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Uma novela e uma parvoíce

14 June 2026 at 12:04

Semanas de mais trabalho dão tempos com menos espaço para a televisão, o que só mostra que a vida tem mesmo destes equilíbrios: nem tudo é mau, no meio do melhor e do pior (péssimo princípio de texto). Por isso, tenho-me contentado com umas imagens fugazes daqui e dali, como por exemplo na novela “Mourinho em Férias”. A produção muito acarinhada por jornalistas e comentadores, versava sobre a vida de um treinador de futebol em fim de carreira, que iludiu dezenas de papalvos no espaço de semanas, com conversas de café até ao limite do bocejo. No entanto a novela tinha todos os ingredientes que uma produção na sua área apresenta para, em vez de se fazerem dez episódios do aborrecimento em questão, se alavancar a coisa para trinta ou quarenta. E como é que se produz uma anormalidade dessas? Pois, andando ao longo da semana como a bolsa de Nove Iorque se tem comportado ao longo do conflito entre o homem da pele cor de salmão e os torcionários da velha Pérsia. Uns dias sobe (está em vias de assinar pelo Real Madrid), noutros desce (Florentino jurou, pela sua saúde, que nem sabia que Mourinho ainda treinava), depois mantém-se (Florentino ali sem fazer grande cachão, a dizer que afinal houve contactos – contatos – na novilíngua pós AO). Volta a subir, desce, mantém. De forma a que, três semanas depois das primeiras notícias (início da novela) o estado das coisas se mantenha mais ou menos no lugar onde começou. A ideia é que qualquer um de nós possa pegar na, como agora se diz, narrativa e perceber, como agora se diz, o que está em cima da mesa e morrer de tédio, percebendo que para dourar a pílula, se joga a mão ao que de mais profundo temos, desde que se aceite que a nossa vida mental é mais fina que uma tábua de passar a ferro. Se eu fosse um gajo dado a uma perspectiva da vida muito conspirativa, como é agora apanágio dos seguidores das redes que não vou sequer mencionar o nome, diria que jornalistas, comentadores, empresários, e activos da área do futebol em geral, se apresentam mancomunados para que se produzam notícias em rotação, e alguém faça vida disso, muito bem remunerada, por sinal.

O dia está quente, leio um livro interessante, e só sobra uma pequena atenção para o que vai passando nos rodapés dos noticiários. O gajo que vos convida a ter uma percepção mais profunda da vida (aí uns três metros de abaixo do nível do mar), guia-se pelos rodapés (se isto não é contradição, onde anda a contradição?, na má vida? Que lhe faça bom proveito). A mensagem era “Refinaria de Sines e TAP são as maiores empresas poluidoras de Portugal”. Então quem queriam que fosse? O jardim de Serralves? Às vezes pergunto o que quer com estas notícias. Dizer que somos papalvos? Que a TAP tem que acabar a menos que passem a existir aviões eléctricos? Isso não se faz à prima.

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