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Received — 2 June 2026 Le Monde Diplomatique - Português

«Chão Verde de Pássaros Escritos»: o filme certo para um certo Luandino

Chegou às salas o documentário de Sandra Inês Cruz sobre o percurso do escritor José Luandino Vieira, desde a ditadura e o colonialismo até à independência de Angola. Revisitando o Tarrafal, onde esteve preso longos anos.

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Não é fácil falar das grandes figuras (nem sequer das pequenas, se é que a distinção faz sentido), tanto mais que cada ser humano é, como disse Mia Couto, uma ilha, e nem todos somos capazes de nadar à sua volta para a podermos perceber ou subir a uma árvore a partir da qual a possamos abarcar na totalidade. Mais difícil é ainda quando essa figura está rodeada de um certo mistério, como é o caso de José Luandino Vieira. Escritor celebrado, mas discreto; de obra ampla mas de textos curtos; clássico em vida e festejado pela crítica, mas de acesso difícil ao leitor desprevenido; consagrado fora mas nem sempre reconhecido no seu país, Angola. Além disso, as circunstâncias históricas encarregaram-se de lhe segmentar a vida: começada em Angola (apesar do nascimento acidental em Portugal, então metrópole); interrompida no aeroporto de Pedras Rubras e marcada por uma longa, dura, injusta e absurda prisão em Luanda e no Tarrafal; retomada (na medida do possível) em Lisboa, durante dois anos, e só nos últimos meses em verdadeira liberdade, ao longo dos quais pôde desenvolver um intenso e discreto trabalho político-diplomático ao serviço do MPLA; continuada ao longo de oito anos de atividade incansável em Luanda, na construção de um país que se queria novo, assumindo responsabilidades importantes nas estruturas do partido e em organizações socioculturais (Televisão Popular de Angola, Instituto Angolano de Cinema, União dos Escritores Angolanos); interrompida de novo com uma espécie de exílio (ou de retiro, ou de recuo) no norte de Portugal, primeiro num antigo convento pertencente a José Rodrigues e depois numa pequena casa no centro de Vila Nova de Cerveira. Em todas estas etapas, o cidadão e o escritor mantiveram sempre uma atitude discreta, aquém do que esperavam os seus amigos de ocasião, além do que desejariam alguns dos seus antigos companheiros de circunstância.

Chão Verde de Pássaros Escritos é, desde o título, a quadratura do círculo possível: Chão Verde por contraposição a Chão Bom, o nome oficial da segunda fase do campo de concentração do Tarrafal; de Pássaros Escritos, aludindo ao pardal que Luandino conseguiu domesticar em Cabo Verde e aos pássaros que o escritor continua a alimentar no Largo do Anjo da Guarda em que mora atualmente — e talvez também à aquisição da visão e da liberdade da ave, capaz de ver acima das contingências do quotidiano e de assumir a condição passageira de um ser frágil.

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Um percurso pessoal, político e artístico

O filme capta muito bem várias das dimensões de Luandino, permitindo que ele ocupe o centro do ecrã, por muito que a narração e o cenário desempenhem também papel essencial. Ficamos assim a conhecer o essencial do seu percurso — pessoal, político e artístico —, para o que muito contribui o material do livro Papéis da Prisão, publicado em 2015, e a visita a Chão Bom e ao seu entorno. Sem ceder à tentação de transformar em herói o autor angolano, o filme vai-nos contando a história de uma vida a partir de fragmentos de alto valor histórico, simbólico, poético. Apesar disso, a interrogação permanece até ao fim, tanto por parte da realizadora quanto do lado de Luandino. Uma e outro vão-se aproximando, buscando preencher vazios e tentando encontrar um sentido para o todo que talvez só seja apreensível na obra do autor.

Um dos momentos interessantes dessa busca é a ida à Torre do Tombo, em que Luandino Vieira consulta pela primeira vez o dossiê que a PIDE lhe dedicou. A subida da escadaria e a leitura à luz do candeeiro (porque entretanto se fizera noite lá fora) são duas cenas particularmente sugestivas: do ponto de vista estético e fotográfico, mas também simbólico. O sentido é buscado no alto e na luz, mas a resposta é de algum modo decetiva. A 13 de março de 1965, o detido José Graça pede autorização ao diretor do Campo de Trabalho de Chão Bom para gravar em fita magnética a história de «O lobo e o coelho» para enviar ao seu filho por ocasião do seu aniversário. E o filme dá-nos a ouvir um fragmento da história e isso toca-nos. Mas também nos acorda: a voz que ficou preservada na fita não é a voz que escutamos ao longo do filme, do mesmo modo que a foto do homem detido em 1961 não corresponde à do homem que sai em 1972. Não é só o bigode que o acompanha na hora da libertação condicional; é a perda de massa muscular e, sobretudo, o olhar, que continua vivo, mas que está agora marcado por uma espécie de desilusão.

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O frenesim dos anos seguintes, que nos é apresentado em fragmentos de filme da época e em fotos (uns e outros pouco ou nada conhecidos), não apaga essa desilusão do homem que saiu do Tarrafal com uma outra visão de si mesmo, dos outros e do mundo, mas que ainda espera estar enganado. A postura é serena, a atitude é delicada, a convicção é firme: a t-shirt que veste é preta, como era preto, em fundo amarelo, o sol que desenhou para a capa de uma edição de poemas de Agostinho Neto publicada pela Casa dos Estudantes do Império. Mas há um tom sombrio, detetável também na música de Luís Cília que acompanha o filme. O tom de quem se assume, sem o dizer, numa espécie de exílio, sem o consolo da esperança de voltar a Sião. Como o Camões de Sôbolos rios: «Alli lembranças contentes / N'alma se representárão; / E minhas cousas ausentes / Se fizerão tão presentes, / Como se nunca passárão. / Alli, despois d'acordado, / Co'o rosto banhado em ágoa, / Deste sonho imaginado, / Vi que todo o bem passado / Não he gôsto, mas he mágoa.» Ou como Carlos Drummond de Andrade: «quer ir para Minas, / Minas não há mais / José, e agora?». E ainda, por fim, como o seu João Vêncio: «Eu digo: Luanda — e meu coração ri, meus olhos fecham, sôdade. Porque eu só estou cá, quando estou longe. De longe é que se ama.»

Devemos estar gratos a Sandra Inês Cruz e à sua equipa: é um belo filme que nos dá acesso a algumas das camadas que formam Luandino. É uma delicada aproximação ao ser humano e ao conceito de exiliência. É uma bela ilustração de uma das frases do livro maior de Luandino, Nós os do Makuluso: «a coragem é isto: na morte, o salto para o saco da vida». Mesmo o que parece estar em falta, está lá também: na imagem, no som, no silêncio. Na poesia, que é a única forma séria de conhecimento.

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