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Received — 1 June 2026 Jornal O DIABO

O vício de virar costas

12 May 2026 at 16:04

Há gestos que dispensam discurso. Virar costas é um deles — curto, seco, quase elegante na forma, mas brutal no conteúdo. É o equivalente corporal de dizer “não me interessa”, “não respondo”,” não assumo”, “não existes”. E, quando se repete, deixa de ser reação para passar a ser identidade.
Na vida comum, ainda se tolera: há dias em que ninguém tem paciência para o mundo. Mas na política, onde cada gesto é escrutinado, virar costas não é cansaço — é escolha. E, mais do que isso, é mensagem.
Quando, na Assembleia da República, um deputado decide deliberada e literalmente dar as costas, não está apenas a rejeitar quem fala. Está a rejeitar o próprio jogo democrático. Porque a democracia vive do incómodo, do confronto, do contraditório. Quem foge disso não está apenas a evitar uma conversa — está a desrespeitar e a expor a sua incapacidade de a sustentar.
No caso de Pedro Delgado Alves, o problema já não é o gesto. É a recorrência da supremacia arrogante. É o padrão quase coreografado de quem, perante o que não agrada, opta sempre pela mesma saída: virar costas, sair de cena, apagar o momento como se ele nunca tivesse existido. Recordemo-nos do fatídico episódio do atropelamento da cantoneira, por distração e negligência, e não por falha mecânica como foi relatado. O Ministério Público e o tribunal consideraram que o mesmo se deveu a desatenção, não se comprovando avaria. Pedro Delgado Alves foi condenado por crime de ofensa à integridade por negligência, porque dias depois o carro foi enviado para abate, supostamente por se encontrar bastante danificado, mas segundo a juiza, esta decisão inviabilizou a verificação técnica da viatura e impediu que se apurasse a eventual falha no carro. Uma clara tentativa de apagar evidências, de virar as costas à verdade dos factos e de se esquivar às responsabilidades.
É aqui que entramos no território onde a política se cruza com o caráter.
Porque há uma diferença entre errar e fugir. Entre explicar e desaparecer. Entre assumir e virar costas.
Quando a memória pública evoca episódios passados — alguns incómodos, outros controversos — não o faz apenas pelos factos em si, mas pelo fio que os une: a perceção de uma constante evasão. A imagem que se desenha é a de alguém que, perante o embate, não resiste — contorna. Não responde — esquiva-se. Não enfrenta — vira costas.
E isso não é estilo. É sintoma e esteriotipia. .
Sintoma de uma política que prefere a encenação à substância. Onde o gesto substitui o argumento e a fuga se disfarça de dignidade. Mas não há dignidade nenhuma em virar costas ao debate e às responsabilidades. Há apenas silêncio — e o silêncio, em política e na vida comum, raramente é inocente.
No fundo, virar costas é confortável. Evita o risco, protege o ego, poupa trabalho. Mas tem um preço: revela, sem margem para dúvidas, a medida e a pequenez ética de quem o faz.
E essa medida, quando repetida vezes suficientes, deixa de ser circunstancial.
Passa a ser caráter, ou falta dele.

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A Pressa de Ser Outro

23 April 2026 at 19:39

Há temas que pedem delicadeza. E há momentos em que a delicadeza, se levada ao extremo, se transforma em silêncio cúmplice. A mudança de género tornou-se um desses territórios onde a prudência parece, muitas vezes, proibida, como se questionar fosse sinónimo automático de hostilidade.

Vivemos sob a exaltação da autodeterminação. “Sê quem és”, passou de princípio humanista a imperativo imediato. Mas quando esse “ser” implica intervenções médicas profundas, irreversíveis e com impacto vitalício, a questão deixa de ser apenas identitária: torna-se também clínica, psicológica e ética. E aqui, a pressa não é um detalhe — é o problema.

O que se observa, em muitos contextos, é uma validação quase instantânea de decisões que exigiriam tempo, maturidade e acompanhamento rigoroso. Em especial entre jovens, onde a identidade ainda está em construção, a ideia de que qualquer desconforto com o próprio corpo pode, ou deve, ser resolvido através de uma transição, levanta sérias reservas. Nem todo o sofrimento é sinal de disforia. Nem toda a dúvida é uma certeza à espera de ser confirmada.

Mas o espaço para esta nuance tem vindo a encolher. O debate tornou-se binário: ou se apoia sem reservas, ou se é colocado no campo da rejeição. Esta simplificação é perigosa. Porque apaga uma realidade incómoda — a de pessoas que se arrependem, que revisitam decisões tomadas cedo demais, que enfrentam consequências físicas e psicológicas que não lhes foram plenamente explicadas.

O arrependimento não é apenas uma nota de rodapé. É um sinal de alerta. E, no entanto, tende a ser desvalorizado, quase invisível, porque contraria a narrativa dominante. As consequências a médio e longo prazo : dependência de terapias hormonais, infertilidade, cirurgias complexas, são frequentemente tratadas como detalhes técnicos, quando na verdade redefinem vidas inteiras.

Importa também perguntar: o que está por detrás deste aumento de pedidos de transição? Será sempre uma questão identitária clara, ou haverá, em alguns casos, fatores mais difusos, como fragilidade emocional, necessidade de pertença, influência de ambientes digitais altamente polarizados? Quando uma resposta complexa se transforma numa solução rápida, é legítimo desconfiar da própria simplicidade da resposta.

Paralelamente, assistimos a um relevo crescente do ativismo LGBT… no espaço público. Muito do que foi conquistado nesse percurso é inegavelmente positivo em termos de direitos e dignidade, mas há uma diferença entre visibilidade e omnipresença. Quando determinadas causas se tornam quase imunes à crítica, o debate democrático empobrece.

É neste enquadramento, que decisões políticas como a recusa de hastear bandeiras ideológicas em edifícios públicos ganham significado. Não se trata, necessariamente, de rejeitar direitos ou identidades, mas de afirmar um princípio: o Estado não deve alinhar simbolicamente com uma causa específica, por mais legítima que seja, sob pena de perder a sua neutralidade. O espaço público não deve ser apropriado por nenhuma agenda, deve permanecer comum.

No fundo, a questão central não é a identidade de género em si, mas a forma como a sociedade a está a tratar: com urgência, com simplificação, com leviandade e, por vezes, com uma certa intolerância ao questionamento. E talvez o verdadeiro risco não esteja na liberdade de mudar — mas na ausência de espaço para pensar antes de o fazer.

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Concentrar para Salvar : A Nova Geografia da Neonatologia

16 April 2026 at 16:26

Há decisões que, à primeira vista, parecem duras, insensíveis e quase incompreensíveis. O encerramento de algumas unidades de neonatologia é uma delas. Num país onde cada nascimento carrega esperança, futuro e continuidade, falar em fechar portas onde a vida começa pode soar a contrassenso. Mas nem sempre mais significa melhor — e é precisamente aqui que a reflexão se impõe.
A neonatologia é uma das áreas mais exigentes da medicina. Não basta existir um espaço físico com incubadoras: é necessário um ecossistema altamente especializado, com equipas treinadas, tecnologia de ponta e capacidade de resposta imediata a situações críticas. Um recém-nascido prematuro ou em risco não pode esperar por recursos que não existem nem depender de estruturas subdimensionadas. Nestes casos, a diferença entre a vida e a morte mede-se em minutos — e em qualidade de cuidados.
Manter muitas unidades abertas, mas sem condições adequadas, pode criar uma falsa sensação de segurança. A dispersão de recursos humanos — médicos neonatologistas, enfermeiros especializados — fragiliza o sistema. Equipas reduzidas, horários sobrecarregados e falta de experiência acumulada diminuem a capacidade de resposta. Pelo contrário, a concentração em unidades de excelência permite equipas mais robustas, com maior prática clínica, melhor articulação e acesso a equipamentos modernos.
Em Portugal, algumas reestruturações recentes ilustram esta lógica. O reforço de unidades em hospitais como o Hospital de Santa Maria ou o Hospital de São João demonstra a aposta em centros altamente diferenciados, capazes de responder aos casos mais complexos. Ao mesmo tempo, o encerramento ou suspensão de unidades com menor capacidade tem sido alvo de debate público, mas também de uma tentativa de reorganização mais racional dos cuidados.
Não se trata apenas de uma questão clínica — há também uma dimensão económica inevitável. Os recursos do sistema de saúde são finitos. Investir em múltiplas unidades subequipadas pode significar desperdiçar verbas que poderiam garantir excelência em menos locais. A gestão eficiente implica escolhas difíceis: concentrar investimento onde ele produz melhores resultados, evitando redundâncias e estruturas que não conseguem cumprir plenamente a sua missão, ou que não justificam permanecerem em funcionamento pelo número reduzido de serviços específicos que prestam.
Naturalmente, esta reorganização deve ser acompanhada de uma rede eficaz de transporte neonatal e de apoio às famílias, para que a distância não se transforme em obstáculo. A centralização só faz sentido se for acompanhada de acessibilidade e humanização.
No fundo, a questão não é quantas unidades existem, mas que qualidade oferecem. Porque quando falamos de recém-nascidos — especialmente os mais frágeis — não há margem para compromissos. As parturientes e os bebés não precisam de proximidade ilusória; precisam de segurança real, de competência e de excelência.
E isso, por vezes, exige coragem para fechar portas, para garantir que outras, mais preparadas, permaneçam abertas e altamente funcionais.

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Política Migratória: Do Facilitismo à Correção

10 April 2026 at 18:39

Durante oito anos, construiu-se em Portugal uma narrativa confortável: a de que abrir portas sem critério era sinónimo de humanidade, progresso e modernidade. Soava bem. Ficava bem nas conferências, nos discursos e nas redes sociais. Mas, como tantas vezes acontece, a realidade,essa entidade teimosa, acabou por pedir contas.

A chamada “manifestação de interesse” transformou-se, na prática, num iman e num convite implícito à entrada sem planeamento. Um sistema que, sob o pretexto de regularizar, passou a incentivar fluxos desordenados, criando uma espécie de fila invisível onde tudo era permitido… desde que se esperasse o suficiente. O resultado? Serviços públicos pressionados, respostas lentas, e um Estado a correr atrás do prejuízo que ele próprio ajudou a criar.

Entretanto, nas ruas, começou a emergir um desconforto que durante demasiado tempo foi varrido para debaixo do tapete e ocultado pela Comunicação Social. Não, não se trata de generalizações fáceis ou de demonizar quem chega, há de tudo, e isso seria intelectualmente desonesto. Mas também não se pode ignorar o aumento de episódios de criminalidade associados a contextos de exclusão, ausência de integração eficaz e falta de controlo. Fingir que não existe é tão irresponsável quanto explorá-lo de forma populista.

E depois há a questão da subsídio-dependência, esse elefante na sala que poucos quiseram nomear e admitir. Um sistema que, em vez de integrar rapidamente no mercado de trabalho, foi permitindo que muitos ficassem presos a apoios sociais, não por escolha individual apenas, mas por um modelo que falhou em criar pontes reais para a autonomia. A boa intenção, quando mal executada, transforma-se numa armadilha, quer para quem chega, e perigosamente para quem já cá está.

Durante anos, qualquer tentativa de questionar este modelo era imediatamente catalogada: ou se estava “do lado certo” ou se era rotulado com todos os epítetos possíveis. O debate foi pobre, emocional e, muitas vezes, intelectualmente preguiçoso e desonesto. E assim se prolongou um problema que exigia, desde o início, seriedade, equilíbrio, bom senso e, sobretudo, responsabilidade.

Mas a política, apesar de tudo, ainda tem momentos de correção. A recente alteração à lei, aprovada por uma maioria qualificada de dois terços na Assembleia da República, não é apenas um detalhe legislativo — é um sinal. Um sinal de que, finalmente, se reconheceu que a gestão da imigração não pode ser feita ao sabor de slogans ou boas intenções, mas sim com regras claras, capacidade de integração e respeito por quem chega… e, especialmente por quem já cá vive.

Por isso, no meio de tanta hesitação passada, resta reconhecer o momento presente: uma vénia à lucidez tardia e um aplauso, firme e sem ironia, à coragem de, finalmente, pôr ordem onde durante demasiado tempo reinou a ilusão.
Se hoje há dois terços a corrigir o rumo, é porque durante demasiado tempo houve um governo incapaz de reconhecer que o tinha perdido.

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A coreografia do medo e a engenharia da obediência

1 April 2026 at 19:12

Durante anos, venderam-nos certeza com a arrogância de quem não admite réplica. O governo de António Costa não governou apenas uma crise sanitária, encenou uma narrativa onde o Estado nunca duvida, nunca hesita, nunca erra. E quem ousasse levantar a sobrancelha era imediatamente promovido a herege cívico.
A Direção Geral de Saúde transformou-se num púlpito. Não de ciência, mas de autoridade. E há uma diferença abissal entre as duas. A ciência questiona, ajusta, corrige-se. A autoridade impõe. E foi isso que se viu: um discurso fechado, impermeável, blindado contra qualquer interrogação que não viesse com selo de aprovação oficial.
O país foi conduzido, não informado. Empurrado, coagido, não convencido. Entre campanhas emocionalmente carregadas e medidas sucessivas, instalou-se um ambiente onde a liberdade era formal, mas a escolha já vinha pré-formatada. Não foi uma ordem direta. Foi mais eficaz do que isso: foi uma pressão difusa, constante, socialmente validada. Uma pedagogia do medo, uma engenharia da obediência.
E agora? Agora surgem notícias incómodas, perguntas tardias, investigações que deveriam ter começado quando ainda havia tempo para respostas claras. Durante meses, anos até, garantiu-se ao país que não havia nada a questionar. Nada. Zero. A dúvida era tratada como desinformação antes sequer de ser analisada. Os questionistas foram perseguidos, ameaçados, cancelados e alvos de perseguição discriminatória, sem apelo nem agravo, só porque duvidaram da solução milagrosa, que surgiu, inacreditavelmente em tempo record, quando se sabe que um processo de desenvolvimento e aprovação de uma vacina, para estar formalmente disponível para a população, em segurança, demora na totalidade, dez a quinze anos, ou até mais, depois de passar formalmente por todas as fases.
Hoje, já não é possível sustentar essa pose autoritária, sem fissuras.
Hoje em dia apercebemo-nos de que, o mais grave não é apenas o que pode ou não vir a confirmar-se. O mais grave é o ambiente que foi criado: um espaço público onde a crítica foi desencorajada, onde o debate foi empobrecido e onde a prudência — essa mesma prudência que a ciência exige — foi substituída por uma certeza quase dogmática.
Governar em crise não dá carta branca para moldar a realidade à conveniência política nacional ou europeia. E muito menos para transformar cidadãos em figurantes de uma narrativa oficial, ditatorial e punitiva, que não admite contraditório.
A fatura não é apenas sanitária. É institucional. É moral. É democrática.
Porque quando um governo decide que a verdade pode ser simplificada até à obediência, arrisca-se a algo muito mais perigoso do que a contestação: arrisca-se a perder, de forma duradoura, a confiança de quem governa.
E essa, ao contrário de qualquer campanha, não se recupera com slogans.

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