchar!
Aida Batista/MS