Normal view

Received — 2 June 2026 Le Monde Diplomatique - Português

Uma ópera para celebrar a revolução? Não, para nunca a deixar morrer

O Teatro Aberto apresentou no dia 21 de maio, em estreia mundial, Por Todos Nós, o nome que homenageia os cerca de 5 mil revoltosos que fizeram o golpe militar de 25 de Abril de 1974. Em 2014, Lídia Jorge publicou a primeira epopeia literária sobre a revolução e chamou-lhes Os Memoráveis. Por Todos Nós, com libreto de João Lourenço e Vera San Payo de Lemos, a partir do romance Os Memoráveis, de Lídia Jorge, resulta do convite que a Comissão Comemorativa dos 50 anos do 25 de Abril fez a dez (…)

- Outros artigos

«A tempestade que o mercado não preveniu»

Sexta-feira, 22 de maio, às 18h

Conversa com Vera Ferreira e Luís Fazendeiro, com moderação de Fernando Ramalho.
Entrada livre
Livraria Tigre de Papel
Rua de Arroios, n.º 25 (Lisboa)

JPEG - 77.2 kio

A catástrofe que este Inverno atingiu Portugal, e muito em particular os distritos de Leiria, Coimbra e Santarém, mostrou que o país não está preparado para fenómenos extremos que, é sabido, vão multiplicar-se e intensificar-se. Podemos mesmo continuar a socializar os custos das catástrofes e a evitar as escolhas e o investimento que as poderia ter prevenido?

Nesta sessão partimos do artigo publicado no número de abril da edição portuguesa do Le Monde diplomatique «A tempestade que o mercado não preveniu», da investigadora Vera Ferreira. Além da autora do artigo, estará também connosco Luís Fazendeiro, físico, investigador e membro do Conselho Editorial do Le Monde diplomatique – edição portuguesa. A moderação ficará a cargo de Fernando Ramalho, livreiro da Tigre de Papel.


Todo o arquivo, mais leitura

Assine ou renove e tenha acesso a todo o arquivo desde o primeiro número, de 1999 até hoje.

UM JORNAL COM MEMÓRIA

Assine ou renove e tenha acesso a todo o arquivo desde o primeiro número, de 1999. «A leitura abre-se ao escrutínio de quantos queiram confirmar o rigor da informação e a validade das análises, bem como a força da voz dos criadores artísticos. Os artigos, mesmo os mais antigos, resistem à prova do tempo. Mantêm pertinência e atualidade. São instrumentos úteis de compreensão e transformação do mundo, prontos para ser usados por estudantes, investigadores, sindicalistas, ativistas… Quantos projetos jornalísticos poderiam hoje dizer o mesmo?» (Sandra Monteiro, «Arquivo vivo, memória presente»)

ACESSO TOTAL E EXCLUSIVO A MAIS DE:

300 edições completas do jornal
850 mapas e infografias detalhados
3.200 autores de referência
5.300 imagens e obras de arte: pintura, escultura, fotografia, banda desenhada, ilustração e muito mais;
8.800 artigos completos online
acessíveis através de um motor de busca avançado por temas, palavras-chave, datas, países, personalidades, entre outros. Organizado cronologicamente, por temas e com ligações inteligentes entre eventos, regiões, autores e temas relacionados.

APOIE ESTE PROJETO INDEPENDENTE E COOPERATIVO

Mais leitura, todo o arquivo | https://pt.mondediplo.com/arquivos

Todos os tarifários | https://pt.mondediplo.com/assinatura

Mais informações | mondediplopt@gmail.com

«O Fogo do Vento» das pessoas e do Alentejo

Primeira longa-metragem de Marta Mateus, O Fogo do Vento teve estreia mundial no Festival de Cinema de Locarno e estará em exibição nas salas de cinema nacionais a partir de 21 de maio. Está enraizado na vida das gentes da região alentejana.

JPEG - 75.6 kio

«Este é o universo da minha infância, enquanto uma experiência das raízes, do conhecimento do território e de uma forma de pensar», afirma Marta Mateus, realizadora de O Fogo do Vento, nascida no Alentejo, onde a terra faz crescer as vinhas e os sobreiros sob o sol intenso das planícies. Estamos longe da urbe, dos seus ruídos e desconcentração. Aqui, o que une ou assusta é a natureza, como o toiro, figura de força que ronda e ameaça. A relação entre as pessoas faz-se desta fibra, que ora as põe a fazer jornadas na vindima, ora as desassossega com o animal possante, que não as deixa ir para casa em paz.

Sobre a escrita e o imaginário de um objeto tão poético, Marta Mateus conta que «essa escrita surge da experiência, de um conhecimento e saber muito íntimos quase inconscientes, que vêm de um modo de estar e sentir que no Alentejo está muito ligado à palavra. No Alentejo, há uma experiência da língua ligada aos gestos e à natureza. Por outro lado, acho que, por ter sido um território onde as pessoas foram alfabetizadas muito tarde, os contos e essas narrativas mais poéticas e míticas foram-se mantendo vivas e sendo transmitidas na comunidade. Há uma forma de falar muito imagética. Cresci com essas pessoas que falavam assim e contavam essas histórias. Até na utilização do gerúndio há o movimento. As coisas não estão estáticas. Estão-se sempre a formar e refazer. Acho que isso tem a ver com as estações. Eu cresci mesmo no meio do campo. Não tínhamos eletricidade em casa. E essa experiência inaugural da minha existência reflete-se no meu trabalho.»

A conexão que O Fogo do Vento estabelece entre seres é ancestral. A cineasta conta de onde lhe veio a ideia central do filme. «Tive uma imagem, e não percebi o que é que queria dizer. Confio nessas imagens que nos aparecem, porque não são só nossas. São coletivas. Nós estamos ligados, em rede, como as árvores. Apareceu-me a imagem do touro negro, depois tive um desenho muito geral do filme. A poesia vem da vida, é a vida que está a falar. (…) Muitas vezes, há um touro que foge, e as pessoas ficam em cima das árvores.»

O título alude à relação com o campo: os elementos naturais e aquilo que, em metáfora, nos contam destes trabalhadores, que fazem jornadas árduas e não querem que a memória desses outros ainda mais sacrificados dias se perca. A certa altura, Maria Catarina, um pilar desta comunidade, diz: «As pessoas da minha terra esqueceram-se que eram pobres. O pior é que não sabem que ainda são.» Alguém passa a outro alguém um minúsculo papelinho, onde, depois de desembrulhado lemos: «Que ninguém trabalhe de sol a sol.» Era a resistência contra a exploração do homem pelo homem, num mundo do dinheiro e da mais-valia. Não é ao acaso que o bicho que circunda pelos campos se chama o «bicho do dinheiro», espécie de centopeia, que, segundo os dizeres do povo, não deve ser morto, para não dar azar. Também ele (em metáfora) anda na boca de uma das mulheres: «O bicho do dinheiro. Aquele que tem muitas patas. E anda muito rápido.»

Estas mulheres possuem uma sabedoria telúrica, concreta e misteriosa. Todos são respeitados: o toiro, e o «bicho do dinheiro», as oliveiras, os sobreiros. O Fogo do Vento é esse filme da poesia dos dias dos trabalhadores. «O povo já não tem medo», lemos na capa do jornal República que o soldado lê encostado ao sobreiro. O poético também sabe coreografar-se entre modalidades temporais, que apontam para o passado de opressão, para a liberdade de não mais calar a exploração.

JPEG - 57.1 kio

O trabalho e a vida

Marta Mateus filma a sua comunidade com respeito, profundidade e humanidade. Planos, cenas e sequências seguem as coreografias das pessoas. Histórias de vidas fixadas nas fotografias que alguém vê, como é histórico o nosso encontro com João da Encarnação, soldado jovem que perdeu o olho na frente de batalha. Ladainhas, chamarizes e cantares evocam elementos e lugares misteriosos e sonhadores. Há muito mais que a terra; há uma simbiose com o que podemos chamar transcendência do natural. Maria Catarina confessa: «Se eu morrer a trabalhar, não precisam de chorar por mim. Eu morro a fazer o que mais gosto.»

A realizadora esteve quatro anos (quatro verões) a fazer o filme. «Comecei a trabalhar com algumas pessoas com quem adorei trabalhar. Só trabalho com luz natural. Nesse trabalho, foram surgindo questões da vida pessoal de cada um. E as coisas foram-se construindo. O tempo que eu preciso é o tempo que eles precisam. E fazer as coisas com esse tempo dá frutos. Como uma vinha.» Mais do que um objeto cinematográfico, no filme pulsa o semear e colher de uma maneira de ser e estar. Como as estações de uma vida, o filme transformou-se e cresceu, sem se afastar do território interior de Marta Mateus — os vértices revolucionário, político e poético já estavam presentes na geometria de Farpões, Baldios, a sua curta-metragem de 2017.

Há um mundo rural em transformação: «Hoje já ninguém conhece a terra. Há máquinas para tudo», escutamos. O corpo que ouve a natureza, que dela colhe frutos (o sustento), reconhece um afastamento em relação à terra, ao céu e a tudo o que entre eles existe. Mas é também nas mãos de uma mulher que um ramo junta esses frutos: «É o trigo, é a aveia, é a cevada, papoilas, malmequeres, ramo de oliveira», isto é, «amor, paz, pão, saúde, coragem, luz e alegria».

Fogo do Vento é um filme dos sentidos, da atenção como oração (como escreveu Simone Weil) aos outros, não-humanos e humanos, que não se enreda numa visão bucólica, pois toda uma árvore genealógica está nele enraizada. O «paraíso», se por aqui ronda, é tecido à custa do derrube da ditadura fascista, em 1974, e da instauração da democracia. Ouvimos pelos campos o locutor da (já não ilegal) Rádio Portugal Livre, no primeiro 1.º de Maio, comemorado em Lisboa. É a liberdade das pessoas que já não se deixam explorar, que reivindicam igualdade e direitos laborais. São elas que tratam como companheiras a fauna e a flora com que habitam este lugar. O lugar imenso que é Fogo do Vento. O lugar imenso que é a Terra e a Humanidade.

«Chão Verde de Pássaros Escritos»: o filme certo para um certo Luandino

Chegou às salas o documentário de Sandra Inês Cruz sobre o percurso do escritor José Luandino Vieira, desde a ditadura e o colonialismo até à independência de Angola. Revisitando o Tarrafal, onde esteve preso longos anos.

JPEG - 26.3 kio

Não é fácil falar das grandes figuras (nem sequer das pequenas, se é que a distinção faz sentido), tanto mais que cada ser humano é, como disse Mia Couto, uma ilha, e nem todos somos capazes de nadar à sua volta para a podermos perceber ou subir a uma árvore a partir da qual a possamos abarcar na totalidade. Mais difícil é ainda quando essa figura está rodeada de um certo mistério, como é o caso de José Luandino Vieira. Escritor celebrado, mas discreto; de obra ampla mas de textos curtos; clássico em vida e festejado pela crítica, mas de acesso difícil ao leitor desprevenido; consagrado fora mas nem sempre reconhecido no seu país, Angola. Além disso, as circunstâncias históricas encarregaram-se de lhe segmentar a vida: começada em Angola (apesar do nascimento acidental em Portugal, então metrópole); interrompida no aeroporto de Pedras Rubras e marcada por uma longa, dura, injusta e absurda prisão em Luanda e no Tarrafal; retomada (na medida do possível) em Lisboa, durante dois anos, e só nos últimos meses em verdadeira liberdade, ao longo dos quais pôde desenvolver um intenso e discreto trabalho político-diplomático ao serviço do MPLA; continuada ao longo de oito anos de atividade incansável em Luanda, na construção de um país que se queria novo, assumindo responsabilidades importantes nas estruturas do partido e em organizações socioculturais (Televisão Popular de Angola, Instituto Angolano de Cinema, União dos Escritores Angolanos); interrompida de novo com uma espécie de exílio (ou de retiro, ou de recuo) no norte de Portugal, primeiro num antigo convento pertencente a José Rodrigues e depois numa pequena casa no centro de Vila Nova de Cerveira. Em todas estas etapas, o cidadão e o escritor mantiveram sempre uma atitude discreta, aquém do que esperavam os seus amigos de ocasião, além do que desejariam alguns dos seus antigos companheiros de circunstância.

Chão Verde de Pássaros Escritos é, desde o título, a quadratura do círculo possível: Chão Verde por contraposição a Chão Bom, o nome oficial da segunda fase do campo de concentração do Tarrafal; de Pássaros Escritos, aludindo ao pardal que Luandino conseguiu domesticar em Cabo Verde e aos pássaros que o escritor continua a alimentar no Largo do Anjo da Guarda em que mora atualmente — e talvez também à aquisição da visão e da liberdade da ave, capaz de ver acima das contingências do quotidiano e de assumir a condição passageira de um ser frágil.

JPEG - 81.2 kio

Um percurso pessoal, político e artístico

O filme capta muito bem várias das dimensões de Luandino, permitindo que ele ocupe o centro do ecrã, por muito que a narração e o cenário desempenhem também papel essencial. Ficamos assim a conhecer o essencial do seu percurso — pessoal, político e artístico —, para o que muito contribui o material do livro Papéis da Prisão, publicado em 2015, e a visita a Chão Bom e ao seu entorno. Sem ceder à tentação de transformar em herói o autor angolano, o filme vai-nos contando a história de uma vida a partir de fragmentos de alto valor histórico, simbólico, poético. Apesar disso, a interrogação permanece até ao fim, tanto por parte da realizadora quanto do lado de Luandino. Uma e outro vão-se aproximando, buscando preencher vazios e tentando encontrar um sentido para o todo que talvez só seja apreensível na obra do autor.

Um dos momentos interessantes dessa busca é a ida à Torre do Tombo, em que Luandino Vieira consulta pela primeira vez o dossiê que a PIDE lhe dedicou. A subida da escadaria e a leitura à luz do candeeiro (porque entretanto se fizera noite lá fora) são duas cenas particularmente sugestivas: do ponto de vista estético e fotográfico, mas também simbólico. O sentido é buscado no alto e na luz, mas a resposta é de algum modo decetiva. A 13 de março de 1965, o detido José Graça pede autorização ao diretor do Campo de Trabalho de Chão Bom para gravar em fita magnética a história de «O lobo e o coelho» para enviar ao seu filho por ocasião do seu aniversário. E o filme dá-nos a ouvir um fragmento da história e isso toca-nos. Mas também nos acorda: a voz que ficou preservada na fita não é a voz que escutamos ao longo do filme, do mesmo modo que a foto do homem detido em 1961 não corresponde à do homem que sai em 1972. Não é só o bigode que o acompanha na hora da libertação condicional; é a perda de massa muscular e, sobretudo, o olhar, que continua vivo, mas que está agora marcado por uma espécie de desilusão.

JPEG - 31.3 kio

O frenesim dos anos seguintes, que nos é apresentado em fragmentos de filme da época e em fotos (uns e outros pouco ou nada conhecidos), não apaga essa desilusão do homem que saiu do Tarrafal com uma outra visão de si mesmo, dos outros e do mundo, mas que ainda espera estar enganado. A postura é serena, a atitude é delicada, a convicção é firme: a t-shirt que veste é preta, como era preto, em fundo amarelo, o sol que desenhou para a capa de uma edição de poemas de Agostinho Neto publicada pela Casa dos Estudantes do Império. Mas há um tom sombrio, detetável também na música de Luís Cília que acompanha o filme. O tom de quem se assume, sem o dizer, numa espécie de exílio, sem o consolo da esperança de voltar a Sião. Como o Camões de Sôbolos rios: «Alli lembranças contentes / N'alma se representárão; / E minhas cousas ausentes / Se fizerão tão presentes, / Como se nunca passárão. / Alli, despois d'acordado, / Co'o rosto banhado em ágoa, / Deste sonho imaginado, / Vi que todo o bem passado / Não he gôsto, mas he mágoa.» Ou como Carlos Drummond de Andrade: «quer ir para Minas, / Minas não há mais / José, e agora?». E ainda, por fim, como o seu João Vêncio: «Eu digo: Luanda — e meu coração ri, meus olhos fecham, sôdade. Porque eu só estou cá, quando estou longe. De longe é que se ama.»

Devemos estar gratos a Sandra Inês Cruz e à sua equipa: é um belo filme que nos dá acesso a algumas das camadas que formam Luandino. É uma delicada aproximação ao ser humano e ao conceito de exiliência. É uma bela ilustração de uma das frases do livro maior de Luandino, Nós os do Makuluso: «a coragem é isto: na morte, o salto para o saco da vida». Mesmo o que parece estar em falta, está lá também: na imagem, no som, no silêncio. Na poesia, que é a única forma séria de conhecimento.

«Ajudar a compreender os caminhos certos de resistência e superação»

No dia 20 de abril, o Instituto de História Contemporânea (IHC) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) homenageou o historiador Fernando Rosas, pelo seu 80.ª aniversário, com uma iniciativa intitulada «Reler Fernando Rosas». Este artigo corresponde, com ligeiras adaptações, à intervenção feita nesse dia pelo homenageado.

JPEG - 62.8 kio
2026S/ título,Matilde Feitor .

Quis a sorte ou o diabo que eu chegasse a octogenário. E por isso aqui estou a cumprir gostosamente convosco os meus inesperados 80 anos.

Permitam-me que comece por agradecer a vossa presença e o gesto amigo deste reencontro com alguns dos textos que fui escrevendo ao longo dos longos 40 anos de meu percurso académico como historiador, se somarmos aos 30 anos de serviço encerrados com a jubilação, mais 10 de docência voluntária a convite honroso da direção desta Faculdade que agora darei por encerrada.

Devo dizer que esta caminhada sempre foi devedora do saber, da sabedoria e da generosidade dos mestres que nesta casa, e para além dela, me foram confiando e pacientemente moldando como aprendiz de historiador. Por isso as minhas primeiras palavras hão de ser para eles. Palavras de agradecimento, posto que com eles tive o privilégio de ir aprendendo a desbravar os meandros teóricos e práticos do ofício. Aqui as deixo como testamento de gratidão para os professores Joel Serrão, Oliveira Marques, José Medeiros Ferreira e Sacuntala de Miranda, que já partiram, mas também para os que felizmente ainda estão connosco, a professora Miriam Halperne Pereira e Fernando Oliveira Baptista. Pelo que esforçada e empenhadamente me ensinaram enquanto docente, investigador e divulgador da História Contemporânea.

Mas mestres meus foram também — e de que maneira! — as muitas centenas de estudantes das licenciaturas, dos mestrados, dos doutoramentos, dos seminários, com quem tive a oportunidade de conviver, trabalhar e aprender. A sua participação crítica, o seu empenho, a sua curiosidade, as suas dúvidas obrigaram-me permanentemente a pensar, repensar, discutir e rever objetos de estudo, abordagens e metodologias da História Contemporânea.

É por isso com genuína satisfação e reconhecimento sincero que vejo várias e vários antigos alunos e alunas e outras e outros companheiros destas andanças do debate historiográfico — todas elas e todos eles docentes ilustres e autores reconhecidos — terem a paciência e a bondade de repegar criticamente escritos de que fui autor ao longo destas quatro décadas. «Ínclita geração, altos infantes», como diria o poeta. A todos e a todas o meu absoluto agradecimento.

Não sou, nem nunca tive a intenção de ser um historiador ou um académico com pretensões de neutralidade pseudocientífica, pairando sábio, incólume e virginal sobre as desagradáveis paixões do mundo. Uma autoridade super partes, pretensamente imune às ideologias e que confundisse uma atitude de rejeição apolítica do comprometimento com uma forma de sabedoria intemporal e metafísica. Ou seja, como assinala Enzo Traverso, nunca aceitei transformar uma categoria ético-política conservadora numa intocável categoria histórica. Na realidade, essa espécie de historiador ou de cientista social enquanto guardião complacente do Templo da verdade «pura» não existe, a não ser como falsificação medíocre da realidade ou demissão cívica travestida de «ciência».

Porque o historiador é um ente social que respira e interpreta a historicidade da época em que vive, o espírito do tempo e as suas contradições, os seus sucessos e as suas tragédias e que, de alguma forma, seja qual for o sentido em que o faz, projeta sobre o seu estudo a sua visão da realidade, a sua cultura, a sua ideologia. É certo que ele deve assumir distância crítica, é claro que ele tem que ser rigoroso no tratamento e interpretação das fontes de acordo com as normas do ofício, mas a verdade é que há sempre alguma transferência de subjetividade construída na relação mútua do caldo da cultura da época com os fenómenos estudados. Sendo que essa distância crítica e metodológica é sempre algo essencialmente distinto da distância como fonte da indiferença moral, ou seja, como produção social da indiferença ética. A «distância» assim subvertida como conceito engendra a falta absoluta de compaixão relativamente ao outro. Engendra a impunidade da violência opressora, fomenta o racismo, justifica o extermínio. Em suma: pode até ser uma noção com algum curso neste obscuro tempo presente, mas transforma-se na normalização do regresso à barbárie.

Mas ainda porque pensar historicamente a sociedade é sempre um trabalho indissociável do uso público da História e das suas repercussões políticas. Estudar a História e escrevê-la significa, como sugere Traverso, oferecer matéria-prima para o uso público do passado, ou seja, para poder agir sobre a realidade, para de alguma forma a transformar, seja qual for o sentido desse exercício. Não é, nunca foi um exercício asséptico, pretensamente puro, «uma forma de sabedoria intemporal», uma pretensa «neutralidade». O uso público da História como prática cidadã pressupõe, sem dúvida, por parte do historiador, além da indispensável autonomia crítica e do rigor do método, uma opinião interpretativa sobre a realidade do seu tempo presente e é dela de que sempre se parte, sobretudo na História Contemporânea.

Quando nos anos 80 e 90 do século passado me balancei no estudo da História do Estado Novo e do salazarismo, parti de uma perplexidade crucial para o futuro da jovem democracia portuguesa: como fora possível um regime com as características dessa ditadura durar durante 48 anos, quase meio século do século XX português? Um regime que se impôs ao cabo de uma espécie de guerra civil larvar e de acesa conflitualidade intestina entre 1926 e 1933; que se reforça com o triunfo franquista na Guerra Civil de Espanha; que sobrevive à derrota nazi-fascista da Segunda Guerra mundial; que se aguenta sob o terramoto delgadista de 1958-1959; que ainda consegue durar 13 anos de longa e injusta guerra colonial, apesar de esse ser o seu sangrento epílogo.

Seguramente tive de me defrontar com as pertinazes mistificações históricas legitimadoras dessa particular modalidade lusitana do fascismo e das diferentes fases da sua longa evolução. Tanto mais que o pós-novembrismo dos anos 80, a par de uma certa amnésia desculpabilizante da ditadura, fomentava um ambiente de revisão historiográfica neoconservadora que de alguma forma atapetava o terreno ideológico e cultural onde a nova extrema-direita fascizante havia de lançar amarras. Seguramente houve que encarar os discursos míticos oposicionistas de sinal contrário, ciosamente alimentados por longos anos de repressão, de clandestinidade e de sacrifícios em que a sobrevivência política e a resistência se ligaram a fortes e sectarizados discursos identitários, o que era natural por parte de correntes políticas cercadas pela perseguição, as prisões, a censura, a tortura e o assassinato. Nem sempre tem sido fácil fazê-lo, mas essa desconstrução/reconstrução é indispensável ser levada a cabo sem preconceitos numa democracia que luta contra a abolia e a desmemória e que se bate pela memória plural da resistência à ditadura como trave mestra da sua existência.

Todavia, nestes trabalhos da História do Estado Novo é claro que nunca me passou pela cabeça equiparar «neutralmente» o incomparável do ponto de vista de uma ética democrática: o fascismo com o antifascismo; o colonialismo e o anticolonialismo; a opressão e a repressão política e policial com a democracia e as liberdades públicas; a exploração dos grupos do capital financeiro com os direitos do trabalho. Esforcei-me por ter distância crítica em relação a estes fenómenos e rigor no seu tratamento. Mas soube sempre qual o lado da História a que pertencia e a que pertenço.

Da mesma forma, neste enovoado tempo presente carregado de presságios, se convoca a urgência da História e do seu uso público. Porque nele se cruzam quatro inquietantes tendências de regressão civilizacional: por um lado, o retorno impune da barbárie imperial e genocida, o império da lei do mais forte sobre o direito e a moral; por outro, essa cavalgada da nova extrema-direita fascizante pelo mundo fora, apoiada na chantagem trumpista; como coisa nova, o controlo oligopolístico de uma emergente tecnoligarquia sobre a manipulação algorítmica das redes sociais, semeando a abolia ou explorando os instintos primitivos de tanta gente perdida na crise do capitalismo tardio. Por fim, mas fator comum a todo o resto, essa produção social da indiferença que anda de par com a exploração manipulatória do medo e da raiva que escorrem desta arrastada crise histórica dos sistemas liberais.

E é urgente entender as condicionantes históricas destes fenómenos, saber que continuidades ou novidades comportam relativamente ao fascismo paradigmático da primeira metade do século XX, sobretudo ajudar a compreender os caminhos certos de resistência e superação que simultaneamente salvaguardem e renovem a democracia política e social.

Estudar para agir e agir para voltar a estudar. Dar sentido atual à velha máxima de Romain Roland: «pensamento que não age ou é aborto ou é traição». E assim continuo. Enquanto não me falecer juízo na cabeça e força nas pernas, contem comigo. Como cantavam os antigos contrabandistas da raia, pois «trema a terra que daqui ninguém arredou».

Yiwu, capital da globalização

É a etiqueta que vem agarrada à maioria dos objetos do nosso quotidiano. Por aparecer em todo o lado, já não faz pensar em nenhum local específico: de Nova Iorque a Moscovo, de Oslo a Pretória, de Paris a Jacarta, flutua pelo planeta como um rótulo abstrato. E, no entanto, por trás das três palavras «Made in China» esconde-se uma cidade bem real, situada a sul de Xangai.

JPEG - 56 kio
Cortesia da Galeria São MamedeA.P.25-684, 2025 .Branislav Mihajlovic .

À escala chinesa é uma cidade pequena, com menos de 1,9 milhões de habitantes; à escala do comércio mundial é um nó decisivo, considerado o maior mercado grossista do planeta para pequenos produtos manufaturados. Bem-vindos a Yiwu, na província de Zhejiang, de onde provêm mais de 80% das decorações de Natal vendidas em todo o mundo (1).

O centro do sistema, denominado Yiwu International Trade Market, poderia ser resumido por uma série de números: 6,4 milhões de metros quadrados, 75 000 bancas de venda, mais de 2 milhões de referências de mercadorias, cerca de 220 000 visitantes por dia e mais de 75 000 vendedores ou entidades comerciais (2). Todos os anos, cerca de 600 000 contentores são carregados aqui antes de serem enviados para mais de 200 países ou territórios.

Yiwu funciona como uma infraestrutura global. Não é uma montra de inovação espetacular, mas uma máquina fiável, dedicada à fabricação metódica, em grande série, de bens comuns. Uma encomenda feita numa rua põe em marcha um aparelho produtivo disperso, implantado nas zonas rurais de Zhejiang e noutros locais. 

A região vive de divisões territoriais hiperespecializadas: segundo os números do Yiwu International Trade Market, a de Datang produzirá cerca de um terço das meias do planeta; Qiaotu concentrará 80% dos botões e fechos de correr; Wenzhu fornecerá 90% dos isqueiros mundiais. Em Yiwu, o comércio não organiza apenas a venda, antes estrutura a própria industrialização. As bancas de venda não são lojas no sentido clássico, mas interfaces. Uma vitrina compacta, um balcão, uma amostra, uma encomenda, e eis que aldeias inteiras de microfábricas ganham vida para transformar a promessa em mercadoria.

A centralidade produtiva e comercial de Yiwu assenta numa estreita aliança entre iniciativa privada e intervenção pública. Aqui, a burocracia não trava o comércio: antecipa-o, dota-o de ferramentas. É assim que o governo local regula as rendas, investe em infraestruturas, arbitra conflitos e, sobretudo, experimenta dispositivos destinados a facilitar a exportação de pequenas mercadorias. O regime aduaneiro de market procurement (abastecimento no mercado) é a ilustração mais bem-sucedida desta realidade. Permite que os exportadores agrupem numa declaração simplificada milhares de referências heterogéneas sem recibos fiscais distintos, por um montante global máximo de cerca de 130 000 euros. Por seu lado, desde 2012, a plataforma Yiwugo duplica online o mercado físico de Yiwu, a fim de manter a posição estratégica da cidade como capital mundial do pequeno comércio grossista.

Não se escolhe Yiwu, vem-se para cá por necessidade

A vantagem decisiva da cidade continua a ser o preço. Margens mínimas — por vezes alguns cêntimos — compensadas por volumes colossais. Esta lógica constitui simultaneamente a solidez e a fragilidade de Yiwu: mantém à tona milhares de pequenas empresas confinadas aos segmentos menos rentáveis da cadeia de valor, enquanto o crescimento da cidade assenta, em grande parte, em mercados com baixo poder de compra — os das economias emergentes. Yiwu surge, assim, menos como um «modelo» e mais como um equilíbrio instável. Cidade-bazar, cidade-fábrica, cidade-mundo, ela condensa as contradições do capitalismo chinês: entre quantidade e qualidade, informalidade e controlo, comércio popular e subida de gama, globalização a partir de produtos de baixo valor e estratégia de Estado. Se a cidade ainda se mantém, é graças a uma sucessão contínua de ajustes, numa fragilidade estrutural mascarada pela abundância da sua oferta.

Esta profusão é primeiramente sentida no corpo. Assim que se entra no mercado, o ar é denso, saturado de odores de plástico novo, de cartão húmido, de cola industrial ou ainda de café solúvel. Os néons esmagam qualquer noção da hora. O tempo não se conta em minutos nem em dias, mas em encomendas, em caixas de cartão, em épocas comerciais. De manhã, o mercado abre sem alarido. Sem música, sem slogans, sem bancas de demonstração nem robôs faiscantes, como noutros sítios Internet onde se entra no segmento de luxo. Aqui, não se vem para passear, vem-se para produzir.

Quem vem comprar entra rapidamente, de listas na mão e a olhar para o telemóvel. Vêm de todo o mundo, ou quase: África, Médio Oriente, Ásia Central, Rússia, América Latina. Uma ausência salta à vista: a dos empresários ocidentais, para quem Yiwu — que nem sempre cumpre as regulamentações rigorosas dos seus mercados — não é o seu terreno natural. Os vendedores, chineses, estão instalados atrás de balcões estreitos. As línguas cruzam-se — árabe, russo, espanhol, inglês rudimentar, mandarim — sem nunca se misturarem verdadeiramente. A língua comum, aqui, é a dos números. O volume da compra é estabelecido, a calculadora entra em ação e o total aparece no ecrã. Uma sobrancelha levanta-se, baixa-se. A negociação decide-se na margem — no sentido estrito.

Os corredores estendem-se a perder de vista, numa geometria rigorosa que, aparentemente, contradiz a desordem das mercadorias. Guarda-sóis e guarda-chuvas alinhados como um exército colorido; rolos de papel de embrulho empilhados até ao teto; dezenas de milhares de cabides; taças douradas prontas para celebrar vitórias anónimas; pins do clube de futebol de Barcelona, porta-chaves com a Torre Eiffel, ímanes da Ponte Golden Gate em São Francisco; joias Christian Dior ou Yves Saint Laurent (falsas); e até carrinhos de choque. Numa outra rua, placas anunciam sobriamente, em inglês, «Fornecedores religiosos»: budas em estuque, virgens douradas, estátuas de Santa Bernadete de Lourdes com reservatório para água benta. Também o sagrado se mede em paletes.

Há poucos locais para comer. Algumas lojas de bebidas, noodles engolidos em pé, um café solúvel morno. Nada que convide a uma pausa: o mercado não é um local de convívio. Mais acima, nos andares intermédios, algumas bancas parecem quase vazias. Nelas apenas se veem algumas amostras alinhadas com cuidado. Muitas vezes, são as dos comerciantes mais estáveis, para quem o essencial não acontece ali, mas num armazém ou numa oficina na periferia. Ao subir ao quarto andar, o ambiente muda. Entramos no espaço das fábricas. Aqui são montados relógios, caixas são abertas, componentes são espalhados pelo chão. A variedade de mercadorias dos andares inferiores dá agora lugar à repetição. A diferença entre revendedor e venda direta de fábrica torna-se então visível: um encena a abundância, o outro exibe a série.

Lá fora, a cidade perpetua a lógica dos corredores a céu aberto. As artérias nunca ficam vazias. Camiões, carrinhas, triciclos e motos estão carregados, sobrecarregados, num vaivém de caixas, fardos e sacos de plástico enormes transportados de um extremo ao outro da cidade. Os fluxos ligam as fábricas às bancas de vendas, as bancas aos armazéns, os armazéns às zonas de carregamento. Nas grandes artérias, camiões com o logótipo da DHL cruzam-se com veículos anónimos cheios até ao teto. Nos átrios dos hotéis empilham-se as encomendas que aguardam a partida, no porão de um avião, rumo a uma loja de bairro a milhares de quilómetros de distância. E, nas ruas, painéis publicitários elogiam as qualidades da fita adesiva que, aqui, também tem direito a ser anunciada.

A cidade mostra a sua internacionalização sem folclore. Escritórios de transitários, que organizam o transporte de mercadorias pelos oceanos, anunciam os seus serviços em cirílico ao lado de letreiros em árabe, entre painéis informativos redigidos num inglês estritamente utilitário. À hora das refeições, os aromas do narguilé misturam-se com os do ramen, do arroz com especiarias e dos grelhados. Uma mesquita lembra que a cidade não é apenas um local de passagem. Cerca de 18 000 comerciantes estrangeiros (3) residem aqui, a tal ponto que a cidade se equipou com escolas internacionais e serviços concebidos para os não-chineses. Mas nesta cidade não há vestígios do cosmopolitismo chique dos «expatriados» de Nova Iorque, Paris, Milão ou Xangai. Não se escolhe Yiwu, vem-se para cá por necessidade.

Ao caminhar pelos bairros adjacentes ao mercado, ouve-se a cidade antes de a ver. Ruídos de máquinas passam pelas janelas abertas: um martelar regular, pesado e obstinado. «Aqui, a vantagem é que tudo está à mão, ou mesmo aqui ao lado», explica-nos um comerciante. Em Yiwu, a cadeia de montagem é quase contínua: da matéria-prima ao produto acabado pronto a ser exposto, tudo se encontra num raio reduzido. As oficinas são modestas — quarenta ou cinquenta pessoas —, mas omnipresentes.

De uma ponta à outra desta rua há oficinas de tecelagem. Os teares funcionam sem parar, robustos, barulhentos, longe dos modelos mais modernos. Restos de fios acumulam-se, transbordando até ao passeio. Entre os rolos de tecido colorido reconhecem-se tons andinos ou padrões de estampados africanos. Um pouco mais adiante, o ruído muda, mais seco: o das fábricas de fechos de correr e de atacadores. Rés-do-chão para o trabalho; andares superiores para as habitações. Janelas com grades atrás das quais há roupa a secar. O som de televisões que parecem nunca estar desligadas. À porta, um fogão com uma panela de arroz, legumes, um ovo. Come-se depressa, sem parar as máquinas. Até o vendedor de cigarros tem uma na parte de trás da sua loja, «para quando não há clientes».

Numa dessas oficinas, encontramos Gao, de 42 anos. Cerca de trinta pessoas tecem aqui, muitas delas são membros da sua família. «Em Yiwu, criar uma fábrica é muito fácil», diz ele. «Compras três máquinas, às vezes em segunda mão, arrendas um apartamento e começas. As regras são flexíveis. Para estruturas como a nossa, os impostos são muito baixos, por vezes inexistentes. Caso contrário, ninguém aguentaria.» Os teares são básicos: «Não são os mais rápidos, mas podemos repará-los nós próprios.» A organização é familiar, os horários flexíveis. A competitividade das pequenas oficinas reside nisso: capacidade de resposta, baixo custo, capacidade de atender a encomendas pequenas.

Faturas aproximadas e adiantamentos não registados

Mais adiante fica a entrada de Datang, divisão territorial do município de Zhuji, a cerca de setenta quilómetros de Yiwu, especializado na produção de meias. Cerca de oito mil empresas, desde a microfábrica familiar até à pequena fábrica. As ruas, monótonas, alinham oficinas cujas placas se reduzem a um simples número. «Isto é para África», explica-nos o nosso guia, pegando num par de meias. «Algodão simples.» Pega num outro: «Europa. Normas diferentes.» Um terceiro: «Desporto. Mais caro.» Datang fabrica todas as variantes de um artigo, desde a gama baixa até à mais técnica.

Em Yiwu, as agências do Bank of China estão menos presentes do que noutros locais e os serviços financeiros assumem formas mais difusas: estão frequentemente interligados com a atividade dos transitários, dos agentes comerciais ou de corretores locais, e apoiam-se num mosaico de mecanismos no limite da legalidade. Efetuar pagamentos na China não é uma simples operação bancária, é mais um saber-fazer transnacional forjado nas margens da economia. Faturas aproximadas, adiantamentos não registados, pagamentos parciais em dinheiro são aqui comuns. O recurso a canais de pagamento alternativos — criptoativos, compensações informais, pagamentos fora dos circuitos bancários tradicionais — tem-se desenvolvido, paralelamente ao uso crescente do yuan nas transações internacionais. Esta mudança não resulta de um ativismo monetário nem de uma rejeição ideológica do dólar, mas de um simples pragmatismo comercial: apoiar-se numa moeda disponível, de baixo custo e pouco exposta às sanções e às contingências geopolíticas.

Alguns estrangeiros que vêm fazer compras contornam as agências de câmbio e os controlos, entregando a um intermediário chinês residente no seu país de origem o montante que pretendem converter; em seguida, um sócio entrega-lhes, na China, a quantia equivalente em yuans. Sem transferências internacionais, sem rasto: confiança, redes familiares, contabilidade paralela. Outros utilizam o USDT ou o Tether, uma criptomoeda do tipo stablecoin, cujo valor acompanha o do dólar (4), muito utilizada nas transações Sul-Sul. O USDT é comprado através de corretores no WhatsApp ou no Telegram e é facilmente transferido para as fábricas chinesas na forma de yuans.

Esta forma de proceder insere-se numa evolução mais ampla. Desde a guerra na Ucrânia e as sanções financeiras contra a Rússia, muitos comerciantes russos — muito presentes em Yiwu — já não têm acesso aos circuitos em dólares ou euros e passaram a pagar em yuans ou em criptoativos, contribuindo para banalizar estas práticas. Os vendedores chineses adaptam-se sem hesitação. Aceitar estes meios de pagamento é manter os volumes de negócio; recusá-los é perder um cliente. Da etiqueta sem local de fabrico à circulação que não se rastreia, Yiwu mostra uma globalização que ajusta constantemente as suas ferramentas.


(1) «Evolving purchase of Yiwu's Xmas merchandise», China Daily, Pequim, 20 de novembro de 2024. 

(2) Cf. o sítio Internet Yiwu China Small Commodity Index, supervisionado pelo Ministério do Comércio e organizado pelo Governo Popular de Yiwu. 

(3) «“World's supermarket” eyes thriving prospects amid trade uncertainties», Xinhua, 22 de maio de 2025. 

(4) Ler Frédéric Lemaire e Dominique Plihon, «Os dois destinos da criptomoeda», Le Monde diplomatique — edição portuguesa, setembro de 2025.

Um Estado mediador de seguros?

JPEG - 70 kio
PEDRO PENILO

No passado dia 28 de abril, o debate entre a direita neoliberal e a extrema-direita ultraliberal que se seguiu à apresentação pelo governo do «PTRR — Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência» (1), mostrou bem como, apesar dos gestos exaltados e das acusações cruzadas, ambas as direitas querem aprofundar a financeirização da economia portuguesa. André Ventura insurgiu-se contra a resposta do governo às catástrofes ambientais do último inverno: «A solução foi mais endividamento e façam seguros», afirmou o líder do Chega. Muitos dos que continuam à espera dos apoios para reerguer as suas vidas, e muitos dos que sabem que sem verdadeiras políticas de combate e mitigação das alterações climáticas o país fica exposto a fenómenos cada vez mais extremos e devastadores, podem ter sido tentados a concordar com a crítica. Até Ventura avançar com a sua solução: «Não queremos um Governo, queremos uma companhia de seguros. (…) se calhar resolverá melhor os assuntos dos portugueses». Montenegro responde às calamidades expandindo o mercado e reduzindo o risco às seguradoras privadas; Ventura nem vê necessidade do mediador e prefere colocar no governo as próprias seguradoras.

«Um dos desenvolvimentos mais marcantes do capitalismo contemporâneo é a expansão do sector financeiro e sua crescente influência na vida das famílias e empresas, e dos Estados», escreveu a economista Ana Cordeiro Santos (2). O PTRR vem mostrar como a resposta às calamidades ambientais (incêndios, tempestades, cheias, sismos…) fará parte deste processo de financeirização da economia e do próprio Estado. As políticas públicas, crescentemente afastadas das missões de proteção do bem comum, tornam-se, no neoliberalismo, um lugar de reconfiguração do Estado em benefício do mercado e do capital (3). Não se conhece ainda todo o detalhe das medidas, nem o desenho dos instrumentos financeiros que serão criados pelo governo com o PTRR. Mas encontramos já um conjunto de procedimentos que, mais do que serem dirigidos à proteção e apoio às populações afetadas, permitem tranquilizar os investidores financeiros quanto à possibilidade de expandir mercados e garantir o desejado retorno dos investimentos.

A medida «Revisão do Regime de Seguros para Catástrofes, criação de um Fundo de catástrofes naturais e sísmicas e de um seguro obrigatório» (p. 57 do PTRR) mostra bem como o governo, de facto mais parecendo um mediador de seguros, reduz o direito à proteção social a uma mera proteção individual entregue a seguradoras (o Estado fica reservado para as «populações vulneráveis»). As companhias de seguros, que são agentes financeiros, podem, assim, atuar com risco reduzido no mercado — em que por vezes só entram justamente pelas condições oferecidas pelas políticas públicas. Pela mão do governo de Montenegro, Portugal, muito exposto às catástrofes climáticas e aos sismos, dá mais um passo na integração num modelo «que a economista Daniela Gabor qualifica como “derisking state” — o Estado que minimiza o risco do investimento privado», através de incentivos, subsídios, créditos ficais e outros mecanismos, como analisou o economista Nuno Teles (4).

Perante o aprofundamento da crise climática, as companhias de seguros privadas procuram que os Estados lhes criem condições para lucrar com as catástrofes. Como mostra o que se passa na Flórida ou na Califórnia, para as seguradoras, a partir de certos níveis as catástrofes não são «seguráveis»: recusam-se a assumir o risco, aumentam o montante dos prémios, passam a fatura para os poderes públicos, ou desinteressam-se do negócio (5). Isto é, os riscos são assumidos pela cobertura pública, os lucros ficam para as seguradoras. O poder público perde capacidade para proteger as populações. Mas isso não incomoda Luís Montenegro que, logo no dia a seguir à passagem da tempestade Kristin, quando visitava áreas sinistradas, fez questão de elogiar a «solidariedade» das seguradoras: «“Nesta fase de mobilização de meios de reparação temos a experiência das companhias de seguros que têm demonstrado solidariedade agilizando os mecanismos de reparação às pessoas e empresas com que têm contratos de seguros”» (6).

Não foi uma surpresa, portanto, que o governo inserisse no PTRR uma medida específica para criar um «seguro obrigatório para catástrofes e sismos para habitações apoiado num mecanismo de solidariedade que assegure universalidade de acesso», criando um «Fundo de Catástrofes Naturais e Sísmicas em articulação com a ASF (Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões) e o setor segurador», sendo o Fundo inserido num «Sistema Integrado de Proteção contra Catástrofes Naturais (…), permitindo uma gestão financeira do risco ajustada a diferentes perfis de eventos» e integrando «instrumentos de apoio e incentivos à constituição de seguros para setores económicos específicos», ou ainda «ações de literacia do risco e de promoção de uma cultura de contratação de seguros»

Acontece que o Estado democrático não foi criado para ser um mediador de seguros privados. E as populações, desde logo as mais afetadas pelas catástrofes climáticas (mas não só), sabem bem que a solidariedade, ou o direito a ter proteção social e a viver em segurança, não se confundem com garantir bons negócios aos privados. Na noite da apresentação do PTRR, as televisões logo se encheram de comentadores que explicaram aos cidadãos que o governo está a pedir-lhes que, contratando um seguro, façam poupanças «em tempos em que tudo está bem» para que possam estar protegidos «quando as coisas correrem mal». Nenhuma consideração das obrigações do Estado na prevenção e mitigação das alterações climáticas; nenhuma exigência de políticas públicas que protejam o bem público, não o interesse privado. E, sobretudo, uma total incompreensão de como, para a grande maioria da população, a ideia de que será agora preciso acrescentar novas poupanças às poupanças que já há muito não se conseguia fazer é algo, não só impossível, como ofensivo. Na verdade, o problema não é individual — e a resposta democrática terá de ser coletiva.


(1) Documento disponível na íntegra em https://portugal.gov.pt 

(2) Ana Cordeiro Santos, «Financeirização do Estado, política de habitação e subsídios à especulação», Le Monde diplomatique — edição portuguesa, agosto de 2018.  

(3) Ler João Rodrigues, O Neoliberalismo não é um Slogan, Tinta-da-China, Lisboa, 2022. 

(4) Nuno Teles, «A política industrial voltou?», Le Monde diplomatique — edição portuguesa, fevereiro de 2024. Ler também Nuno Teles e Carolina Reitermajer, «Shadow money and shadow banks in Brazil: A case of subordinated derisking», Competition & Change, 6 de janeiro de 2026, pp. 1-21. 

(5) Ler Benoît Bréville, «Seguradoras sem risco», Le Monde diplomatique — edição portuguesa, maio de 2024.  

(6) Francisco Botelho, «Kristin: Montenegro salienta agilidade na resposta das seguradoras», Eco, 29 janeiro 2026.

Que futuro para a PAC?

Atualmente em negociação, a futura Política Agrícola Comum (PAC) para o período de 2028 a 2034 suscita numerosos debates entre os Estados-membros. Em causa estão os montantes dedicados à agricultura, mas também à proteção do ambiente. O tema divide, tanto mais que, ao mesmo tempo, se coloca a questão da integração na União da Ucrânia, grande potência agrícola.

JPEG - 172.9 kio
exposição Malas Artes, Museu Ibérico de Arqueologia e Arte de Abrantes (MIAA)S/ título .Mário Cordeiro .

São cinco da manhã, o sol entra suavemente pela janela da padaria. Ao longe, as montanhas dos Vosges desenham uma linha irregular. Estamos em Valleroy-le-Sec, uma localidade com duzentos habitantes. «A minha declaração PAC? Lutei até ao fim para a preencher sozinho», conta Fabrice Felten enquanto amassa uma bola grumosa de água e farinha, proveniente da sua colheita de trigo. Com os seus dois sócios, cultiva 52 hectares de cereais, parte dos quais é transformada em pão. Após quinze anos na profissão, Fabrice Felten constata que esta política europeia de apoio ao rendimento dos agricultores se tornou cada vez mais complexa. Mas continua a ser indispensável para o setor.

Com uma média de 54 mil milhões de euros distribuídos anualmente em toda a União, 9 mil milhões dos quais em França, a Política Agrícola Comum (PAC) representa dois terços do resultado corrente antes de impostos dos agricultores franceses — com fortes disparidades consoante o tipo de produção (1). Nas explorações agrícolas, porém, as pessoas estão muito preocupadas. «O próximo orçamento agrícola europeu para 2028-2034 parece anunciar uma redução de 14% nos subsídios, a preços constantes em relação ao orçamento de 2021-2027», calcula Eulalia Rubio, investigadora do Instituto Jacques-Delors, especializada em finanças públicas europeias.

A confirmação desta hipótese reforçará um desmantelamento já bem avançado, em particular sob a influência da Organização Mundial do Comércio (OMC) (2). A parte da PAC no orçamento europeu passou de 70% na década de 1980 para 25% no início da década de 2020 (3). De acordo com as estimativas mais pessimistas, a próxima versão da política comum poderá representar apenas 15% do orçamento europeu (4). Há muito que esta última visa menos garantir a soberania alimentar do Velho Continente do que adaptar os seus setores à integração num mercado cada vez mais vasto. Sob o efeito da liberalização do comércio mundial ou do alargamento da União.

Uma política muito pouco comum

Ao volante do seu trator, Laurence Fournier, uma produtora de cereais de 51 anos, não está tranquila. Depois de uma infância em Aubepierre-Ozouer-le-Repos (Sena e Marne), retomou a exploração agrícola da família naquele município. «Recebo um subsídio que diminuiu para metade em quinze anos.» Com a ajuda de um empregado, colhe trigo, beterraba, milho, colza e linho numa área de duzentos hectares, respeitando as regras de produção europeias. «Estamos mergulhados na incerteza. Vai acontecer como na indústria, vamos acabar por desaparecer?» A agricultora procura saber «se o orçamento da PAC vai diminuir ainda mais»

Mas ninguém sabe a resposta. O Tribunal de Contas Europeu indica, num parecer (05/2026) publicado em 9 de fevereiro: «É possível que os beneficiários tenham dificuldade em prever (…) o financiamento que lhes poderá ser atribuído». A arquitetura invulgar do orçamento torna delicada qualquer comparação entre o programa atual e o futuro. Qual é a novidade do quadro financeiro tão acirradamente discutido entre o Conselho, a Comissão e o Parlamento? A futura dotação agrícola poderá ser integrada e, portanto, diluída, num fundo único que poderá abranger desde a coesão territorial até ao controlo das fronteiras. De um modo mais geral, na Comissão Europeia ouve-se falar em reduzir os meios atribuídos ao que por vezes se designa como as «velhas políticas». «Os Estados menos agrícolas não compreendem por que razão se deve gastar tanto dinheiro no setor agrícola», explica Eulalia Rubio.

De facto, «nunca se viu uma política tão pouco comum», como sublinha o presidente da comissão dos assuntos europeus do Senado francês, Jean-François Rapin. O deputado do partido Les Républicains (Os Republicanos, LR) pensa estar perante o início de uma renacionalização da política europeia. Desde 2021, os Estados-membros já tinham visto o seu papel reforçado pela elaboração dos planos estratégicos nacionais (PEN). A lógica poderá ir um pouco mais longe. «Estamos a conceder progressivamente aos Estados uma forma de autonomia decisória e financeira», prossegue. No futuro, subsistiria uma dotação comum mínima para a agricultura, analisa por seu lado Eulalia Rubio, e, «quanto ao resto, caberia aos Estados decidir se desejam financiar ou não».

O que decidiriam então? Cada Estado-membro escolheria, por exemplo, se quer contribuir para as ajudas agroambientais e climáticas. É assim que se designam os «pagamentos verdes», concedidos especificamente às explorações agrícolas mais respeitadoras do ambiente. Atualmente, são suportados a 100% pela União Europeia. Embora insuficientes, estes pagamentos são hoje obrigatórios nos vinte e sete países. Após 2027, as ajudas verdes só poderão continuar a existir se o Estado-membro as financiar em 30%. Implicitamente, isto convida os Estados a contentarem-se com outras medidas que continuariam a ser inteiramente financiadas pela União, abandonando as que exigem este cofinanciamento. O quadro comum de proteção ambiental poderá colapsar.

O que pensa de tudo isto a Direção-Geral da Agricultura da Comissão Europeia? «Cada país poderá adaptar-se melhor em função da sua agricultura», explica-nos uma das suas altas funcionárias. Não irão as distorções da concorrência acentuar-se? «Penso que poderemos chegar a acordo sobre normas, para evitar um nivelamento por baixo.» Ela reconhece, no entanto, de forma velada, que o estado de espírito já não é o mesmo. Financiar um pouco menos a agricultura significa, automaticamente, ser também um pouco menos exigente.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a população viveu o trauma da fome. Em 1962, quando a PAC foi lançada, procurou-se dotar o continente de capacidade para se alimentar de forma duradoura. Preços garantidos, mercados europeus, subsídios à produção: os Estados-membros equipam-se com instrumentos decisivos. Foi um sucesso. No final do século XX, porém, de modo a contribuir para a «globalização feliz», a União renunciou aos preços garantidos. Para compensar a sua diminuição, as ajudas aumentaram. E a PAC encaminhou-se para uma espécie de rendimento mínimo agrícola.

Hoje, o mercado está a abrir-se ainda mais. Nunca a Europa importou tantos produtos agroalimentares. O acordo com o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), que entrou em vigor no dia 1 de maio, irá acentuar ainda mais esta tendência (5). Os fluxos provenientes da América Latina — nomeadamente os relativos à carne de bovino, às aves e ao mel — já estão a aumentar. Mas, face a uma concorrência inédita, proveniente de países que não têm os mesmos padrões de produção, a redução do apoio público poderá tornar a situação dos agricultores ainda mais precária.

A fortiori se for necessário integrar também a Ucrânia na União. O presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou em fevereiro de 2026 que seriam abertas «logo que possível» as negociações de adesão com Kiev. «Não posso dizer se será em 2027», acrescentou, sem dar mais precisões sobre o calendário. A Ucrânia distingue-se, nomeadamente, por ter solos muito produtivos, o famoso tchernozem, essa «terra negra» rica em húmus. Por si só — mais de quarenta milhões de hectares —, representaria quase um quinto da superfície agrícola útil de toda a União Europeia, que se situa atualmente na ordem dos cento e sessenta milhões de hectares. «Esta adesão significaria uma mudança do centro de gravidade da Europa agrícola», afirma, preocupado, Thierry Pouch, economista-chefe das Câmaras de Agricultura de França.

As explorações ucranianas com mais de quinhentos hectares representam cerca de 85% das terras, enquanto em França as de mais de duzentos hectares cobrem apenas 26% das superfícies agrícolas (6). Permitirá esta forte concentração que a Ucrânia se torne o principal beneficiário da PAC? Até agora, quanto mais hectares se tem, mais ajudas se recebe. Mas, por um lado, só quando as normas de produção são comparáveis, por uma questão de igualdade na concorrência, é que o pagamento de subsídios agrícolas europeus pode ocorrer. Por outro lado, os Estados-membros do Leste recebem historicamente menos ajudas do que os países fundadores do Oeste. Por fim, a PAC pós-2028 poderá prever um limite máximo de rendimentos por exploração agrícola.

«O risco de destruir a nossa agricultura»

«Contar com mais um país produtor e exportador pode tornar a Europa ainda mais forte», afirma mesmo Clément Carteron. O presidente da região Centro-Vale do Loire do sindicato Jeunes Agriculteurs (Jovens Agricultores) acrescenta: «É melhor um concorrente semelhante, que partilha os nossos padrões de produção, do que um concorrente demasiado imponente que produz a um custo muito mais baixo!» O porta-voz não esconde, no entanto, um certo mal-estar. Os produtos ucranianos que chegam ao território da União podem perturbar os mercados. Episódios recentes vieram recordar isso mesmo.

Em fevereiro de 2022, o bloqueio dos portos do mar Negro pela Rússia paralisa o comércio marítimo da Ucrânia, quando, antes da guerra, 90% das suas exportações agrícolas transitavam por esses portos. Para apoiar Kiev, Bruxelas elimina, em junho de 2022, os direitos aduaneiros sobre os produtos agrícolas exportados pelo seu aliado. A importação de trigo ucraniano na União passa de 500 mil toneladas para 6 milhões de toneladas por ano. Mas os agricultores europeus — e, em particular, os dos países fronteiriços: Polónia, Hungria, Roménia e Eslováquia — veem este afluxo desestabilizar os preços de mercado. Em 2023 a Comissão é obrigada a reconhecer, num comunicado, que estas «circunstâncias excecionais prejudicam a viabilidade económica dos produtores locais» (7). Em 2024 são adicionadas novas cláusulas ao acordo de comércio livre entre a Ucrânia e a União Europeia. A partir daí, podem ser novamente aplicados direitos aduaneiros sobre determinados produtos ucranianos, tais como o açúcar, as aves de capoeira ou ainda o milho.

Esta travagem imposta à liberalização comercial não é suficientemente clara, na opinião de Nicolas Fortin, secretário nacional da Confederação Camponesa. «Importar produtos baratos é correr o risco de destruir a nossa agricultura.» Segundo ele, quer venham da Ucrânia ou do Brasil, geram as mesmas dificuldades às explorações agrícolas dos Vinte e Sete. E suprimir total ou parcialmente os direitos aduaneiros significa «privarmo-nos de uma parte dessas receitas, precisamente aquelas que poderiam ajudar a financiar a PAC». A Confederação luta, por sua vez, «pela soberania alimentar internacionalista. Esta assenta na ideia de que um povo tem o direito de escolher os alimentos que consome, sem colocar os agricultores em concorrência». Qual é o eixo central deste sistema? Os preços mínimos de entrada. Nicolas Fortin defende que «os produtos importados em França não seriam pagos a preços inferiores aos custos de produção dos agricultores franceses, ao mesmo tempo que elevariam os rendimentos dos agricultores exportadores». Preocupado com a reciprocidade, acrescenta: «Recusamos também os acordos de comércio livre quando beneficiam apenas a agricultura francesa, em detrimento dos agricultores de outros países.»

Alguns eurodeputados defendem um modelo em que as ajudas só seriam atribuídas no caso de a agricultura preservar a saúde pública, a dos animais e dos vegetais, e de manter a qualidade dos solos, do ar e da água. «Quando uma política é bem-sucedida, é porque mudou o mundo e, dado que o mundo mudou, então é preciso mudar de política», dizia Edgard Pisani, ministro da Agricultura do general De Gaulle. As negociações, longe de estarem concluídas, podem ainda alterar profundamente a situação. O Parlamento deverá pronunciar-se em 2027.


(1) Vincent Chatellier, «Le revenu agricole des agriculteurs et des éleveurs en France: une forte variabilité interannuelle (2010-2022) et de grandes disparités», Inrae Productions animales, vol. 37, n.º 3, Saint-Genès-Champanelle, 2024. 

(2) Ler Matthieu Cassez e Aurélie Trouvé, «Traire plus pour gagner moins», Le Monde diplomatique, abril de 2010. 

(3) «Despesas da PAC», Comissão Europeia, https://agriculture.ec.europa.eu 

(4) Thierry Pouch, «Les relations tourmentées des agriculteurs français avec l'Europe», Pouvoirs, n.º 197, Paris, 2026. 

(5) Ler Morvan Burel, «Mercosul, uma bomba agrícola», Le Monde diplomatique — edição portuguesa, janeiro de 2025. 

(6) Aurélie Catallo e Elsa Régnier, «Le secteur agricole ukrainien: présentation et enjeux à l'aune d'un éventuel élargissement de l'Union européenne», Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais (IDDRI), Paris, junho de 2024; «Tableaux de l'économie française», Instituto Nacional de Estatística e Estudos Económicos (INSEE), Montrouge, edição de 2020. 

(7) Ler também Corentin Léotard, «Cereais ucranianos de gosto amargo», Le Monde diplomatique — edição portuguesa, setembro de 2023.

❌