Move Brasil Motos: No País onde o trânsito mata 34 mil por ano, governo federal lança financiamento para aquisição de motocicletas por motoapps
No País onde o trânsito mata 34 mil pessoas por ano e mutila outras centenas - 50%, em média, sendo ocupantes de motocicletas (condutores e passageiros) -, o governo federal lançou uma nova linha de financiamento para a aquisição de motos por entregadores e motoqueiros que fazem o transporte remunerado de passageiros - os motoapps, como Uber e 99 Moto.
A nova versão do Move Brasil, agora chamado Move Brasil - Entregadores e Motoapp, foi lançada nesta sexta-feira (12/6) em uma grande cerimônia pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Serão R$ 4 bilhões em linhas de financiamento. Para acessar o benefício, os profissionais terão que ter o nome limpo - antes de mais nada - e estar cadastrados em plataformas de aplicativo há pelo menos seis meses, conseguindo comprovar a realização de no mínimo 100 entregas ou corridas.
O programa também beneficiará trabalhadores com carteira assinada há pelo menos seis meses na mesma empresa, desde que possuam CNH categoria “A” (moto) e, por sorte, a aquisição de bicicletas. A exigência de experiência mínima tenta filtrar os beneficiários, mas não anula o fato de que a pressão por produtividade inerente ao setor.
A visão do governo federal e do próprio presidente Lula, entretanto, passa longe das consequências do estímulo à aquisição de de motos para a segurança viária e a saúde pública - colapsada com as vítimas das duas rodas em todo o País. “Nós estamos tirando mais um pouco de gente da invisibilidade. Ontem foram as mulheres negras, hoje são os motoqueiros e ciclistas deste País. E eu espero que amanhã não tenha ninguém mais invisível no Brasil porque nós vamos tratar o povo com decência e com respeito”, declarou o presidente durante a cerimônia.
Como esperado, as regras de financiamento são atraentes, com prazos de até 48 meses e carência de dois meses para o início do pagamento. Com taxas de juros diferenciadas por gênero — 12,5% ao ano para homens e 11,5% para mulheres —, o programa permite a compra de motos flex de até 160 cilindradas ou modelos elétricos produzidos no Brasil.

Outro ponto que chama atenção é que, embora inclua o financiamento de seguro prestamista para proteger o trabalhador em caso de imprevistos graves, o programa foca no acesso ao bem, sem apresentar contrapartidas robustas de treinamento ou proteção social direta contra os riscos cotidianos das ruas.
INCLUSÃO SOCIAL INEGÁVEL, MAS COM CONTA ALTA PARA A SEGURANÇA VIÁRIA E A SAÚDE

Apesar da inclusão social inegável e de ser focado em veículos flexs e elétricos, o novo programa federal ignora o avanço alarmante da mortalidade sobre duas rodas revelado pelo Atlas da Violência 2026, com um custo humano alto para a saúde pública e a mobilidade urbana.
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Enquanto o governo facilita o crédito, o Atlas da Violência 2026 apresenta um cenário desolador: as motocicletas já respondem por mais de 40% das mortes no trânsito na maioria dos estados brasileiros.
O estudo, divulgado em maio, aponta diretamente para a precarização do trabalho e para a expansão descontrolada de aplicativos como Uber Moto e 99 Moto como os principais impulsionadores desse crescimento letal.
Os números não deixam margem para dúvidas sobre a gravidade da crise: entre 2019 e 2024, as mortes envolvendo motocicletas saltaram de 11.182 para 15.459, um aumento expressivo de 38%. Trata-se de uma mudança estrutural profunda, considerando que, no início dos anos 2000, a participação das motos na mortalidade viária era inferior a 5%.
Somente entre 2023 e 2024, houve um acréscimo de quase duas mil mortes adicionais, consolidando este modal como o de maior risco absoluto no território nacional.
A crise é ainda mais acentuada nas regiões Norte e Nordeste, onde a falta de alternativas de mobilidade segura e a fiscalização precária tornam a moto a única opção.
No Piauí, por exemplo, impressionantes 72,7% das fatalidades no trânsito envolvem ocupantes de motocicletas, seguidos de perto por Pernambuco, com 59%.


© JAILTON JR./JC IMAGEM
