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O céu ainda sorri para Lídia Jorge

9 June 2026 at 02:00

A 18 de Junho de 1946, em Boliqueime, «o céu sorriu». Não porque «os anjos cantaram», mas porque, «de vez em quando, nasce alguém» capaz de recordar o que muitas vezes a humanidade esquece: «a sua própria humanidade». Esse alguém tem nome próprio: Lídia Jorge, a mesma que, quase 80 anos depois, a 8 de Junho de 2026, voltou a fazer o céu sorrir. Agora com uma Medalha de Mérito Cultural ao peito.

Na vida, há quem herde «propriedades», quem herde «apelidos» e outros há que herdam «uma coisa mais rara: o conhecimento profundo da condição humana».

É aqui que se insere Lídia Jorge, escritora multipremiada, algarvia de coração e de convicção, alguém que «nunca escreveu para conquistar o mundo».

Antes, «para o compreender», nas palavras de Dino d’Santiago, também cantor multipremiado, também algarvio de coração e de convicção – e, circunstancialmente, “padrinho” da atribuição da Medalha de Mérito Cultural a Lídia Jorge.

Aconteceu ontem, 8 de Junho, em Loulé, perante uma plateia lotada – Lídia haveria de confessar, com a sua íntriseca bondade, que estava entre amigos. De tal forma que quase «podia enunciar o nome de cada um dos rostos».

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Eles eram imensos: Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto (“culpada” desta homenagem à escritora algarvia), Telmo Pinto, presidente da Câmara de Loulé, Vítor Aleixo, ex-presidente da Câmara de Loulé, Carlos Albino, companheiro de décadas de Lídia, responsáveis autárquicos, gente ligada à cultura.

E Dino d’Santiago, a quem coube um género de laudatio à escritora que lhe ensinou que o dia 18 de Junho nunca mais terá o mesmo significado.

«Deixou de ser uma data para ser um lugar: onde a literatura, a esperança e as memórias resistem. E onde uma mulher de Boliqueime continua a lembrar-nos de que escrever não é só o ato de organizar as palavras», disse.

Nas suas obras – elas são tantas, desde o inicial “Dia dos Prodígios” (e já lá vamos) -, julgamos estar a olhar para «personagens» para, de forma súbita, entender que «estamos a olhar para nós próprios».

Talvez seja essa a magia da literatura. «Compreender é um dos gestos mais revolucionários que o ser humano pode realizar. Num tempo em que tantos escolhem o ruído, ela escolheu escutar. Talvez seja por isso que a sua obra permanece. Porque não nasceu da ideologia, mas da compaixão», disse, antes do abraço final à escritora, que o escutou comovida.

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Assim se manteve também quando Margarida Balseiro Lopes lhe agradeceu – num registo mais pessoal – a «simplicidade, a simpatia, a generosidade, a humanidade e a humildade». Todas «absolutamente desconcertantes».

A escritora, considerou a ministra, já num tom mais institucional, construiu «um percurso singular, com uma obra que atravessa grandes géneros e formas de escrita». Mas que nunca se desligou da «memória, da condição humana» e da «forma como olhamos o país e o mundo que nos rodeia».

O seu percurso começou «aqui, no Algarve», que sempre se manteve «na paisagem da sua escrita». O tal “Dia dos Prodígios” [e lá voltaremos a ir] foi «uma das obras mais marcantes da literatura portuguesa no pós-25 de Abril».

«Tratou-se de uma obra que abriu novas possibilidades à narrativa portuguesa contemporânea, construindo uma leitura profundamente original do país, da transformação social e da realidade portuguesa saída da ditadura», disse.

Outras se seguiram, como “Costa dos Murmúrios” ou a mais recente “Misericórdia”, mas a própria Lídia Jorge mantém com o primeiro livro que publicou uma relação que não escondeu, no seu discurso.

Já de medalha ao peito, depois de longos agradecimentos, a escritora confessou a «surpresa» de que se revestiu a publicação da sua primeira obra.

Com «palavras típicas de um lugarejo perdido no barrocal algarvio», essa história tinha tudo para ser um «livro completamente fora de moda». Tornou-se num clássico da literatura portuguesa contemporânea.

«Escrevi-o a seguir à Revolução, convicta de que a sociedade portuguesa se ia modernizar de um momento para o outro. E eu, sem qualquer tipo de saudosismo, desejava que não fosse esquecido o Portugal primitivo que a maior parte de nós, na altura, tinha conhecido», confessou.

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Para que a memória não se perdesse – ela que é um dos elementos primordiais na escrita de Lídia, uma escritora hoje atormentada com os desafios das novas tecnologias, que foram o mote para uma reflexão durante a tarde, em Tavira, também com a ministra da Cultura.

Há a inteligência artificial, uma «incógnita à qual ainda não sabemos dar verdadeiramente os adjetivos», mas também uma certeza bem vincada pela autora algarvia.

«A literatura e a poética representam o lugar último de resistência à robotização do pensamento, à artificialidade, à despersonalização. Nenhuma máquina poderá rivalizar com a capacidade criativa que nós, os seres humanos, temos», vincou.

Tudo isto foi dito, vivido e contado, em Loulé, no Algarve, na terra dela, na «primeira pátria» de uma escritora que continua a fazer o céu sorrir.

Fotos: Pedro Lemos | Sul Informação

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Meio milhão de euros para apoiar projetos que cruzem tecnologia e cultura

8 June 2026 at 17:24
Balseiro Lopes

O Fundo de Fomento Cultural vai atribuir 500 mil euros a projetos que cruzem Cultura e Tecnologia, no âmbito de um programa de apoio que será lançado este mês pelo Governo, anunciou esta segunda-feira a ministra da Cultura.

“Gostaria de anunciar que o Governo vai lançar, no próximo dia 15 de junho e através do Fundo de Fomento Cultural, um Programa de apoio a projetos de cruzamento entre a Cultura e a Tecnologia – com uma dotação de 500 mil euros”, afirmou hoje a ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, no MuseuZero, em Santa Catarina da Fonte do Bispo, Tavira, na sessão de abertura do 4.º Fórum Cultura, a decorrer no Algarve.

De acordo com a governante, o novo programa de apoio destina-se “a apoiar projetos que utilizem ferramentas tecnológicas para promover o acesso à Cultura, reforçar a mediação cultural, valorizar o património, criar novas experiências culturais, e aproximar diferentes públicos da criação artística”.

“Acima de tudo, aquilo que se pretende é criar condições para que instituições, estruturas, artistas e agentes culturais possam continuar a experimentar, inovar e desenvolver projetos que explorem novas possibilidades”, disse.

Na mesma ocasião, Margarida Balseiro Lopes anunciou que o novo portal 360, que reúne bens culturais de museus, monumentos, palácios e sítios arqueológicos portugueses, estará disponível a partir de 01 de julho.

Atualmente, os bens culturais digitalizados no âmbito do projeto “Património Cultural 360”, que permite disponibilizar de forma universal e gratuita o Património Cultural, já podem ser acedidos através do arquivo ‘online’ do Património Cultural, I.P..

Os bens culturais digitalizados foram previamente escolhidos pelos diretores de museus, monumentos, palácios e sítios arqueológicos e entre eles estão os bens classificados como “tesouro nacional” e bens de várias escalas, tipologias e materiais, como uma pequena peça de ourivesaria, uma peça de vestuário, uma pintura, uma fotografia ou uma escultura de várias toneladas.

Além dos bens culturais, através dos mesmos ‘links’ é possível aceder-se a visitais virtuais, a edifícios, como museus, mosteiros, à Sé de Lisboa e ao Panteão Nacional, a sítios arqueológicos tutelados e a documentários.

No âmbito do projeto foram concretizadas 67 visitas virtuais e 13 documentários.

A ministra da Cultura, Juventude e Desporto salientou que o novo portal permite “um acesso mais integrado e centralizado ao património cultural”.

No inicio de abril já eram mais de 61 mil os bens culturais de museus, monumentos, palácios e sítios arqueológicos portugueses digitalizados e disponíveis ‘online’ para poderem ser vistos por qualquer pessoa em qualquer ponto do mundo.

O “Património Cultural 360”, concluído em 31 de março deste ano, foi financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com cerca de 14,4 milhões de euros, aos quais se juntaram 250 mil euros, do Património Cultural, I.P.

A execução do projeto iniciou-se em abril de 2024, sob responsabilidade do Património Cultural I.P., contou com mais de 20 entidades parceiras, entre organismos públicos, autarquias, fundações e arquivos, e envolveu mais de 50 especialistas de áreas como informática, conservação e restauro, modelação e design gráfico e fotografia, bem como investigadores e equipas de 65 museus, monumentos, palácios e sítios arqueológicos.

Embora o projeto “Património Cultural 360” tenha sido dado como concluído em abril, a digitalização de bens não terminou.

Atualmente estão abrangidos 83 imóveis, entre museus, monumentos e palácios, de 36 concelhos e 15 distritos, mas o coordenador do projeto, Luís Sebastian, quer que os números aumentem. Para o concretizar diz que seriam precisos mais 15 milhões de euros, “um sonho”, reconheceu, em declarações à Lusa em abril, na Sessão Pública de Encerramento do projeto.

O 4.º Fórum Cultura, organizado pelo Ministério da Cultura, da Juventude e do Desporto, que decorre hoje e na terça-feira em Loulé, Tavira e Faro, é dedicado a dois temas: Tecnologia e Música.

O Fórum Cultura, promovido pela tutela, pretende promover uma “reflexão coletiva, construtiva e agregadora” do setor, contando com a participação de profissionais de várias áreas do setor cultural.

A primeira edição aconteceu em outubro do ano passado em Lisboa. A segunda edição decorreu em janeiro deste ano no Porto e a terceira em abril em Ponta Delgada.

A jornada de hoje do 4.º Fórum Cultura encerra em Loulé, com a entrega da Medalha de Mérito Cultural à escritora Lídia Jorge, numa sessão que conta Margarida Balseiro Lopes e as participações do artista Dino D’Santiago e de um quinteto de sopros do Conservatório de Música de Loulé.

Para a ministra da Cultura, “esta é a oportunidade de reconhecer uma das grandes intérpretes do Portugal contemporâneo, com uma obra que reflete, de forma sensível e profunda, as transformações sociais das últimas décadas”, numa referência à autora de “Os Memoráveis” e “Misericórdia”.

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