Pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (10) aponta Lula (PT) com 39% e Flávio Bolsonaro (PL) com 29% das intenções de voto para presidente da República no primeiro turno das eleições de 2026.
Em relação à pesquisa anterior, realizada em maio, Lula manteve o mesmo percentual de intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro recuou quatro pontos percentuais, passando de 33% para 29%. Com isso, a vantagem do petista sobre o senador ampliou de seis para dez pontos percentuais no principal cenário testado pelo instituto.
Entre os demais candidatos medidos pela Quaest, Renan Santos (Missão) aparece com 3% das intenções de voto. Ronaldo Caiado (PSD), Aécio Neves (PSDB) e Romeu Zema (Novo) registram entre 2% e 3%.
Augusto Cury (Avante), Joaquim Barbosa (DC) e Samara Martins (UP) têm 1% cada. Edmilson Costa (PCB) e Heró Bezerra (PRTB) não pontuaram.
Os indecisos somam 10% do eleitorado, cinco pontos acima do registrado em maio. Já os eleitores que declaram voto branco, nulo ou afirmam que não pretendem votar representam 9%.
Confira os números abaixo:
Presidente - primeiro turno - Quaest
Lula (PT): 39% (-)
Flávio Bolsonaro (PL): 29% (-4)
Renan Santos (Missão): 3% (-1)
Ronaldo Caiado (PSD): 3% (-1)
Aécio Neves (PSDB): 2%
Romeu Zema (Novo): 2% (-2)
Augusto Cury (Avante): 1% (-1)
Joaquim Barbosa (DC): 1%
Samara Martins (UP): 1% (-)
Edmilson Costa (PCB): 0%
Heró Bezerra (PRTB): 0%
Indecisos: 10% (+5)
Branco/nulo/não vai votar: 9% (-1)
A pesquisa Genial/Quaest ouviu 2.004 eleitores com 16 anos ou mais, entre os dias 5 e 8 de junho, em municípios de todas as regiões do país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com 95% de nível de confiança. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-07661/2026.
Nordeste segue como principal reduto de Lula
No recorte regional, Lula mantém ampla liderança no Nordeste, com 54% das intenções de voto, contra 25% de Flávio Bolsonaro. No Sudeste, o petista registra 37%, enquanto o senador aparece com 28%.
Já no Sul, Flávio lidera com 38%, diante de 27% de Lula. No Centro-Oeste e Norte, há empate técnico: Lula tem 32%, enquanto Flávio marca 30%.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a abrir vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno das eleições presidenciais de 2026, segundo pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta-feira (10).
No principal cenário testado pela Quaest, Lula aparece com 44% das intenções de voto, enquanto Flávio registra 38%. Considerando a margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, o petista passa a liderar numericamente fora do cenário de empate técnico que marcou os levantamentos anteriores.
Na rodada de maio, Lula tinha 42%, contra 41% do senador. O novo levantamento mostra que o presidente oscilou positivamente dois pontos percentuais, enquanto Flávio recuou três pontos, ampliando a diferença entre os dois de um para seis pontos percentuais.
O levantamento desta quarta-feira é o primeiro realizado após as revelações do Caso Master e dedica um capítulo específico à percepção do eleitorado sobre o episódio envolvendo Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro.
A pesquisa foi encomendada pela Genial Investimentos e ouviu 2.004 pessoas com 16 anos ou mais, entre os dias 5 e 8 de junho. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com 95% de nível de confiança. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-07661/2026.
Veja os números abaixo:
Segundo turno - Presidente - Quaest
Lula (PT): 44% (+2)
Flávio Bolsonaro (PL): 38% (-3)
Branco/nulo/não vai votar: 14% (-)
Indecisos: 4% (+1)
Outros cenários de segundo turno
Além do confronto direto entre Lula e Flávio Bolsonaro, a Quaest simulou outros cenários de segundo turno para a disputa presidencial de 2026. Em todos eles, o atual presidente aparece numericamente à frente dos adversários testados pelo instituto: Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão).
Entre os adversários testados pela Quaest, Renan Santos foi quem apresentou a maior evolução ao longo dos últimos levantamentos. Em abril, o candidato do Missão registrava 24% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra Lula. Em maio, passou para 28% e, agora, alcançou 31%, crescendo sete pontos em dois meses.
O ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias (PT), procurou o ex-prefeito do Recife e presidente nacional do PSB, João Campos, após a repercussão provocada por sua declaração sobre um eventual palanque duplo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Pernambuco. A informação foi divulgada pelo portal Metrópoles nesta terça-feira (9).
De acordo com a publicação, Wellington, que é coordenador da campanha de Lula no Nordeste, teria telefonado para João Campos na segunda-feira (8) e novamente nesta terça-feira, em uma tentativa de reduzir o desgaste causado pela entrevista concedida ao jornal O Globo, na qual afirmou que o presidente teria mais de um palanque em estados como Pernambuco, Maranhão e Paraíba.
Segundo o Metrópoles, o ministro afirmou ao dirigente socialista que sua declaração teria sido "mal interpretada". A reportagem também aponta que Wellington buscou esclarecer que sua fala não significaria uma mudança na estratégia já definida pelo PT para a disputa em Pernambuco.
O episódio teve início após a publicação da entrevista ao O Globo, no último domingo (7). Ao ser questionado sobre a possibilidade de palanque duplo no Estado, Wellington respondeu de forma afirmativa.
"Sim. Lá temos o João Campos e a Raquel Lyra", declarou o ministro ao jornal.
Na mesma entrevista, ele acrescentou:
"Vamos lembrar que ela (Raquel Lyra) se colocou primeiro como oposição e no segundo turno teve uma posição mais de neutralidade, mas uma parte considerável do nosso time ficou com ela", complementou.
A declaração provocou desconforto entre dirigentes do PSB e do PT em Pernambuco, uma vez que o partido formalizou, ainda em março, apoio à pré-candidatura de João Campos ao Governo do Estado. O ato político contou com a presença da militância petista e marcou também o lançamento da pré-candidatura do senador Humberto Costa (PT) à reeleição.
Na segunda-feira (8), o presidente nacional do PT, Edinho Silva, desautorizou publicamente a fala do ministro. Também em entrevista ao O Globo, ele afirmou que o presidente Lula terá apenas um palanque em Pernambuco.
"Essa posição está clara desde o início, em Pernambuco o presidente Lula tem um único palanque, é o do João Campos. O PSB é o maior aliado do PT no Brasil todo. Esse ruído é desnecessário", declarou Edinho.
Segundo o próprio O Globo, João Campos teria procurado Edinho Silva para pedir esclarecimentos após a repercussão da entrevista de Wellington Dias. O ex-prefeito do Recife, além de pré-candidato ao Governo de Pernambuco, é presidente nacional do PSB e participa diretamente das articulações nacionais da legenda com o PT para as eleições de 2026.
Ao Jornal do Commercio, o presidente estadual do PT, deputado federal Carlos Veras, reforçou que a posição do partido em Pernambuco segue alinhada à orientação nacional.
"O que nós construímos aqui foi em sintonia com o presidente Lula e com o presidente Edinho, que coordena a campanha de Lula. Aqui nós temos um palanque, um time montado", afirmou.
Veras também ressaltou que a aliança com o PSB foi construída conjuntamente pelas direções estadual e nacional da sigla.
"Foi algo construído com o presidente Edinho e com o presidente Lula. Não foi uma coisa da cabeça de Carlos Veras ou da direção simplesmente. Foi uma decisão tomada pelo PT nacional, pelo presidente Lula", disse.
Em nota, a direção estadual petista reafirmou que "a campanha do presidente Lula à reeleição só terá um palanque aqui em nosso estado, formado com o PSB e comandado" por João Campos.
O presidente estadual do PSB, deputado Sileno Guedes, também minimizou os efeitos da declaração de Wellington Dias. Em entrevista à Rádio Folha, nesta terça-feira (9), afirmou que o episódio foi superado após o posicionamento da direção nacional do PT.
"Não sei o que levou o ministro a dar essa declaração, mas foi uma declaração que, por si só, se desmanchou por conta da palavra do presidente nacional do partido e por conta da relação que João Campos tem com o presidente Lula, como presidente nacional do PSB, um dos partidos mais importantes da aliança que levará o presidente Lula à reeleição", declarou.
O novo movimento relatado pelo Metrópoles ocorre após dois dias de repercussão política em torno do tema e indica uma tentativa de conter os efeitos da declaração do ministro em um dos estados considerados estratégicos para a aliança entre PT e PSB nas eleições de 2026.
Até o momento, João Campos não se posicionou publicamente sobre o assunto, apesar das publicações do Globo e do Metrópoles indicarem que o presidente nacional do PSB está ativo em torno do tema.
Já a governadora Raquel Lyra (PSD), quando questionada sobre a fala de Wellington Dias, tem adotado um discurso de reconhecimento à parceria institucional com o presidente Lula e o governo federal em Pernambuco, evitando tratar diretamente de cenários eleitorais para 2026.
"Qual é a nossa relação com o presidente? Uma relação baseada no trabalho e na entrega. [...] Eu sou grata ao presidente e aos seus ministros. Isso é indiscutível", disse Raquel Lyra, em entrevista à CNN Brasil, nesta terça-feira.
O ministro Dias Toffoli tomou posse nesta terça-feira (9) no cargo de ministro efetivo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão responsável pela organização das eleições de outubro.
Em um breve discurso, o ministro disse que terá o compromisso de garantir a soberania do voto do eleitor nas eleições.
"Quem decide o processo eleitoral é o povo, não é a Justiça. Quem decide o voto é o senhor do voto. O efetivo momento em que todos brasileiros são efetivamente iguais é no momento de depositar o voto na urna eletrônica", afirmou.
Composição
O TSE é composto por sete ministros, sendo três do STF, dois do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e dois advogados indicados pelo presidente da República, além dos respectivos substitutos.
A partir de agora, a nova composição de ministros será:
O ministro Dias Toffoli tomou posse nesta terça-feira (9) no cargo de ministro efetivo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), órgão responsável pela organização das eleições de outubro.
Em um breve discurso, o ministro disse que terá o compromisso de garantir a soberania do voto do eleitor nas eleições.
"Quem decide o processo eleitoral é o povo, não é a Justiça. Quem decide o voto é o senhor do voto. O efetivo momento em que todos brasileiros são efetivamente iguais é no momento de depositar o voto na urna eletrônica", afirmou.
Composição
O TSE é composto por sete ministros, sendo três do STF, dois do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e dois advogados indicados pelo presidente da República, além dos respectivos substitutos.
A partir de agora, a nova composição de ministros será:
O Partido dos Trabalhadores (PT) publicou nesta segunda-feira (8) uma carta aberta direcionada ao eleitorado evangélico. O documento mistura citações bíblicas com propostas de governo e defende a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2026.
O documento é assinado pelo IV Encontro Nacional de Evangélicos do Partido dos Trabalhadores, que ocorreu em Brasília.
A carta rejeita a ideia de que os evangélicos brasileiros são como um bloco político único e afirma que o encontro não pretende falar em nome de todas as denominações. Além disso, critica a "tentativa de transformar a religião em instrumento de manipulação política".
A carta é estruturada em torno de versículos bíblicos que funcionam como moldura para cada bloco temático. O documento abre com uma passagem de Isaías cujo texto trata de libertar oprimidos e repartir alimento com famintos, e recorre a Tiago, Mateus, Efésios e Pedro ao longo do texto - sempre ancorando as posições políticas em referências do Novo Testamento.
Entre as propostas, o documento defende a ampliação de programas sociais já existentes, como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida e a Farmácia Popular, e apoia medidas em curso no governo Lula, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e o fim da escala 6×1. A carta também fala sobre o fortalecimento da agricultura familiar e da Reforma Agrária, políticas de primeiro emprego para a juventude, atenção integral à saúde da mulher e garantia de acesso da população negra ao sistema de justiça.
O texto trata, ainda, da soberania e da proteção das florestas, das águas e da biodiversidade - e usa a expressão "Casa Comum", associada ao papa Francisco.
O encontro desta segunda aconteceu em meio a um conflito da primeira-dama Rosângela Silva, a Janja, e o pastor Silas Malafaia. Ele criticou os encontros que ela vem realizando com mulheres evangélicas, chamando suas interlocutoras de "insignificantes". Janja reverteu o adjetivo contra ele e afirmou não o reconhecer como pastor.
VOTOS EVANGÉLICOS
O PT tem dificuldade de atrair os votos evangélicos e a carta é um aceno em direção a este eleitorado. Segundo o Censo do IBGE de 2022, evangélicos representavam 26,9% da população brasileira, e 55,4% desse total eram mulheres. Pesquisa indicam grande desvantagem de Lula neste espectro. Além disso, no início do ano, o presidente se viu envolvido em uma crise com parte da comunidade evangélica em razão de uma ala do desfile da escola de samba que o homenageava e que satirizava grupos religiosos.
A própria Janja fez uma autocrítica durante o encontro, reconhecendo que o PT se isolou das igrejas ao longo dos anos.
Na última semana, evangélicos de diferentes denominações se reuniram na Marcha para Jesus, em São Paulo. O evento contou com a presença de Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário do PT nestas eleições, mas não com a de Lula. O presidente afirmou que decidiu não participar para "não passar a ideia de que quer tirar proveito político de algo sagrado". Ele foi representado pelo ministro da AGU, Jorge Messias.
O Instituto Sou da Paz lançou, nesta terça-feira (9), a campanha Vote pela Paz e a agenda eleitoral “Brasil em Ação pela Paz – Propostas para uma Segurança Pública de Verdade”. O objetivo é qualificar o debate eleitoral e pressionar candidaturas a apresentarem planos consistentes, metas e compromissos reais para reduzir a violência no país. A iniciativa se contrapõe a abordagens baseadas no improviso e no populismo.
“A população está cansada de frases de efeito, improviso e promessas simplistas na área da segurança pública. O que as pessoas querem é resultado concreto, proteção no cotidiano e políticas que funcionem de verdade. O período eleitoral é uma oportunidade importante para elevar a qualidade desse debate”, afirmou Carolina Ricardo, diretora-executiva do Sou da Paz.
Embora alguns indicadores nacionais tenham apresentado melhora, como a queda dos homicídios, o Sou da Paz ressalta que o Brasil ainda enfrenta uma realidade em que mais de 44 mil pessoas são vítimas de morte violentas por ano. Há ainda a expansão do crime organizado, aumento das fraudes e extorsões digitais, medo dos roubos, especialmente de celulares, e crescente violência contra meninas e mulheres.
A agenda de propostas apresenta ações aplicáveis nos âmbitos estadual e federal e é organizada em cinco eixos prioritários: proteção de meninas e mulheres; fortalecimento das polícias; enfrentamento ao crime organizado; redução dos roubos; e retirada de armas ilegais de circulação.
As propostas destacam a valorização dos profissionais de segurança, o fortalecimento da investigação criminal, o uso responsável de tecnologia, a integração entre instituições e o combate ao tráfico de armas.
Dados da pesquisa “O que pensa a população brasileira sobre segurança pública”, do Sou da Paz, mostram que 94% da população reconhece algum grau de violência na cidade onde vive, mais da metade (53%) evita sair à noite e um terço (31%) evita o uso de celular na rua, como forma de autoproteção.
“A sociedade quer firmeza, mas quer firmeza que funcione. Existe uma maioria favorável a soluções inteligentes, ao uso de tecnologia, à investigação e à profissionalização das polícias. O desafio agora é transformar essa demanda social em compromisso político concreto”, explica Carolina.
A pesquisa mostra ainda que, para 82% das pessoas, as câmeras corporais são tecnologias que protegem os bons policiais e produzem provas contra criminosos; 73% acredita que mais armas significam mais mortes e mais violência; e 65% avalia que não é preciso mais policiais, e sim de uma polícia melhor e mais preparada.
Ainda sobre soluções mais eficazes, Carolina destacou a necessidade, por exemplo, de ampliar o olhar sobre o crime organizado, que não se restringe ao tráfico de drogas. “É preciso trazer o sistema financeiro para o debate, fazer investigação financeira e combate à lavagem de dinheiro.”
Crime organizado
Segundo dados compilados na agenda eleitoral, o crime organizado movimentou mais de R$ 350 bilhões nos últimos três anos, incluindo atividades como a venda de combustíveis, garimpo ilegal e contrabando de cigarros e bebidas alcoólicas.
Além de atingir os territórios, segundo o Sou da Paz, o crime organizado ataca o Estado Democrático de Direito ao se infiltrar na administração pública e na política, o que resulta em violência e falta de confiança da população nas instituições.
“Essa presença se reflete num crescimento de 335% de casos de violência política no Brasil nos últimos três anos - somente nos primeiros meses de 2022, foram 45 homicídios”, diz trecho da agenda.
Uma das ações propostas na agenda é o fortalecimento da integração e cooperação entre instituições como Receita Federal, Polícia Federal, Banco Central, Ministério Público e polícias estaduais, além de cooperações internacionais, propiciando estratégias de atuação conjunta contra a lavagem de dinheiro e os diversos mercados ilícitos.
Outra medida é o reordenamento da ação policial, priorizando investigações, investimento em inteligência e fortalecimento de perícias, com objetivo de asfixiar as organizações em suas bases financeiras e de comando. Para o Sou da Paz, as operações de incursão territorial devem ser consideradas de forma excepcional, somente se houver condições de segurança reais para a população e os policiais.
O Instituto Sou da Paz lançou, nesta terça-feira (9), a campanha Vote pela Paz e a agenda eleitoral “Brasil em Ação pela Paz – Propostas para uma Segurança Pública de Verdade”. O objetivo é qualificar o debate eleitoral e pressionar candidaturas a apresentarem planos consistentes, metas e compromissos reais para reduzir a violência no país. A iniciativa se contrapõe a abordagens baseadas no improviso e no populismo.
“A população está cansada de frases de efeito, improviso e promessas simplistas na área da segurança pública. O que as pessoas querem é resultado concreto, proteção no cotidiano e políticas que funcionem de verdade. O período eleitoral é uma oportunidade importante para elevar a qualidade desse debate”, afirmou Carolina Ricardo, diretora-executiva do Sou da Paz.
Embora alguns indicadores nacionais tenham apresentado melhora, como a queda dos homicídios, o Sou da Paz ressalta que o Brasil ainda enfrenta uma realidade em que mais de 44 mil pessoas são vítimas de morte violentas por ano. Há ainda a expansão do crime organizado, aumento das fraudes e extorsões digitais, medo dos roubos, especialmente de celulares, e crescente violência contra meninas e mulheres.
A agenda de propostas apresenta ações aplicáveis nos âmbitos estadual e federal e é organizada em cinco eixos prioritários: proteção de meninas e mulheres; fortalecimento das polícias; enfrentamento ao crime organizado; redução dos roubos; e retirada de armas ilegais de circulação.
As propostas destacam a valorização dos profissionais de segurança, o fortalecimento da investigação criminal, o uso responsável de tecnologia, a integração entre instituições e o combate ao tráfico de armas.
Dados da pesquisa “O que pensa a população brasileira sobre segurança pública”, do Sou da Paz, mostram que 94% da população reconhece algum grau de violência na cidade onde vive, mais da metade (53%) evita sair à noite e um terço (31%) evita o uso de celular na rua, como forma de autoproteção.
“A sociedade quer firmeza, mas quer firmeza que funcione. Existe uma maioria favorável a soluções inteligentes, ao uso de tecnologia, à investigação e à profissionalização das polícias. O desafio agora é transformar essa demanda social em compromisso político concreto”, explica Carolina.
A pesquisa mostra ainda que, para 82% das pessoas, as câmeras corporais são tecnologias que protegem os bons policiais e produzem provas contra criminosos; 73% acredita que mais armas significam mais mortes e mais violência; e 65% avalia que não é preciso mais policiais, e sim de uma polícia melhor e mais preparada.
Ainda sobre soluções mais eficazes, Carolina destacou a necessidade, por exemplo, de ampliar o olhar sobre o crime organizado, que não se restringe ao tráfico de drogas. “É preciso trazer o sistema financeiro para o debate, fazer investigação financeira e combate à lavagem de dinheiro.”
Crime organizado
Segundo dados compilados na agenda eleitoral, o crime organizado movimentou mais de R$ 350 bilhões nos últimos três anos, incluindo atividades como a venda de combustíveis, garimpo ilegal e contrabando de cigarros e bebidas alcoólicas.
Além de atingir os territórios, segundo o Sou da Paz, o crime organizado ataca o Estado Democrático de Direito ao se infiltrar na administração pública e na política, o que resulta em violência e falta de confiança da população nas instituições.
“Essa presença se reflete num crescimento de 335% de casos de violência política no Brasil nos últimos três anos - somente nos primeiros meses de 2022, foram 45 homicídios”, diz trecho da agenda.
Uma das ações propostas na agenda é o fortalecimento da integração e cooperação entre instituições como Receita Federal, Polícia Federal, Banco Central, Ministério Público e polícias estaduais, além de cooperações internacionais, propiciando estratégias de atuação conjunta contra a lavagem de dinheiro e os diversos mercados ilícitos.
Outra medida é o reordenamento da ação policial, priorizando investigações, investimento em inteligência e fortalecimento de perícias, com objetivo de asfixiar as organizações em suas bases financeiras e de comando. Para o Sou da Paz, as operações de incursão territorial devem ser consideradas de forma excepcional, somente se houver condições de segurança reais para a população e os policiais.
O Partido dos Trabalhadores (PT) publicou nesta segunda-feira (8) uma carta aberta direcionada ao eleitorado evangélico. O documento mistura citações bíblicas com propostas de governo e defende a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2026.
O documento é assinado pelo IV Encontro Nacional de Evangélicos do Partido dos Trabalhadores, que ocorreu em Brasília.
A carta rejeita a ideia de que os evangélicos brasileiros como um bloco político único e afirma que o encontro não pretende falar em nome de todas as denominações. Além disso, critica a "tentativa de transformar a religião em instrumento de manipulação política".
A carta é estruturada em torno de versículos bíblicos que funcionam como moldura para cada bloco temático. O documento abre com uma passagem de Isaías cujo texto trata de libertar oprimidos e repartir alimento com famintos, e recorre a Tiago, Mateus, Efésios e Pedro ao longo do texto - sempre ancorando as posições políticas em referências do Novo Testamento.
Propostas defendidas pelo governo
Entre as propostas, o documento defende a ampliação de programas sociais já existentes, como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida e a Farmácia Popular, e apoia medidas em curso no governo Lula, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e o fim da escala 6×1.
A carta também fala sobre o fortalecimento da agricultura familiar e da Reforma Agrária, políticas de primeiro emprego para a juventude, atenção integral à saúde da mulher e garantia de acesso da população negra ao sistema de justiça.
Meio ambiente e soberania nacional
O texto trata, ainda, da soberania e da proteção das florestas, das águas e da biodiversidade - e usa a expressão "Casa Comum", associada ao papa Francisco.
O encontro desta segunda aconteceu em meio a um conflito da primeira-dama Rosângela Silva, a Janja, e o pastor Silas Malafaia. Ele criticou os encontros que ela vem realizando com mulheres evangélicas, chamando suas interlocutoras de "insignificantes". Janja reverteu o adjetivo contra ele e afirmou não o reconhecer como pastor.
PT busca ampliar presença entre evangélicos
O PT tem dificuldade de atrair os votos evangélicos e a carta é um aceno em direção a este eleitorado. Segundo o Censo do IBGE de 2022, evangélicos representavam 26,9% da população brasileira e 55,4% desse total eram mulheres. Pesquisa indicam grande desvantagem de Lula neste espectro.
Além disso, no início do ano o presidente se viu envolvido em uma crise com parte da comunidade evangélica em razão de uma ala do desfile da escola de samba que o homenageava e que satirizava grupos religiosos. A própria Janja fez uma autocrítica durante o encontro, reconhecendo que o PT se isolou das igrejas ao longo dos anos.
Na última semana, evangélicos de diferentes denominações se reuniram na Marcha para Jesus, em São Paulo. O evento contou com a presença de Flávio Bolsonaro (PL), principal adversário do PT nestas eleições, mas não com a de Lula. O presidente afirmou que decidiu não participar para "não passar a ideia de que quer tirar proveito político de algo sagrado". Ele foi representado pelo ministro da AGU, Jorge Messias.
Premido pelas circunstâncias e pela cobrança do pré-candidato a governador João Campos sobre a fala do ministro Wellington Dias ao jornal O Globo anunciando que o presidente Lula terá dois palanques em Pernambuco, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, que há um mês, durante encontro do PT em Pernambuco, declarou estar aberto ao diálogo com a governadora caso ela decida apoiar a reeleição do presidente, se apressou a soltar uma nota esta segunda-feira afirmando, de forma categórica, que no estado “o presidente Lula tem um único palanque e é o de João Campos”.
Falou antes do tempo
Petistas pernambucanos ouvidos por este blog adiantaram que o ministro Wellington Dias teria se precipitado em suas declarações.
Um deles chegou a citar que “colocaram o carro na frente dos bois” explicando que o ministro, que é coordenador da campanha de Lula no Nordeste, falou em algo que não está definido em função da outra parte, que é a governadora, não ter se manifestado sobre a eleição para presidente.
Um outro que também solicitou anonimato com receio de aumentar a confusão disse que “na entrevista de Wellington ficou claro que ele estava falando de forma genérica sobre as alianças que poderiam ser feitas não só em Pernambuco como em outros estados do país".
Realidade dos fatos
Além da necessidade de acalmar João, Edinho Silva, segundo uma fonte deste blog na direção nacional do PT, teria falado dentro da realidade dos fatos: “até agora a governadora tem agradecido muito a Lula mas não disse claramente que vai apoiá-lo, portanto, não há como citar dois palanques enquanto isso não acontecer”.
Essa mesma fonte adiantou que “até a eleição ainda podem ocorrer muitas coisas, inclusive Raquel declarar apoio ao presidente mas essa questão ainda não está posta”.
Citou que em 2022 Lula teve o apoio de Danilo Cabral, Marília Arraes e de João Arnaldo, do PSOL e este ano pode ter o apoio de Raquel além do que já tem de João Campos e do PSOL, mas ainda não tem”.
Na verdade, desde que a questão dos dois palanques em Pernambuco foi citada pelo próprio presidente, em um evento do PT na Bahia em 2025, que os petistas pernambucanos começaram a conviver com essa realidade.
Nessa época ficou mais estreita a relação entre a bancada estadual do partido que faz parte da base de apoio da governadora e o Palácio do Campo das Princesas, o mesmo acontecendo com o senador Humberto Costa e o deputado federal Carlos Veras.
Mas com o fechamento da chapa de João Campos, tendo Humberto e Marília como candidatos ao Senado, houve um esfriamento na relação oficial do PT com Raquel.
O próprio Edinho deixou claro na ocasião que o partido deveria estar no palanque de João Campos, obedecendo a um entendimento nacional com o PSB, mas que caberia a Lula definir a postura dele no estado, como candidato à reeleição, sempre ressaltando a necessidade da governadora ser mais firme no apoio ao presidente.
Pelo visto, está cobrando isso e só vai mudar se houver por parte da governadora algum gesto de aproximação.
Pergunta que não quer calar: a governadora Raquel Lyra vai declarar apoio à reeleição do presidente Lula ou permanecer neutra?
Avante nervoso
O partido Avante, que apoia a governadora Raquel Lyra e é comandado pelos irmãos Waldemar e Sebastião Oliveira, viveu momentos de turbulência este final de semana após a decisão do ex-prefeito de Custódia, Emmanuel Fernandes, conhecido como Manuca de se afastar da campanha à reeleição de Waldemar a deputado federal para apoiar o deputado Fernando Monteiro, do PSD, da governadora Raquel Lyra, também candidato à reeleição.
Manuca, que, por indicação do Avante, foi secretário de desenvolvimento profissional e empreendedorismo da governadora e se afastou para ser candidato a federal, apoiou Monteiro logo depois de aceitar o convite para voltar ao Governo como secretário da Assessoria Especial da governadora.
Sebastião, que é candidato a deputado estadual e muito estouvado, gravou um vídeo denunciando traição sem citar a quem estava se referindo.
A corrida eleitoral em Pernambuco voltou a ter o PT e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como personagens centrais da disputa entre a governadora Raquel Lyra (PSD) e o ex-prefeito do Recife João Campos (PSB).
Desta vez, o tema que mobilizou os bastidores políticos foi a possibilidade de um eventual palanque duplo para Lula no Estado, hipótese levantada pelo ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, coordenador da campanha do presidente no Nordeste, em entrevista ao jornal O Globo publicada no último domingo (7).
A declaração provocou reação imediata de dirigentes petistas e socialistas, levando o presidente nacional do PT, Edinho Silva, a desautorizar publicamente o ministro e expôs uma discussão sensível para 2026: até onde Lula poderá se aproximar de Raquel Lyra sem gerar atritos com João Campos e o PSB?
O episódio transpassa as fronteiras pernambucanas, já que não envolve apenas a disputa pelo Governo do Estado, mas mexe também em uma das principais alianças da campanha presidencial e um elo que já se repetiu outras vezes na história, entre Lula, PT e PSB.
Além de pré-candidato ao governo, João Campos também preside nacionalmente o PSB, responsável pelas articulações da legenda a nível nacional, tendo realizado discussões frequentes com Lula e Edinho Silva sobre os palanques conjuntos de socialistas e petistas em diferentes estados, incluindo Pernambuco.
Outro ponto importante da aliança entre PSB e PT está na vice-presidência, ocupada por Geraldo Alckmin desde as eleições de 2022. Agora na presidência nacional da legenda socialista, João Campos participou ativamente da articulação que garantiu Alckmin na chapa para 2026.
Por isso, a possibilidade de um eventual apoio dividido de Lula em Pernambuco foi recebida com desconforto por setores do PSB. Em março, o PT pernambucano já tinha formalizado apoio à candidatura de João Campos em um ato político que reuniu dirigentes nacionais, militância e lideranças da Frente Popular.
A fala que provocou o ruído
Na entrevista ao O Globo, Wellington Dias afirmou que Pernambuco, Maranhão e Paraíba seriam estados onde Lula poderia contar com mais de um palanque.
Quando questionado especificamente sobre Pernambuco, o ministro foi direto.
“Sim. Lá temos o João Campos e a Raquel Lyra”, afirmou.
“Vamos lembrar que ela se colocou primeiro como oposição e no segundo turno teve uma posição mais de neutralidade, mas uma parte considerável do nosso time ficou com ela”, acrescentou.
A declaração surpreendeu aliados de João Campos e integrantes do PT pernambucano. Desde março, quando o diretório estadual petista oficializou apoio à pré-candidatura do socialista ao governo, a construção política tem sido apresentada como parte de uma aliança nacional entre PT e PSB, com participação direta da direção nacional e do próprio presidente Lula.
O tema ganhou novos contornos nesta segunda-feira (8), quando o presidente nacional do PT, Edinho Silva, desautorizou publicamente a declaração de Wellington Dias. Também ao Globo, Edinho afirmou que não existe discussão sobre palanque duplo em Pernambuco.
“Essa posição está clara desde o início, em Pernambuco o presidente Lula tem um único palanque, é o do João Campos. O PSB é o maior aliado do PT no Brasil todo. Esse ruído é desnecessário”, declarou.
Segundo a reportagem, a reação ocorreu após dirigentes do PSB demonstrarem incômodo com a declaração do ministro e o próprio João Campos procurar Edinho Silva para cobrar explicações.
Nos bastidores, lideranças socialistas avaliam que um eventual apoio dividido de Lula em Pernambuco teria repercussões que ultrapassariam a disputa estadual e poderiam gerar ruídos em negociações nacionais entre PT e PSB.
PT de Pernambuco reforça apoio exclusivo a João
Ao Jornal do Commercio, o presidente estadual do PT, deputado federal Carlos Veras, afirmou que a posição do partido em Pernambuco segue exatamente a orientação construída pela direção nacional.
Segundo ele, não houve qualquer debate interno sobre palanque duplo durante as discussões que antecederam a formalização da aliança com o PSB.
“O que nós construímos aqui foi em sintonia com o presidente Lula e com o presidente Edinho, que coordena a campanha de Lula. Aqui nós temos um palanque, um time montado”, afirmou Veras, em contato com o JC.
O dirigente ressaltou que a decisão não foi tomada apenas pela direção estadual, mas construída conjuntamente com a cúpula nacional do partido.
“Foi algo construído com o presidente Edinho e com o presidente Lula”, disse.
Veras também destacou que a composição em Pernambuco acompanha uma estratégia nacional consolidada entre PT e PSB.
“Como a gente ia discutir algo aqui se nacionalmente estavam sendo construídas alianças com o PSB em todo o país? Não foi com o PSD que foi construído, foi com o PSB”, afirmou.
“A decisão de Pernambuco jamais seria uma decisão dessintonizada com a orientação e a decisão nacional. Repito: a decisão de Pernambuco seguiu a decisão nacional, porque nós somos um partido nacional.”
O presidente estadual do PT também destacou que o partido da governadora Raquel Lyra, o PSD, já tem o seu pré-candidato para presidente: o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado. De acordo com Veras,
"A governadora vai disputar a sua reeleição por um partido que tem candidato a presidente da república, o PSD. [...] Os ministros que ele (Wellington Dias) está falando, deve estar falando dos ministros do PSD que estão na base do governo ainda. Mesmo com o PSD com candidato a Presidente da República, o partido continua no governo, inclusive com mais de um ministro", afirmou.
Em nota divulgada após a repercussão do caso, a direção estadual reforçou o posicionamento.
“Como já decidido pelo PT de Pernambuco e já alinhado com o PT-Nacional, a campanha do presidente Lula à reeleição só terá um palanque aqui em nosso estado, formado com o PSB e comandado pelo presidente da sigla, ex-prefeito do Recife e pré-candidato a governador de Pernambuco, João Campos”, afirmou o partido.
Disputa mais acirrada ajuda a explicar debate
Embora o episódio tenha sido rapidamente encerrado pela direção nacional do PT, a repercussão da fala de Wellington Dias evidenciou uma discussão que persiste nos bastidores da sucessão estadual.
Para o cientista político Antônio Lucena, o tema voltou a ganhar relevância porque o cenário eleitoral mudou nos últimos meses.
Segundo ele, quando João Campos aparecia com vantagem confortável nas pesquisas, a associação entre Lula e o palanque socialista era um movimento mais simples. O avanço recente de Raquel Lyra, porém, tornou a equação mais delicada para setores do campo governista.
“Antes, a posição em torno de João era mais confortável para Lula, porque estava dando um indicativo de que ele estava à frente. Mas agora, com as novas pesquisas saindo e mostrando que há uma indefinição entre Raquel e João, fica realmente mais complicado fazer esses movimentos”, avaliou.
Na visão do especialista, a situação pernambucana possui uma característica particular: a elevada aprovação de Lula no Estado e a ausência, até o momento, de uma candidatura bolsonarista competitiva ao governo.
“Lula é bem avaliado no Estado de Pernambuco. Já o bolsonarismo enfrenta mais dificuldades. Então esse movimento em torno do presidente não é de se espantar tanto de um lado como de outro”, afirmou.
Lucena avalia que esse cenário faz com que tanto João Campos quanto Raquel Lyra tenham interesse em manter proximidade política com o presidente, ainda que ocupem campos distintos na disputa estadual.
“Como a gente não tem um candidato bolsonarista forte dentro do Estado, então não acho que é um grande problema”, observou.
Ao mesmo tempo, ele pondera que um eventual apoio dividido teria reflexos sobre a composição das chapas majoritárias, especialmente nas disputas para o Senado.
“O palanque duplo gera problemas com indicados ao Senado e outras figuras que estão preocupadas com essa composição. Mas isso não altera tanto o quadro principal porque a polarização entre Raquel e João já está muito consolidada”, afirmou.
Raquel evita entrar na disputa
A repercussão da fala de Wellington Dias também alcançou a governadora Raquel Lyra. Horas antes de Edinho Silva descartar a possibilidade de palanque duplo, a governadora foi questionada sobre a relação com Lula e evitou antecipar qualquer definição para a eleição de 2026.
“Como muitas vezes se divulgava que era impossível que eu e o governo do Estado pudéssemos estabelecer uma relação sólida com o governo federal, com o presidente e com seus ministros... Existe confiança de ambos os lados e a gente tem trabalhado muito para fazer entregas ao povo de Pernambuco”, afirmou.
A declaração foi dada durante a entrega de 40 ônibus para o transporte público da Região Metropolitana do Recife financiados com recursos do Novo PAC, medida do governo federal.
Sem comentar diretamente a possibilidade de um eventual apoio eleitoral de Lula, Raquel destacou a relação institucional construída com o governo federal desde o início de sua gestão.
Debate continua nos bastidores
A intervenção de Edinho Silva encerrou oficialmente o ruído, mas não eliminou a discussão política que a fala de Wellington Dias revelou.
Setores do governo federal e quadros do PT já defenderam em outros momentos a manutenção de canais abertos com Raquel Lyra, especialmente diante da importância estratégica de Pernambuco para a campanha presidencial de 2026.
Por outro lado, o PSB trata a disputa estadual como uma das prioridades nacionais da legenda e considera essencial preservar a vinculação entre João Campos e o presidente da República. João, inclusive, já teve o nome discutido por vezes como um eventual sucessor de Lula no futuro.
A rápida atuação da direção nacional petista evitou que o episódio evoluísse para uma crise aberta entre PT e PSB. Ainda assim, a sequência de declarações deixou evidente que, a pouco mais de um ano da eleição, o apoio de Lula permanece como um dos ativos políticos mais disputados da sucessão pernambucana.
Se oficialmente o PT reafirma que o palanque do presidente em Pernambuco é o de João Campos, a repercussão da fala de Wellington Dias mostrou que o tema continua mobilizando atenções tanto em Pernambuco quanto em Brasília.
Fala de ministro de Lula abriu ruído entre PT e PSB, mobilizando dirigentes nacionais e recolocando em discussão o peso político do presidente na disputa entre Raquel Lyra e João Campos
"Como muitas vezes se divulgava que era impossível que eu e o governo do Estado pudéssemos estabelecer uma relação sólida com o governo federal, com o presidente e com seus ministros... Existe confiança de ambos os lados e a gente tem trabalhado muito para fazer entregas ao povo de Pernambuco", afirmou a governadora.
A declaração foi feita durante a entrega de 40 ônibus para o transporte público da Região Metropolitana do Recife (RMR), financiados com recursos do Novo PAC. O evento ocorreu depois de o ministro Wellington Dias ter dito, em entrevista ao O Globo, que a campanha de Lula deveria contemplar dois palanques no estado – um com João Campos (PSB) e outro com a própria Raquel Lyra.
A fala gerou reação imediata do PSB e do próprio Campos, que procurou o presidente do PT, Edinho Silva, para se queixar e cobrar explicações, de acordo com O Globo.
Edinho, coordenador da campanha de Lula, foi categórico ao rechaçar a declaração do ministro. "Essa posição está clara desde o início: em Pernambuco, o presidente Lula tem um único palanque, é o do João Campos. O PSB é o maior aliado do PT no Brasil todo. Esse ruído é desnecessário", afirmou.
Ao ser questionada sobre 2026, Lyra preservou o espaço político sem se comprometer, numa postura recorrente de quem quer manter todas as portas abertas antes da hora.
A fala da governadora ocorre num momento delicado para a política pernambucana. Pesquisa Datafolha divulgada no fim de maio colocou Raquel Lyra numericamente à frente de João Campos (PSB) na corrida pelo governo do estado — 48% contra 43% —, invertendo uma vantagem de 12 pontos que o pré-candidato do PSB tinha em abril.
O novo cenário alimenta o debate sobre qual palanque seria mais estratégico para Lula no estado, tensionando a relação entre PT e PSB. Ao elogiar a parceria com o governo federal sem fechar questão sobre 2026, Lyra mantém aberta uma porta que o PSB quer ver trancada, e que uma ala do PT, como ficou claro com a declaração de Wellington Dias, ainda não descartou cruzar.
O presidente do PT, Edinho Silva, desautoriza o ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, após declarações dadas por ele ao O Globo em que defendia a construção de dois palanques para o presidente Lula em Pernambuco – um com João Campos (PSB) e outro com a governadora Raquel Lyra (PSD).
A crise foi deflagrada depois que a cúpula do PSB reagiu com irritação à fala do ministro e o próprio Campos procurou Edinho para se queixar e cobrar explicações.
Coordenador da campanha de Lula, Edinho foi categórico ao desfazer o efeito das palavras de Dias. "Essa posição está clara desde o início: em Pernambuco, o presidente Lula tem um único palanque, é o do João Campos. O PSB é o maior aliado do PT no Brasil todo. Esse ruído é desnecessário", declarou.
Na entrevista, Dias havia defendido uma articulação voltada ao centro político como parte da campanha à reeleição do petista, argumentando que palanques estaduais mais amplos seriam estratégicos para garantir governabilidade em um eventual novo mandato.
Ao citar Pernambuco, mencionou tanto Campos quanto Lyra. "Lá temos o João Campos e a Raquel Lyra. Vamos lembrar que ela se colocou primeiro como oposição e no segundo turno teve uma posição mais de neutralidade, mas uma parte considerável do nosso time ficou com ela", disse o ministro.
A declaração caiu como uma bomba no PSB. Dirigentes da sigla são frontalmente contrários à possibilidade de Lula dividir seu apoio no estado e tratam a eleição ao governo de Pernambuco como a principal prioridade do partido.
Interlocutores do presidente alertaram nos bastidores que qualquer sinalização de apoio dividido pode levar o PSB a reavaliar seus compromissos com o PT em outros estados.
O atrito entre as duas legendas em torno de um eventual duplo palanque no estado não é novidade. O ex-ministro da Casa Civil Rui Costa também chegou a defender a tese, com o argumento de que a disputa de 2026 será acirrada e Lula não poderia abrir mão de nenhum apoio, posição que contrariava diretamente Campos.
O nervosismo dos aliados do PSB tem base no novo cenário eleitoral revelado pelas pesquisas. Levantamento do Datafolha divulgado no fim de maio mostrou uma virada: Raquel Lyra apareceu com 48% das intenções de voto contra 43% de Campos, além de estar à frente em eventual segundo turno – inversão significativa em relação a abril, quando o pré-candidato do PSB tinha 12 pontos de vantagem.
O episódio evidencia as tensões de bastidores que cercam a construção da candidatura de Lula à reeleição – e os riscos de declarações desalinhadas num tabuleiro eleitoral cada vez mais sensível.
O ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias (PT), afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá contar com um palanque duplo em Pernambuco nas eleições de 2026. A declaração foi dada em entrevista ao jornal O Globo, publicada nesta semana, na qual o ministro tratou da estratégia política do governo para a disputa presidencial.
Responsável pela articulação da campanha de reeleição de Lula no Nordeste, Dias defendeu uma organização política construída a partir das realidades estaduais e indicou que o presidente deverá buscar apoio simultâneo da governadora Raquel Lyra (PSD) e do ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB), adversários na disputa pelo Governo de Pernambuco.
“Estamos trabalhando com mais de um palanque em vários estados: Maranhão, Paraíba, Pernambuco”, afirmou o ministro. Questionado sobre a existência de um palanque duplo no estado, respondeu: “Sim. Lá temos o João Campos e a Raquel Lyra”.
Ao justificar a estratégia, Wellington Dias lembrou o posicionamento adotado por Raquel Lyra na eleição presidencial de 2022. “Vamos lembrar que ela se colocou primeiro como oposição e, no segundo turno, teve uma posição mais de neutralidade, mas uma parte considerável do nosso time ficou com ela”, declarou.
A sinalização reforça uma tendência de aproximação entre o governo federal e a governadora pernambucana. Raquel Lyra passou a estreitar relações com o Palácio do Planalto ao longo do mandato, participando de agendas com Lula e ampliando parcerias administrativas com a União.
Ao mesmo tempo, João Campos é hoje um dos principais aliados do presidente no Nordeste. Integrante do PSB, partido que ocupa a vice-presidência da República com Geraldo Alckmin, o ex-prefeito do Recife mantém alinhamento político com o PT em Pernambuco.
Impacto do palanque duplo
Com a estratégia de manter pontes com os dois grupos, Lula busca uma vantagem eleitoral no estado, onde obteve ampla votação em 2022. Para Raquel Lyra, a perspectiva de dividir o palanque de Lula com João Campos pode fortalecer sua tentativa de ampliar o diálogo com o eleitorado de centro e centro-esquerda.
Por outro lado, a possibilidade de um palanque duplo não é o cenário considerado ideal pelo grupo político de João Campos. Aliados do socialista defendem que a candidatura ao Palácio do Campo das Princesas tenha o apoio exclusivo de Lula e do PT no estado. A avaliação é que um alinhamento formal apenas com João evitaria a divisão de um ativo eleitoral considerado estratégico na disputa estadual.
Na entrevista ao O Globo, Wellington Dias também avaliou que um dos principais erros do terceiro mandato de Lula foi não consolidar uma maioria simples no Congresso Nacional. Segundo ele, o governo precisa fortalecer a relação com partidos aliados e construir palanques estaduais que garantam maior governabilidade em um eventual novo mandato presidencial.
"Pelo modelo partidário brasileiro, a organização tem que ser pelos estados. Esse foi um erro que cometemos em querer resolver por cima. Devemos organizar estado por estado, porque é lá que sabemos quem é governo e quem é oposição. É lá que estão colados com o eleitor", comentou o ministro.
A violência política de gênero segue sendo uma das principais barreiras à participação das mulheres na vida pública. Segundo levantamento do Instituto Alziras, 92% das pessoas acusadas por esse tipo de violência são homens, evidenciando a desigualdade que ainda marca os espaços de poder.
Em ano eleitoral, esses ataques ganham destaque nas redes sociais e espaços de poder, com as mulheres e pessoas LGBTQIA+ entre os principais alvos. Ainda assim, são elas que continuam construindo projetos políticos comprometidos com uma sociedade mais justa, igualitária e inclusiva, a exemplo da deputada federal Erika Hilton e da vereadora Amanda Paschoal (PSOL-SP), que, mesmo sendo constantemente alvo de transfobia e violência política, atuam em temas de grande apelo popular e que mobilizam diretamente o debate público nacional, como a proposta pelo fim da escala 6×1.
Neste episódio do Pauta Pública, Andrea Dip conversa com Paschoal sobre os desafios da participação política em tempos de avanço da extrema direita. A partir de sua própria experiência como alvo de violência política, Amanda analisa o papel das fake news, a lentidão das instituições na responsabilização dos agressores e os riscos desta realidade para a democracia.
“As candidatas agora vão sofrer com as mentiras, com as fake news e com a misoginia, com a violência de gênero que é tão presente na nossa sociedade e tão explorada pela extrema direita”, afirma.
Confira os principais trechos da entrevista e ouça o podcast abaixo.
EP 219
A luta por uma democracia mais justa e inclusiva – com Amanda Paschoal
5 de junho de 2026
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Amanda Paschoal fala sobre violência política, transfobia e a disputa pelo futuro da democracia brasileira
Qual é sua trajetória na vida e como você entrou para a política?
Eu nasci no extremo sul de São Paulo, perto do Grajaú. Cresci em Aracaju (SE) e volto para São Paulo com 18 anos. Através das experiências profissionais que tive aqui na cidade, que foram sempre subempregos, e também através de contatos que eu fui criando de redes de afeto e redes de militância, eu chego até o ativismo.
Eu cheguei até a militância através da educação popular quando ingressei num cursinho popular preparatório para o Enem, para vestibulares, que é o cursinho Transformação, ainda está em curso. Eu participei desse projeto no projeto piloto e acho que eu fiquei uns quatro meses de agosto até dezembro e aí eu ingresso na universidade, em gestão de turismo no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e sigo nesse coletivo na construção dando suporte para construção e para a manutenção do próprio coletivo e lá eu construí também outro coletivo, que é o TRANSarau, que é um coletivo de arte e depois surgiu uma possibilidade de trabalhar com a Érika Hilton.
Comecei primeiramente na recepção do mandato dela e fazendo as reuniões de articulação política e depois de eu assumi a agenda dela e me tornei a sua principal assessora, em 2021, logo quando ela se elege para vereadora, como a mulher mais bem votada do país e aí passamos para a campanha de deputada federal e vou com ela pra Brasília. Aí chegam pautas importantíssimas como a pauta do fim da 6×1, que chegou através do Rick Azevedo, e é um grande sonho realizado para toda a sociedade brasileira e um direito dos trabalhadores que vai ser alcançado.
E aí, quando chegou o final de 2023 para o começo de 2024, surgiu a necessidade da formação de uma nova figura política, de uma nova liderança para tocar o município, que ficou descoberto por uma travesti, no caso, porque a Erika foi para Brasília. E aí ela me fez a proposta. Eu aceitei. Foi um desafio muito grande, mas que recebi com muita honra e com muita responsabilidade, por poder estar à frente desse projeto e dar continuidade ao legado tão incrível que ela construiu aqui na Câmara.
Junto com o Suplicy, ela esteve à frente da Comissão de Direitos Humanos. Foi a primeira a propor e presidir uma CPI [Comissão Parlamenar de Inquérito] para investigar a violência contra pessoas trans aqui em São Paulo. Depois veio a campanha, que foi muito intensa, foram 50 dias, mas uma campanha muito gostosa de fazer. Por mais desgastante que seja rodar São Paulo inteira, foi muito importante ver o reconhecimento e a receptividade das pessoas para uma nova liderança trans ocupar esse cargo. Aí tivemos a eleição, com esse sucesso e esses números que foram realmente muito impressionantes, mas ainda com muitos desafios.
O episódio de nomeação da Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados, no dia 11 de março, foi algo extremamente importante e simbólico. Ao mesmo tempo, essa nomeação despertou muito ódio e violência, não apenas por parte do pessoal de sempre, mas também de mulheres cisgênero. Como você avalia esse momento e essas reações?
Eu acho que a Erika foi muito corajosa e muito necessária ao pleitear esse posto. Ela já era vice-presidenta da comissão na composição do ano passado. Todo esse ódio direcionado a ela é reflexo de uma construção social que explora e capitaliza o ódio contra pessoas trans e travestis.
Quando homens ocuparam a presidência da comissão, não houve essa mobilização nem esse nível de violência. Foi um ódio que mobilizou setores da sociedade e que, inclusive, colocou novamente em risco as pessoas trans que estão na ponta. Acho que esse é um fator importante.
A Erika foi muito desrespeitada e muito violentada por ocupar esse cargo. E isso acontece apesar do trabalho que ela desenvolve. Pela avaliação dos próprios projetos apresentados por ela sobre a pauta das mulheres em Brasília, 26 propostas, ela é a deputada federal que mais apresentou iniciativas voltadas às mulheres.
Não podemos separar ou considerar menos humana e menos digna de ocupar um espaço de poder uma pessoa unicamente por sua identidade de gênero. Acredito que a parte mais tensa desse embate já tenha passado, mas o problema continua. Esse é um tema do qual os setores da extrema direita sempre tentarão tirar proveito político, justamente porque conseguem capitalizar o fato de a Erika ser uma travesti ocupando esse posto.
A estratégia é tentar deslegitimar o trabalho dela, questionar sua capacidade de conduzir os trabalhos da comissão e, em alguns casos, até impedir que ela desenvolva plenamente suas atividades à frente de uma comissão tão importante para as mulheres do país.
Por outro lado, toda essa repercussão também trouxe visibilidade para a própria comissão. Muita gente sequer sabia da existência dela e passou a conhecê-la. Talvez isso permita mobilizar mais pessoas em torno de um trabalho que a Erika sempre realizou com excelência em Brasília, independentemente da comissão em que atuou.
Tenho certeza de que ela conseguirá desenvolver um bom trabalho, apresentar pautas importantes, defender bons requerimentos e seguir lutando pela vida, pela dignidade e pelos direitos das mulheres, meninas e crianças do nosso país.
Sobre o feminismo radical, retomando a questão das feministas que se posicionam contra a presença de mulheres trans nesses espaços, eu considero isso um grande desserviço. Vimos, por exemplo, a autora de Harry Potter [J. K. Rowling] financiar, no Reino Unido, ações para impedir que pessoas trans fossem reconhecidas como mulheres.
Toda essa agenda desumaniza pessoas trans. Enquanto vemos uma população extremamente vulnerabilizada e precarizada, uma parcela do feminismo dedica sua energia a combater uma diferença dentro da pluralidade do que significa ser mulher. Ao fazer isso, acaba se aliando ao patriarcado e ao fundamentalismo, forças que nos colocam abaixo da condição de humanidade.
Quando levantam essa bandeira, acabam se somando às mesmas estruturas que fazem mulheres cis e trans enfrentarem, até hoje, realidades marcadas pela violência e pela desigualdade.
Você mencionou a importância de responsabilizar quem pratica violência política. E essa responsabilização parece ser uma estratégia que a extrema direita utiliza com frequência, acionando a Justiça constantemente. Ao mesmo tempo, muitas vezes quem sofre violência política encontra dificuldades para obter respostas das instituições. Você mesma foi alvo desse tipo de violência e buscou responsabilização. Como avalia esse cenário?
Olha, tem um dado importante: na violência política de gênero, 92% dos acusados são homens [segundo levantamento do Instituto Alziras]. Então, a gente tem um ambiente muito hostil para as mulheres na carreira política. E, na verdade, é um ambiente hostil para as mulheres em todos os espaços da sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, existe uma morosidade muito grande das instituições responsáveis por punir essas pessoas.
Foi o caso do próprio Marçal. Tudo bem que foi uma violência contra outro homem, mas ainda assim uma violência política contra um candidato. Teve também o governador Tarcísio, que divulgou uma fake news no próprio dia da eleição, dizendo que os presidiários votavam no Boulos. E a gente vê uma série de situações acontecendo sem que haja punição adequada.
Foi o que aconteceu comigo. No primeiro dia da primeira sessão plenária da Câmara Municipal, o Pavanato [Lucas Pavanato (PL/SP)] cometeu transfobia contra mim. Ele me chamou de homem durante a sessão. Eu acionei tanto o Ministério Público quanto a Corregedoria. A Corregedoria sequer admitiu o processo.
Teve ainda uma situação bastante intrigante: o relator da Corregedoria responsável pelo caso, que também é do PL, utilizou inteligência artificial para elaborar o relatório que recomendava a inadmissibilidade da minha denúncia.
Já o Ministério Público alegou que a questão não era de sua competência e que deveria ser tratada pela própria Câmara, por meio da sua instância parlamentar. Pode até ser um protocolo institucional, mas isso revela um problema muito grave.
Nós precisamos pensar em estratégias para dar mais rapidez à resolução desse tipo de violência. Mulheres — especialmente as candidatas que disputarão as próximas eleições — vão sofrer com mentiras, fake news, misoginia e violência de gênero, que são tão presentes na nossa sociedade e tão exploradas pela extrema direita.
Hoje, essas práticas acontecem sem a devida responsabilização. As punições, quando existem, são quase simbólicas. Não têm o peso que deveriam ter.
“É melhor um pássaro na mão do que dois voando” diz a sabedoria popular, o que acontece na política quando alguém tem possibilidade de conseguir mais votos se mantiver vários apoios, mesmo de partidos ou pessoas antagônicas, mas acaba sendo obrigado, pelas circunstâncias ou para evitar dores de cabeça, a optar por apenas um, correndo um risco que nenhum político gosta de correr que é o de perder a eleição.
Esse ditado foi citado esta semana por um deputado governista na Assembleia Legislativa, referindo-se ao pedido feito ao presidente Lula há 15 dias, pelo ex-prefeito João Campos (PSB) para ele estar mais presente em Pernambuco e ajudar a garantir a vitória da Frente Popular na eleição deste ano.
Até as pombas que costumam pousar no Palácio do Campo das Princesas, onde despacha a governadora Raquel Lyra (PSD), e no Palácio Capibaribe, onde despachava o próprio João Campos, sabem que o Palácio do Planalto trabalha para o presidente não aparecer em Pernambuco no primeiro turno da campanha e ampliar o seu percentual de votos junto a partidários da governadora e do ex-prefeito.
Foi o próprio Lula que, em ato falho ou não, chegou a se referir a isso em evento do PT na Bahia, no início de 2025, dando como exemplo a eleição de 2006 quando subiu nos palanques de Humberto e de Eduardo Campos, uniu os dois no segundo turno e a Frente Popular elegeu Eduardo.
Dificuldade para transferir votos
É difícil saber a esta altura se Lula vai seguir a proposta de João Campos, mas nos meios políticos a possibilidade de o presidente vir ao estado ajudar o ex-prefeito provocou discussões sobre a força que ele poderia ter para estancar o crescimento recente de Raquel Lyra, que ultrapassou João na última pesquisa da Datafolha.
Um deputado estadual veterano chegou a lembrar que, embora seja imbatível em seu estado, Lula não tem sido muito exitoso na hora de transferir votos para as pessoas que apoia.
Os exemplos são muitos, apesar de em 2022 a atual senadora Teresa Leitão ter se elegido usando o slogan “senadora de Lula” em uma chapa na qual o candidato a governador do PSB, Danilo Cabral, acabou na quarta colocação não conseguindo passar para o 2º turno.
Um dos exemplos citados é o próprio PT pernambucano, que elegeu João Paulo do PT prefeito do Recife por dois mandatos e nunca mais teve condições de vencer eleições para o Executivo.
O próprio Humberto Costa (PT), com apoio de Lula que veio à capital na época, acabou em terceiro lugar na eleição para prefeito do Recife em 2012, quando o vencedor foi Geraldo Júlio (PSD) e o segundo lugar ficou com Daniel Coelho (PSD).
Com Lula, Armando e João Paulo não venceram em 2014
Em 2014, após a morte de Eduardo Campos, Lula apoiou Armando Monteiro (Podemos) para governador e João Paulo para senador, mas os eleitos foram Paulo Câmara e Fernando Bezerra Coelho (MDB).
Em 2020, quando Marília Arraes (PDT) foi candidata pelo PT a prefeita do Recife e enfrentou João Campos, candidato do PSB, o apoio de Lula também não foi suficiente para dar a vitória a Marília, e João acabou eleito em um pleito no qual atacou, duramente, os petistas.
Em 2022 Marília se candidatou a governadora, venceu bem o primeiro turno – o candidato de Lula era Danilo Cabral – e no segundo turno Lula não só a apoiou como comandou uma enorme passeata no centro do Recife tentando ajudá-la. Mas foi Raquel Lyra que saiu vencedora.
O cientista político pernambucano Adriano Oliveira, da Cenário Inteligência e especialista em pesquisas qualitativas com atuação em todo o Nordeste, diz que os levantamentos realizados mostram que para grande parte dos eleitores a eleição para governador é avaliada a partir da realidade local e do desempenho da gestão estadual. Por isso, entende que nem o lulismo e nem o bolsonarismo podem reverter isso.
O que vale é o plano local
Para ele, independente de quem seja o candidato a presidente ou o presidente de mandato que apoie um nome para o Governo do Estado “governantes bem avaliados tendem a chegar mais fortes no processo eleitoral. Quando predomina a percepção de que o estado melhorou e o governador mantém elevados níveis de aprovação suas chances de sucesso eleitoral aumentam significativamente”.
Outro achado recorrente nas pesquisas qualitativas, explica, é a força do sentimento de “seguir em frente” e da percepção de que “o governador ainda tem tempo para fazer mais”. "Quando esses sentimentos estão presentes de forma intensa no eleitorado, a oposição encontra dificuldades para construir uma narrativa de mudança e ampliar sua competitividade eleitoral."
Eleitor direcionado para entregas
A cientista política Priscila Lapa tem o mesmo pensamento de Adriano Oliveira e adverte para uma “aposta excessiva na nacionalização do pleito que pode cegar os candidatos em relação a outras estratégias”.
No seu entendimento, "os altos índices de aprovação de Raquel Lyra já mostram que o eleitor está direcionando seu olhar para as entregas locais, para aquilo que está impactando seu bem estar imediato. Possivelmente o pleito de governador será uma comparação de performances e de capacidade de gestão no âmbito local. Claro que o pano de fundo nacional, de alguma forma, influencia nessa avaliação que o eleitor faz no âmbito local, mas não invalida os tons locais que são predominantes".
O ex-prefeito do Recife e pré-candidato ao Governo de Pernambuco, João Campos (PSB), iniciou uma maratona de agendas pelo Estado que o levará da Região Metropolitana do Recife ao Sertão em quatro dias consecutivos de compromissos políticos e institucionais.
O roteiro começou na quinta-feira (4), em Tamandaré, na Mata Sul, e segue nesta sexta-feira (5) por Jaboatão dos Guararapes, Pedra e São Bento do Una. No sábado (6), o socialista passa por Bom Conselho, Angelim, Jatobá e Petrolândia.
Já no domingo (7), a programação prevê novas agendas em Petrolândia e Floresta. Há agendas programadas para outros municípios ao longo do domingo e da segunda-feira (8), ainda a confirmar.
A sequência de compromissos reúne prefeitos aliados, lideranças políticas, representantes do setor produtivo e pré-candidatos que devem integrar o campo político do PSB na disputa estadual de 2026.
A primeira agenda desta sexta-feira ocorreu em Jaboatão dos Guararapes, segundo maior colégio eleitoral de Pernambuco. João visitou o Mercado das Mangueiras, em Prazeres, acompanhado de vereadores do município, além do pré-candidato a vice-governador Carlos Costa (Republicanos), da pré-candidata ao Senado Marília Arraes (PDT), do ex-prefeito Elias Gomes (PT) e de outras lideranças.
Durante a visita, o socialista promoveu mais uma edição do “Anota Aí!”, iniciativa de escuta popular realizada em suas agendas pelo Estado. Entre as principais demandas apresentadas por comerciantes e frequentadores do mercado estiveram reclamações sobre segurança pública, saúde e atendimento a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Ao comentar os desafios da Região Metropolitana, João defendeu uma atuação mais integrada do Governo do Estado nas políticas voltadas aos municípios da região.
Encontro com produtores da bacia leiteira
Após a passagem por Jaboatão, João seguiu para o município da Pedra, no Agreste Meridional, onde participou de encontro com produtores da bacia leiteira ao lado do prefeito Júnior Vaz (PV).
Na agenda, o pré-candidato ouviu reivindicações do setor e voltou a defender investimentos em infraestrutura para a região. Entre os temas abordados esteve a situação da PE-244, rodovia considerada estratégica para o escoamento da produção local.
Segundo João, a obra foi licitada ainda em 2022, mas não avançou nos últimos anos.
“A PE-244 foi licitada ainda em 2022. A obra poderia ter começado em janeiro de 2023, em fevereiro, em março, em abril, em 2024, em 2025. Foram feitos aditivos de prazo e encerraram o contrato sem fazer a obra. Isso é uma judiação com o povo da Pedra”, afirmou.
O socialista também defendeu uma reestruturação do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) e políticas voltadas ao fortalecimento da agricultura e da pecuária leiteira.
À noite, a programação segue em São Bento do Una, onde João receberá o título de cidadão do município em solenidade na Câmara de Vereadores.
Agendas no Agreste e Sertão
No sábado, o roteiro passa por Bom Conselho e Angelim, no Agreste, antes de seguir para o Sertão de Itaparica.
Em Jatobá e Petrolândia, João participará de compromissos políticos e encontros com lideranças locais. Um dos principais eventos previstos é o lançamento da pré-candidatura do médico Bruno Marques (PSB) à Assembleia Legislativa de Pernambuco.
Bruno é filho do prefeito de Petrolândia, Fabiano Marques (Republicanos), aliado do grupo político liderado pelo PSB no Estado.
A programação continua no domingo com novas atividades em Petrolândia e agenda prevista em Floresta.
Giro pelo Estado
A maratona de compromissos ocorre em meio à intensificação das movimentações políticas para as eleições de 2026.
Presidente nacional do PSB e principal nome da oposição à governadora Raquel Lyra (PSD), João tem ampliado sua presença em municípios do interior e participado de agendas ao lado de prefeitos, parlamentares e lideranças regionais.
O roteiro desta semana passa por diferentes regiões de Pernambuco e combina encontros políticos, visitas institucionais e agendas voltadas a setores econômicos considerados estratégicos para o desenvolvimento do Estado.
A governadora Raquel Lyra (PSD) ampliou mais uma vez sua base de prefeitos em Pernambuco ao filiar ao PSD a prefeita de Ribeirão, Carol Jordão, que estava no PSB, partido comandado nacionalmente pelo ex-prefeito do Recife e pré-candidato ao Governo de Pernambuco, João Campos.
Com isso, a gestora passa a integrar a legenda comandada pela governadora e se torna a mais recente baixa socialista no movimento de migração de prefeitos para o partido governista.
Com a chegada de Carol, o PSD se aproxima da marca de 80 prefeitos filiados em Pernambuco e reforça sua presença na Mata Sul, região considerada estratégica na disputa eleitoral de 2026. A movimentação também amplia a vantagem da legenda na corrida pela formação de uma ampla base municipal para a próxima eleição estadual.
A filiação foi celebrada pela governadora, que destacou o fortalecimento do partido no interior do Estado.
“Mais um nome consolidado que trabalha em favor de pernambucanos chega ao nosso PSD. Estamos construindo um partido em que todos cuidam das suas regiões e do Estado com muita dedicação, diálogo e transparência. Carol recebe nossas boas-vindas, acreditando no time que faz a diferença”, afirmou Raquel Lyra.
Confira o mapa dos prefeitos de Pernambuco e seus respectivos apoios abaixo:
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Nova baixa do PSB
A adesão de Carol Jordão não ocorre de forma isolada. Desde o início da gestão Raquel Lyra, o PSD vem incorporando prefeitos que integravam os quadros do PSB, em um movimento que tem impacto direto na correlação de forças entre os grupos da governadora e de João Campos.
Antes da prefeita de Ribeirão, já haviam deixado o PSB para ingressar no PSD os prefeitos Zé Martins (João Alfredo), Nego do Mercado (Capoeiras), Gilberto Ribeiro (Flores), Corrinha de Geomarco (Dormentes), Camila Souza (Iati), Lindonaldo da Farinha (Frei Miguelinho), Juarez da Banana (Machados) e Dr. Evaldo Bezerra (Mirandiba).
Com a filiação de Carol Jordão, chega a nove o número de gestores municipais que trocaram o PSB pela legenda comandada por Raquel Lyra.
Disputa por bases para 2026
A movimentação ocorre em meio à crescente disputa entre a governadora e João Campos pela consolidação de apoios no interior do Estado. Prefeitos são considerados peças centrais na construção dos palanques eleitorais, especialmente em municípios de médio e pequeno porte, onde exercem forte influência política.
Nos últimos meses, o PSD consolidou-se como a principal legenda municipalista de Pernambuco, reunindo prefeitos distribuídos em todas as regiões do Estado. A estratégia tem sido apontada por aliados da governadora como um dos pilares da construção política para a disputa de 2026.
A chegada de Carol Jordão amplia essa presença na Mata Sul e reforça o avanço do PSD sobre bases que historicamente estiveram alinhadas ao PSB.
Prefeita de Ribeirão desde 2021, Carol passa agora a integrar formalmente o partido da governadora, em mais um capítulo da disputa entre os dois principais grupos políticos que se movimentam para a sucessão estadual.
A equipe de pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL) divulgou nesta sexta-feira (5) uma nova peça de comunicação voltada à disputa presidencial de 2026. O material traz a música “Vem com Fé”, apresentada como um dos elementos da estratégia para ampliar a identificação do eleitorado com o parlamentar.
Produzido em ritmo sertanejo, o vídeo reúne imagens de Flávio participando de eventos públicos, encontros com apoiadores e momentos descontraídos, incluindo registros em que aparece dançando. A letra da música aposta em mensagens de esperança e recuperação do país.
Além de destacar a trajetória do senador, o conteúdo também recupera cenas do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. O vídeo exibe imagens de manifestações de apoiadores, eventos políticos e momentos da família Bolsonaro reunida.
Estratégia mira fortalecimento da imagem junto ao eleitorado
O jingle foi desenvolvido pelo marqueteiro Alexandre Oltramari e pelo publicitário Rafael Rizzo, com consultoria de Eduardo Fischer, que atua na área estratégica da pré-campanha. A avaliação da equipe é de que a linguagem musical e os elementos visuais utilizados no vídeo podem ampliar o alcance da mensagem entre apoiadores do campo conservador.
A divulgação ocorre em um momento de movimentação dos possíveis candidatos à corrida presidencial de 2026, mesmo com o calendário eleitoral ainda distante. Nos bastidores, partidos e lideranças políticas já começam a intensificar ações voltadas ao fortalecimento de suas imagens públicas.
Pesquisa aponta Lula à frente em cenário de primeiro turno
Também nesta sexta-feira (5), uma pesquisa do instituto Vox Brasil apresentou um cenário de intenções de voto para a eleição presidencial. De acordo com o levantamento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece na liderança com 42,1% das intenções de voto em um eventual primeiro turno contra Flávio Bolsonaro, que registra 33,6%.
Os números indicam crescimento do petista em relação ao levantamento anterior realizado em maio. Na comparação entre as pesquisas, Lula passou de 34,3% para 42,1%, avanço de 7,8 pontos percentuais.
Já Flávio Bolsonaro apresentou oscilação negativa no período analisado. Segundo o instituto, o senador saiu de 36,5% para 33,6%, uma queda de 2,9 pontos percentuais.
As tarifas de importação impostas nesta semana pelo governo dos Estados Unidos a produtos brasileiros são medidas oportunistas e que visam retomar a América Latina como zona direta de influência. O diagnóstico feito pelo professor de Relações Internacionais da PUC-SP Tomaz Paoliello também abarca as eleições legislativas nos EUA neste ano e a pressão de grandes empresas de tecnologia (Big Techs) para operar sem regulamentação no Brasil.
“Qualquer uma dessas coisas, seja o PIX ou o mercado de etanol, são oportunistas. Quer dizer, elas podem ser usadas ou não – nada disso é novo”, afirma Paoliello, que indica como melhor estratégia diplomática a negociação e a atuação dos empresários envolvidos diretamente. Essa foi a estratégia adotada em 2025, quando o governo de Donald Trump impôs uma tarifa de 50% a diversos produtos brasileiros.
No entanto, diferentemente do que ocorreu com as tarifas impostas no último ano e que foram derrubadas pela Suprema Corte Americana, as decisões atuais estão embasadas na Lei de Comércio de 1974 dos EUA e, mais especificamente na Seção 301, que permite retaliação a países cujas políticas sejam consideradas “desleais” a seus interesses. Ou seja, são decisões com respaldo jurídico e mais difíceis de serem anuladas.
O cenário político criado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é característico de sua estratégia de negociação: criar um contexto que lhe forneça ampla vantagem de barganha, como tem feito nos últimos anos. “Eles têm, até que as tarifas entrem em vigor (em 15 de julho), uma expectativa de que o Brasil faça acenos, que o governo brasileiro ofereça determinadas medidas que seriam favoráveis aos Estados Unidos para que o Trump venda essa imagem de bom negociador”, analisa Paoliello.
Por fim, o pesquisador alerta sobre o poder político e econômico que os Estados Unidos ainda possuem, mesmo diante da ascensão de um outra potência que é a China. “No equilíbrio de forças a nível global, a ascensão da China coloca essa imagem da decadência relativa dos Estados Unidos no jogo de potências. Em termos dos meios de poder que os Estados Unidos têm, [entretanto, eles] são muito poderosos. Ainda é incomparável”, avalia o professor.
Para Tomaz Paoliello as “tragédias humanitárias” em curso no mundo e as guerras por disputa de zonas de influência devem seguir ocorrendo. “A gente precisa ficar de olho no que os Estados Unidos estão pretendendo fazer em Cuba e o que estão pretendendo fazer em termos de eleições na América do Sul. Os Estados Unidos ‘colocaram as asas de fora’ no governo Trump – e a gente vê o alcance que têm de poder”.
Confira os melhores momento da entrevista:
Professor Tomaz Paoliello acredita que tarifas serão usadas como ‘barganha’ pelo presidente dos EUA, Donald Trump
Em poucos dias, os EUA classificaram facções criminosas brasileiras como terroristas, impuseram tarifa de 25% sobre o Brasil alegando práticas comerciais desleais, especialmente em relação ao Pix, afirmaram (Marco Rubio, secretário de Estado) que o Brasil não é um país aliado e, hoje, propuseram tarifa extra de 12,5% devido a suposto trabalho forçado no Brasil. Do ponto de vista das Relações Internacionais, o que significam essas ações?
Acredito que o principal objetivo seja retomar a América Latina como uma esfera de influência dos EUA. Então isso tem sido jogado em cima do Brasil. Tem um contexto específico da Casa Branca, do governo dos EUA, de voltar suas atenções para a América Latina. Isso já vinha acontecendo há algum tempo, é uma marca do segundo governo Trump e, neste momento, [se voltou] para o nosso país.
Tem a ver com as eleições aqui e tem a ver com as eleições lá, mas em termos de relações internacionais, tem uma determinação desse atual governo dos Estados Unidos de transformar ou retomar essa região como esfera de influência dos Estados Unidos, com maior ascendência política.
Assim, conseguiriam influenciar de maneira mais assertiva, com menos interferência de outros países e outras potências, a política da América Latina. É uma tentativa dos Estados Unidos de amarrar, atrelar o Brasil à esfera de influência deles, forçando a mão para que o Brasil tome uma série de decisões que são favoráveis aos Estados Unidos.
Você vê uma tentativa de interferência nas eleições brasileiras?
Sim, não só as eleições. Eu acho que as eleições são um ponto nessa trajetória, mas [dentro] desse conjunto de medidas. Para mim, não está claro como isso impacta as eleições brasileiras. O Flávio Bolsonaro, por exemplo, deu uma declaração falando que é contra as tarifas, que vai pedir à Casa Branca que as retire. Então, acho que ele próprio também teme as consequências negativas deste tarifaço para sua candidatura.
Visita de Flávio Bolsonaro ao presidente Donald Trump em maio deste ano
Acho que está muito claro que os Bolsonaro estão muito atrelados ao Trump. Sobre isso não temos dúvida, mas acho que é uma interferência que vai para além das eleições. Então, não está pressionando sobre o que vai acontecer no Brasil no futuro, está pressionando sobre o que acontece no Brasil hoje, no atual governo Lula, antes até de ter uma mudança de governo. É um conjunto de interferências que inclui as eleições, claro, mas que faz parte de um movimento mais amplo.
Tem uma outra eleição que, para eles, é muito mais importante, que é a eleição nos Estados Unidos neste ano. A eleição de um Congresso que pode “terminar” com o governo Trump, entre aspas. Quer dizer: ele vai ter muito mais dificuldade de governar. Então também dá para a gente interpretar o que está sendo feito agora, que é esse governo aproveitando enquanto eles ainda têm maioria congressual para “passar a boiada” deles. Eles vão fazer muita coisa ainda este ano para tentar influenciar nas eleições.
Quais estratégias diplomáticas poderiam ser adotadas neste contexto?
Negociar! Esse é um dos pontos importantes dessas medidas. A gente tende a enxergar, a partir das declarações do [Secretário de Estado dos EUA, Marco] Rubio, que seria um tipo de medida muito focada em aspectos ideológicos. Ele deu uma declaração esses dias falando que o Brasil não é alinhado aos Estados Unidos – e não é mesmo! -, mas que seria alinhado à Venezuela, Cuba, Nicarágua, o que também não é o caso. Ele tende a identificar – e esse é um tipo de visão muito comum em Washington – a região da América Latina dividida entre governos de esquerda e governos de direita. Os governos de direita pró-Estados Unidos, e governos de esquerda anti-Estados Unidos. É uma visão muito esquemática da região, que entende pouco do que se passa por aqui.
Tem um outro aspecto desse governo que é menos ideológico, que é muito pragmático. A gente já sabe que uma das estratégias do Trump é, como se fala, “colocar o bode na sala”, colocar um grande incômodo nas relações bilaterais com determinados países para depois vender uma solução. Faz uma estripulia qualquer, pode ser um ataque, pode ser o sequestro de um presidente, como na Venezuela, e depois vende um processo de negociação, um acordo de paz, ou o que quer que seja, como se ele tivesse feito um grande passe de mágica diplomático.
O que significa que eles têm, até que as tarifas entrem em vigor, uma expectativa de que o Brasil faça acenos, que o governo brasileiro ofereça determinadas medidas que seriam favoráveis aos Estados Unidos para que o Trump venda essa imagem de bom negociador. Não sei o que [mais] pode ser. O Lula já esteve na Casa Branca, então o governo brasileiro já está atuando junto ao governo dos Estados Unidos. As medidas a gente já, mais ou menos, sabe o que tem sido discutido: cooperação para combate ao crime organizado, acesso à exploração de terras raras no Brasil. Tem alguns pontos que os Estados Unidos poderiam vender, digamos assim, como benéficos a eles e que, eventualmente, podem servir de instrumentos de barganha em um momento como esse.
Trump busca um pretexto para que consiga adotar novamente tarifas protecionistas a países estrangeiros para fugir da decisão da Suprema Corte, que anulou as tarifas impostas no ano passado. Agora elas são baseadas na Lei de Comércio, de 1974. Existe alguma legitimidade em relação às acusações, mesmo em relação ao PIX ou trabalho forçado? Ou é uma estratégia de negociação?
Acho que várias das coisas que são alegadas não dá para dizer que sejam mentiras. Algumas delas são baseadas em informações incorretas. Agora, eu tendo a enxergar sempre que as questões jurídicas, mais técnicas, estão submetidas sempre a questões políticas. Quem toma a decisão é a política, e não o direito ou os técnicos. O que quer dizer que qualquer uma dessas coisas que a gente está falando aqui, seja o PIX, seja o mercado de etanol, são oportunistas, quer dizer, elas podem ser usadas ou não – nada disso é novo!
A questão, por exemplo, que os Estados Unidos alegam que o Brasil protege seu mercado de etanol para não importar mais para os Estados Unidos, é super antiga, não é deste governo. Agora ela foi reempacotada dentro dessa nova medida, mas já é uma queixa antiga.
Outra questão importante é a das empresas de tecnologia, que estão tendo que cumprir decisões judiciais aqui no Brasil, as big techs. Tem uma questão que é muito oportunista, de fato. Essas empresas estão do lado do governo dos Estados Unidos, a gente sabe que pressionam o governo a tomar decisões que as auxiliem em sua inserção internacional. Principalmente, porque tem determinados mercados que têm, cada vez mais, aprovado regulações na tentativa de colocar algum controle sobre a atuação dessas empresas. Na Europa é mais notável, mas o Brasil também tem tomado algumas medidas nesse sentido.
É mentira que tenham ações judiciais e que o Supremo Tribunal Federal (STF) tenha colocado imposições às Big Techs? Não, é verdade. Agora, essa verdade é usada sempre a partir de uma lógica da política. Pode ser de negociação, como eu falei, pode ser de interferência mais direta, de pressão também, não descarto esse aspecto.
O governo dos Estados Unidos está forçando a mão, pressionando o Brasil, por exemplo, a deixar as big techs trabalharem de maneira mais livre aqui, com menos regulação. Isso pode ser só usado como barganha, mas acho que também pode ser usado, ou pode ser lido, como um objetivo em si, e as outras eu acredito que são a mesma coisa.
É bem típico de Donald Trump criar um cenário que lhe seja muito mais favorável para negociar, o que tem feito ao longo dos últimos anos. Você acha que tem alguma possibilidade concreta de passar disso e de ser implementada uma tarifa que prejudique as empresas brasileiras? Qual seria o impacto disso, caso venha realmente acontecer na decisão final de 15 de julho?
Acho que tem uma chance real, sim. O governo brasileiro vai negociar até lá, mas tem sim, uma chance, como da outra vez, de que o tarifaço entre em vigor, agora muito mais respaldado juridicamente, como você lembrou. Da outra vez, o tarifaço do Trump foi vencido na justiça americana.
Agora eles fizeram de uma maneira que está mais justificada. Eu leio como o governo dos EUA se protegendo da Suprema Corte para que esse novo tarifaço não seja tão facilmente desmontado ou visto como ilegal, como foi da outra vez.
Tem sido bem típico do Trump, sim, mas é isso: ele vai aprendendo também. [Ele] fez de maneira mais [como uma] investida no ano passado, agora ele faz de maneira mais consistente. Então, não duvido que isso entre em vigor. Depois tem uma série de outras pressões que podem fazer diferença. A intermediação de empresários, como foi da outra vez, tanto empresários brasileiros que têm negócios nos EUA, quanto empresários americanos que têm negócios aqui no Brasil, ativem suas redes de contatos, façam conversas de bastidores, para tentar, depois, desmontar isso.
O Brasil também já está mais experiente. E a gente tem uma certa dependência dos EUA, mas relativamente muito menor do que vários outros países da América Latina ou mesmo da Europa, que são muito mais dependentes dos EUA economicamente e comercialmente. A tendência é uma estratégia paralela de tentar abrir novos mercados. O acordo do Mercosul com a União Europeia, por exemplo, só pode ser explicado a partir da pressão comercial que o Trump está fazendo, tanto sobre os países da América do Sul, quanto sobre a União Europeia. Talvez o maior “advogado” do acordo com a União Europeia, neste momento, tenha sido o Donald Trump, que jogou o Brasil em direção à Europa e jogou a Europa em direção ao Brasil. E vai jogar o Brasil em direção a outros sócios também. O Brasil vai ter que ir atrás de achar outros parceiros comerciais para compensar, ou para garantir uma menor dependência dos Estados Unidos.
E principalmente em relação à China também, que é um novo mercado a ser explorado.
Claro. A China é a outra potência. Os Estados Unidos ao mesmo tempo tentam amarrar a América Latina aos seus interesses, transformar a América Latina novamente nessa esfera de influência mais direta. A contrapartida é, para os países que querem de alguma maneira se proteger dessa influência, só tem uma outra alternativa, que é se aproximar da China. Então, uma consequência quase lógica desse tipo de ação do Trump é aproximar vários países que eram antigos parceiros dos Estados Unidos, em parceiros da China.
Agora, a China também tem limites do que pode oferecer. Por exemplo, tem um aspecto que é pouco falado da relação Brasil-EUA. A maior origem de investimentos no Brasil – não estou falando de comércio, mas de fluxos financeiros – vem dos Estados Unidos. A China tem crescido um pouco, mas não é um grande investidor no Brasil. Isso poderia, por exemplo, trazer uma grande mudança de placas tectônicas, caso a origem do investimento externo no Brasil mudasse dos Estados Unidos em direção à China.
É errado pensar nos EUA como um grande império em decadência?
Eu não sou dos que costumam ver os EUA como uma potência em decadência. A gente está vendo exatamente a força dos Estados Unidos, um momento do governo americano que tem menos pudor em usar a força, seja em direção aos países da América Latina, seja o que a gente viu no Oriente Médio. A gente tem visto, na verdade, evidências dessa potência americana.
Relativamente, é claro que está em decadência porque tem a ascensão de uma outra potência. No equilíbrio de forças a nível global, a ascensão da China coloca essa imagem da decadência relativa dos Estados Unidos no jogo de potências. Em termos dos meios de poder que os Estados Unidos têm, [entretanto, eles] são muito poderosos. Ainda é incomparável. A gente viu o que aconteceu no Oriente Médio: Israel, em um espaço curto de alguns anos, venceu todos os seus rivais regionais. Detonou o Hezbollah, o Hamas, acabou com o Irã, tudo a partir de apoio dos Estados Unidos. Isso é o poder dos Estados Unidos de moldar uma região, refazer as relações em um determinado lugar do mundo. É muita potência destrutiva neste caso, uma tragédia humanitária, mas que demonstra muito poder.
Então eu acho que agora, para a nossa região, a gente precisa ficar de olho. O que os Estados Unidos estão pretendendo fazer em Cuba, o que estão pretendendo fazer em termos das eleições na América do Sul, onde eles têm menos alcance do ponto de vista da influência direta. São todas coisas para a gente ficar de olho porque os Estados Unidos “colocaram as asas de fora” no governo Trump – e a gente vê o alcance que eles têm de poder.
Podemos dizer que o principal interesse norte-americano no Brasil seriam as terras raras e os minerais para fazer a transição energética, que é um mercado dominado pela China? Neste contexto, principalmente caso a direita não vença as eleições, haveria algum risco de alguma intervenção direta no Brasil ou isso ainda está distante?
Eu acho que não. Os Estados Unidos não têm uma tradição de fazer intervenções diretas na América do Sul, como a gente viu, recentemente, na Venezuela. Acho que Venezuela e Colômbia talvez sejam a exceção, que são países mais caribenhos, mais ligados ao sistema de poder americano do que os [outros] países sul-americanos. Claro que geograficamente são sul-americanos, mas compuseram mais esse sistema de estados caribenhos. Agora, Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, claro que os Estados Unidos têm muita ascendência, participaram de eventos políticos aqui, mas, raramente, senão nunca de maneira direta, com intervenções diretas, desembarque de tropas. Não acredito que isso seja o caso, pelo menos, para o que está no momento.
O Brasil também é um país poderoso, a gente às vezes menospreza a [nossa] capacidade, mas fazer uma intervenção no Brasil não é qualquer coisa. A questão das terras raras é uma questão importante! A gente pensa que se a direita vencer a eleição, principalmente o candidato viável da direita sendo o Flávio Bolsonaro, não tenho dúvida que ele vai fazer um aceno neste sentido para os Estados Unidos.
Mas o governo Lula também não tem se colocado de maneira muito contrária à comercialização dessas terras raras para os Estados Unidos, não se opõe a isso. O Brasil não tem hoje um plano estratégico para exploração e comércio de terras raras. O Brasil vê as terras raras como um patrimônio mineral, como vários outros que a gente tem, um recurso natural. E hoje não tem impedimento de que uma empresa americana explore e comercialize as terras raras no Brasil. O governo do Brasil vê mais royalties do que estratégias.
De maneira mais ampla, para encerrar, o momento geopolítico global é delicado: há guerra na Ucrânia, uma postura agressiva dos EUA, há o genocídio na Palestina. Como enxerga esse momento global? Vê alguma possibilidade de uma guerra em maior escala?
O que a gente tem visto é o que deve continuar acontecendo. A gente viu uma profusão de guerras que não são pequenas. A guerra da Ucrânia, em uma trajetória mais longa, uma guerra que vai ser lembrada e estudada por muito tempo. O genocídio em Gaza vai também ser lembrado para sempre, uma tragédia humanitária muito documentada, que gerou muita comoção, mesmo fora da região. O bombardeio atual do Irã, com o bloqueio do Estreito de Ormuz, quer dizer: são todas guerras já muito importantes com impactos globais.
Uma guerra entre potências, a gente não vai ver, isso continua tão improvável quanto foi na época da Guerra Fria. As potências são potências nucleares. Uma guerra entre Estados Unidos e China, Estados Unidos e Rússia, acho muito pouco provável. Agora, essas outras guerras, de disputas por áreas de influência, a gente vai continuar vendo acontecer, acredito eu.
Por exemplo: a gente tem um risco relativamente grande de algum evento, inclusive militar, em Cuba. Seria uma tragédia para a nossa região e para o mundo, mas, principalmente, para os cubanos. Há uma chance de acontecer, não posso dizer que vai acontecer, mas eu vejo que, pelo menos num período próximo, a gente vai continuar vendo a eclosão de conflitos. Tentativas de interferência em assuntos internos de países, a política de potências de maneira mais explícita, que já tem consequências trágicas. A gente já está vendo isso.
Já nem precisamos esperar uma guerra mundial, como a gente fala, para ver a tragédia do momento, dessa disputa de potências que a gente está vivendo agora, principalmente a partir da atuação dos Estados Unidos e, em menor medida, da Rússia. A China age de maneira diferente nesse aspecto, mas sobre a China a gente precisaria falar em uma outra entrevista!