Nas salas de cinema a partir de 10 de junho, o novo filme de João Nuno Pinto leva o espectador a um verão abrasador no Alentejo. Entre seca e campos de golfe, entre trabalhadores que se tenta ignorar e proprietários abastados, um retrato social e ambiental de uma região. Estamos longe dos grandes centros urbanos, em 18 Buracos para o Paraíso, terceira longa-metragem de João Nuno Pinto, escrita por Fernanda Polacow. A ironia do título apela para um olhar crítico, ainda que subtil, sobre as (…)
Primeira longa-metragem de Marta Mateus, O Fogo do Vento teve estreia mundial no Festival de Cinema de Locarno e estará em exibição nas salas de cinema nacionais a partir de 21 de maio. Está enraizado na vida das gentes da região alentejana.
«Este é o universo da minha infância, enquanto uma experiência das raízes, do conhecimento do território e de uma forma de pensar», afirma Marta Mateus, realizadora de O Fogo do Vento, nascida no Alentejo, onde a terra faz crescer as vinhas e os sobreiros sob o sol intenso das planícies. Estamos longe da urbe, dos seus ruídos e desconcentração. Aqui, o que une ou assusta é a natureza, como o toiro, figura de força que ronda e ameaça. A relação entre as pessoas faz-se desta fibra, que ora as põe a fazer jornadas na vindima, ora as desassossega com o animal possante, que não as deixa ir para casa em paz.
Sobre a escrita e o imaginário de um objeto tão poético, Marta Mateus conta que «essa escrita surge da experiência, de um conhecimento e saber muito íntimos quase inconscientes, que vêm de um modo de estar e sentir que no Alentejo está muito ligado à palavra. No Alentejo, há uma experiência da língua ligada aos gestos e à natureza. Por outro lado, acho que, por ter sido um território onde as pessoas foram alfabetizadas muito tarde, os contos e essas narrativas mais poéticas e míticas foram-se mantendo vivas e sendo transmitidas na comunidade. Há uma forma de falar muito imagética. Cresci com essas pessoas que falavam assim e contavam essas histórias. Até na utilização do gerúndio há o movimento. As coisas não estão estáticas. Estão-se sempre a formar e refazer. Acho que isso tem a ver com as estações. Eu cresci mesmo no meio do campo. Não tínhamos eletricidade em casa. E essa experiência inaugural da minha existência reflete-se no meu trabalho.»
A conexão que O Fogo do Vento estabelece entre seres é ancestral. A cineasta conta de onde lhe veio a ideia central do filme. «Tive uma imagem, e não percebi o que é que queria dizer. Confio nessas imagens que nos aparecem, porque não são só nossas. São coletivas. Nós estamos ligados, em rede, como as árvores. Apareceu-me a imagem do touro negro, depois tive um desenho muito geral do filme. A poesia vem da vida, é a vida que está a falar. (…) Muitas vezes, há um touro que foge, e as pessoas ficam em cima das árvores.»
O título alude à relação com o campo: os elementos naturais e aquilo que, em metáfora, nos contam destes trabalhadores, que fazem jornadas árduas e não querem que a memória desses outros ainda mais sacrificados dias se perca. A certa altura, Maria Catarina, um pilar desta comunidade, diz: «As pessoas da minha terra esqueceram-se que eram pobres. O pior é que não sabem que ainda são.» Alguém passa a outro alguém um minúsculo papelinho, onde, depois de desembrulhado lemos: «Que ninguém trabalhe de sol a sol.» Era a resistência contra a exploração do homem pelo homem, num mundo do dinheiro e da mais-valia. Não é ao acaso que o bicho que circunda pelos campos se chama o «bicho do dinheiro», espécie de centopeia, que, segundo os dizeres do povo, não deve ser morto, para não dar azar. Também ele (em metáfora) anda na boca de uma das mulheres: «O bicho do dinheiro. Aquele que tem muitas patas. E anda muito rápido.»
Estas mulheres possuem uma sabedoria telúrica, concreta e misteriosa. Todos são respeitados: o toiro, e o «bicho do dinheiro», as oliveiras, os sobreiros. O Fogo do Vento é esse filme da poesia dos dias dos trabalhadores. «O povo já não tem medo», lemos na capa do jornal República que o soldado lê encostado ao sobreiro. O poético também sabe coreografar-se entre modalidades temporais, que apontam para o passado de opressão, para a liberdade de não mais calar a exploração.
O trabalho e a vida
Marta Mateus filma a sua comunidade com respeito, profundidade e humanidade. Planos, cenas e sequências seguem as coreografias das pessoas. Histórias de vidas fixadas nas fotografias que alguém vê, como é histórico o nosso encontro com João da Encarnação, soldado jovem que perdeu o olho na frente de batalha. Ladainhas, chamarizes e cantares evocam elementos e lugares misteriosos e sonhadores. Há muito mais que a terra; há uma simbiose com o que podemos chamar transcendência do natural. Maria Catarina confessa: «Se eu morrer a trabalhar, não precisam de chorar por mim. Eu morro a fazer o que mais gosto.»
A realizadora esteve quatro anos (quatro verões) a fazer o filme. «Comecei a trabalhar com algumas pessoas com quem adorei trabalhar. Só trabalho com luz natural. Nesse trabalho, foram surgindo questões da vida pessoal de cada um. E as coisas foram-se construindo. O tempo que eu preciso é o tempo que eles precisam. E fazer as coisas com esse tempo dá frutos. Como uma vinha.» Mais do que um objeto cinematográfico, no filme pulsa o semear e colher de uma maneira de ser e estar. Como as estações de uma vida, o filme transformou-se e cresceu, sem se afastar do território interior de Marta Mateus — os vértices revolucionário, político e poético já estavam presentes na geometria de Farpões, Baldios, a sua curta-metragem de 2017.
Há um mundo rural em transformação: «Hoje já ninguém conhece a terra. Há máquinas para tudo», escutamos. O corpo que ouve a natureza, que dela colhe frutos (o sustento), reconhece um afastamento em relação à terra, ao céu e a tudo o que entre eles existe. Mas é também nas mãos de uma mulher que um ramo junta esses frutos: «É o trigo, é a aveia, é a cevada, papoilas, malmequeres, ramo de oliveira», isto é, «amor, paz, pão, saúde, coragem, luz e alegria».
Fogo do Vento é um filme dos sentidos, da atenção como oração (como escreveu Simone Weil) aos outros, não-humanos e humanos, que não se enreda numa visão bucólica, pois toda uma árvore genealógica está nele enraizada. O «paraíso», se por aqui ronda, é tecido à custa do derrube da ditadura fascista, em 1974, e da instauração da democracia. Ouvimos pelos campos o locutor da (já não ilegal) Rádio Portugal Livre, no primeiro 1.º de Maio, comemorado em Lisboa. É a liberdade das pessoas que já não se deixam explorar, que reivindicam igualdade e direitos laborais. São elas que tratam como companheiras a fauna e a flora com que habitam este lugar. O lugar imenso que é Fogo do Vento. O lugar imenso que é a Terra e a Humanidade.