Raimundo Carrero: "A gente escreve sobre aquilo que não confessa nem à própria alma"
Em continuação ao solo sertanejo, às vozes que rimam com o repente e cantam as rezas e às violas nas feiras do interior, Raimundo Carrero usou imagens, metáforas e sombras para contar histórias que fizeram dele uma das maiores referências da literatura pernambucana e nacional.
“A literatura, para mim, é descobrir o que está entre a pele e o suor, e não está no osso ou no sangue”, disse, em 2013, em entrevista ao Jornal do Commercio.
Nesta terça-feira (16), aos 78 anos, o escritor e jornalista morreu em decorrência de um câncer, deixando uma obra que fez de um território íntimo sua matéria-prima. A informação foi confirmada pela família, que destacou a trajetória de Carrero como uma das mais importantes da literatura pernambucana e brasileira.
Em nota, os familiares afirmaram que ele dedicou a vida à escrita “com paixão, sensibilidade e compromisso”, construindo uma obra que atravessou gerações e consolidou seu nome entre os grandes autores do país.
Nascido na cidade de Salgueiro, Sertão do estado, em 20 dezembro de 1947, Carrero foi um dos autores mais premiados do Brasil.
Para ele, uma das missões da arte – e da literatura – é tornar organizado aquilo que é caótico, um espaço entre “o dizer e o não dizer”.
“A gente não escreve sobre aquilo que pensa. A gente escreve sobre aquilo que não confessa nem à própria alma. Se você conseguir falar, escrever, entre o dizer e o não dizer, com certeza você vai escrever boas coisas”, afirmou, ao explicar que escrever era investigar o invisível, o que existe entre o dizer e o silêncio.
Dessa forma, fez do imaginário popular os escritos que conquistaram prêmios como o Jabuti, em 2000; o São Paulo, em 2010; o APCA, em 1995 e 2015; o Machado de Assis, em 1995 e 2010; e o José Condé, em 1984. Também teve obras traduzidas na França, na Romênia, no Uruguai e na Bulgária.
Alguns de seus títulos publicados são:
- "A história de Bernarda Soledade: a tigre do sertão" (1995)
“Somos pedras que se consomem” – Grande Prêmio da Crítica APCA (1996) e Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional (1996); - “As sombrias ruínas da alma” – Prêmio Jabuti (2000)
- “Sombra severa” (2001)
- “O amor não tem bons sentimentos” (2007)
- “Romance do bordado e da pantera negra” (2014)
- “Estão matando os meninos” (2020)
Raimundo destacou que escrever era "um ato posterior: você começa a escrever, a ler bem, ler criticamente, e depois aprender a pensar".
Quem foi Raimundo Carrero

Natural de Salgueiro, Raimundo Carrero construiu uma trajetória marcada pela atuação no jornalismo e na literatura.
Além de romancista e cronista, Raimundo Carrero era jornalista. Iniciou sua carreira no Diario de Pernambuco em 1969, onde atuou durante 25 anos como crítico literário e editor-chefe. Neste ano, retornou ao jornal para assinar a coluna semanal “Diario Cultural”.
O escritor também integrou o Movimento Armorial na literatura, ao lado de Ariano Suassuna, presidiu a Fundarpe e ocupou uma cadeira na Academia Pernambucana de Letras.
Além dos livros, Carrero também marcou o imaginário popular publicar a história da “Perna Cabeluda”, em 1976, uma das lendas urbanas mais conhecidas de Pernambuco.

Na época, um conto policial assinado por Raimundo Carrero no Diario de Pernambuco, intitulado "A perna cabeluda", relatava que uma perna atacava pessoas no pescoço e no abdômen, invadia casas e agredia uma bela moça.
"Me inspirei em uma história contada por um operário do jornal. Ele dizia ter levado um tapa — embora perna não dê tapa", lembrou Carrero, ao JC. "Achei por bem escrever uma crônica no Diario, e desde então o pessoal começou a falar disso. Pegou como lenda".
O realismo fantástico do conto driblou a ditadura militar em um período em que as páginas dos jornais eram inspecionadas pelo regime.
Décadas depois, em 2025, o personagem voltou aos holofotes ao aparecer no filme "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho, reforçando o legado do escritor na cultura pernambucana e brasileira.
Interpretação do Sertão

Mais de 500 km longe de sua terra natal, Raimundo Carreiro viveu no Recife durante a maior parte da vida. Mas foi em Salgueiro que começou seus escritos e desenvolveu o que chamou de capacidade de pensar, de refletir e escrever.
Antes da manifestação da dor, da seca e do silêncio, Raimundo via em Salgueiro o clima, a expectativa, a forma de viver. Mais do que regionalismo, sua obra carrega as cores do Sertão de Pernambuco, uma paisagem afetiva, e não geográfica.
Carrero referenciou suas histórias e personagens no Sertão. Em uma interpretação dos territórios, o autor não se limitou à fotografia: fez do espaço a manifestação espontânea da poética e da prosa.
O jornalista Marcelo Pereira, que teve com Carrero uma amizade construída ao longo de mais de três décadas, destacou o percurso literário do autor, que vai de Salgueiro ao Recife, alinhado com a estética da escrita contemporânea e percorrendo vários universos com histórias de forte impacto e denúncia social.
“Carrero sempre foi uma pessoa muito revoltada com as mazelas do mundo, com as disparidades sociais e com as violências.Seu legado é uma obra densa, multifacetada, rica, com personagens fortese questões bíblicas transformadas em literatura nordestina e pernambucana, que vai do Armorial até as tendências mais recentes de escrita literária”, apontou.
A espiritualidade do Movimento Armorial
Raimundo Carrero é, ao lado de Ariano Suassuna, um dos grandes nomes por trás do Movimento Armorial na década de 1970.
Mestre, amigo íntimo e uma das maiores referências de sua formação literária, Ariano foi responsável por aproximá-lo do movimento e marcou profundamente sua maneira de compreender a arte e a narrativa.
Por mais de cinco décadas, conviveu com o autor de “O Auto da Compadecida”. Em entrevista ao GLOBO em 2014, o salgueirense falou que Ariano foi um professor, que o orientou na construção de romances, indicou obras para que aprimorasse a técnica de escrever e o incentivou.
Para Carrero, o Armorial tinha como objetivo “recolher a literatura e a cultura brasileiras em suas raízes, nas suas bases, como o folclore de cordel, a música de viola e a música regional, para criar uma expressão que permitisse ao leitor ou ao admirador de qualquer área compreender, valorizar e interpretar a vida brasileira”.
Sidney Rocha, escritor e diretor do Arquivo Público de Pernambuco, cultivou com Carrero uma amizade de mais de 40 anos e destacou que sua lembrança é um “grande estímulo”.
“O que se perde na literatura brasileira é um ponto de interlocução. Seu trabalho atravessa gerações por sua capacidade de dialogar com gerações distintas, especialmente quando se tratava da literatura profunda, dos verdadeiros interesses da literatura, e não do mundo literário”, destacou.
Autoridades e instituições lamentam morte de Carrero

A morte de Raimundo Carrero mobilizou instituições e autoridades de Pernambuco, que ressaltaram a dimensão de sua contribuição para a cultura e a literatura brasileira. Em nota, a APL, da qual o escritor ocupava a cadeira 3 desde 2004, afirmou receber a notícia “com profundo pesar” e destacou que sua obra permanecerá como patrimônio da literatura pernambucana.
"Raimundo Carrero foi um dos mais importantes escritores pernambucanos de sua geração. Ao longo de sua trajetória literária, recebeu importantes distinções, entre elas o Prêmio Machado de Assis, o Prêmio São Paulo de Literatura e o Prêmio Jabuti", diz o texto.
A governadora Raquel Lyra também lamentou a perda do escritor e anunciou luto oficial de três dias em Pernambuco. Na mensagem, destacou que Carrero dedicou sua vida à defesa do jornalismo e da literatura, construindo uma trajetória reconhecida dentro e fora do país. “A escrita de Carrero jamais será esquecida. O seu legado também”, afirmou.
A Prefeitura do Recife, por meio da Secretaria de Cultura (SECULT) e da Fundação de Cultura Cidade do Recife (FCCR), definiu a morte do autor como “o silêncio de uma literatura de tantos predicados, que celebrou e ajudou a inventar o Nordeste”. A nota ressaltou ainda sua atuação como formador de escritores, lembrando as oficinas literárias que influenciaram gerações de autores.
Já a Prefeitura de Salgueiro, cidade natal do escritor, destacou que Carrero construiu uma trajetória brilhante e se consolidou como um dos grandes nomes da literatura brasileira e decretou luto oficial de três dias na cidade.
"Com talento e dedicação às letras, levou o nome de Salgueiro para além das fronteiras do Sertão, tornando-se motivo de orgulho para nossa gente e referência para escritores e leitores. Seu legado permanecerá vivo nas páginas que escreveu, na cultura que ajudou a construir e na memória de todos aqueles que foram tocados por sua arte", diz o texto.

