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Received — 2 June 2026 Le Monde Diplomatique - Português

«Ajudar a compreender os caminhos certos de resistência e superação»

No dia 20 de abril, o Instituto de História Contemporânea (IHC) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) homenageou o historiador Fernando Rosas, pelo seu 80.ª aniversário, com uma iniciativa intitulada «Reler Fernando Rosas». Este artigo corresponde, com ligeiras adaptações, à intervenção feita nesse dia pelo homenageado.

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2026S/ título,Matilde Feitor .

Quis a sorte ou o diabo que eu chegasse a octogenário. E por isso aqui estou a cumprir gostosamente convosco os meus inesperados 80 anos.

Permitam-me que comece por agradecer a vossa presença e o gesto amigo deste reencontro com alguns dos textos que fui escrevendo ao longo dos longos 40 anos de meu percurso académico como historiador, se somarmos aos 30 anos de serviço encerrados com a jubilação, mais 10 de docência voluntária a convite honroso da direção desta Faculdade que agora darei por encerrada.

Devo dizer que esta caminhada sempre foi devedora do saber, da sabedoria e da generosidade dos mestres que nesta casa, e para além dela, me foram confiando e pacientemente moldando como aprendiz de historiador. Por isso as minhas primeiras palavras hão de ser para eles. Palavras de agradecimento, posto que com eles tive o privilégio de ir aprendendo a desbravar os meandros teóricos e práticos do ofício. Aqui as deixo como testamento de gratidão para os professores Joel Serrão, Oliveira Marques, José Medeiros Ferreira e Sacuntala de Miranda, que já partiram, mas também para os que felizmente ainda estão connosco, a professora Miriam Halperne Pereira e Fernando Oliveira Baptista. Pelo que esforçada e empenhadamente me ensinaram enquanto docente, investigador e divulgador da História Contemporânea.

Mas mestres meus foram também — e de que maneira! — as muitas centenas de estudantes das licenciaturas, dos mestrados, dos doutoramentos, dos seminários, com quem tive a oportunidade de conviver, trabalhar e aprender. A sua participação crítica, o seu empenho, a sua curiosidade, as suas dúvidas obrigaram-me permanentemente a pensar, repensar, discutir e rever objetos de estudo, abordagens e metodologias da História Contemporânea.

É por isso com genuína satisfação e reconhecimento sincero que vejo várias e vários antigos alunos e alunas e outras e outros companheiros destas andanças do debate historiográfico — todas elas e todos eles docentes ilustres e autores reconhecidos — terem a paciência e a bondade de repegar criticamente escritos de que fui autor ao longo destas quatro décadas. «Ínclita geração, altos infantes», como diria o poeta. A todos e a todas o meu absoluto agradecimento.

Não sou, nem nunca tive a intenção de ser um historiador ou um académico com pretensões de neutralidade pseudocientífica, pairando sábio, incólume e virginal sobre as desagradáveis paixões do mundo. Uma autoridade super partes, pretensamente imune às ideologias e que confundisse uma atitude de rejeição apolítica do comprometimento com uma forma de sabedoria intemporal e metafísica. Ou seja, como assinala Enzo Traverso, nunca aceitei transformar uma categoria ético-política conservadora numa intocável categoria histórica. Na realidade, essa espécie de historiador ou de cientista social enquanto guardião complacente do Templo da verdade «pura» não existe, a não ser como falsificação medíocre da realidade ou demissão cívica travestida de «ciência».

Porque o historiador é um ente social que respira e interpreta a historicidade da época em que vive, o espírito do tempo e as suas contradições, os seus sucessos e as suas tragédias e que, de alguma forma, seja qual for o sentido em que o faz, projeta sobre o seu estudo a sua visão da realidade, a sua cultura, a sua ideologia. É certo que ele deve assumir distância crítica, é claro que ele tem que ser rigoroso no tratamento e interpretação das fontes de acordo com as normas do ofício, mas a verdade é que há sempre alguma transferência de subjetividade construída na relação mútua do caldo da cultura da época com os fenómenos estudados. Sendo que essa distância crítica e metodológica é sempre algo essencialmente distinto da distância como fonte da indiferença moral, ou seja, como produção social da indiferença ética. A «distância» assim subvertida como conceito engendra a falta absoluta de compaixão relativamente ao outro. Engendra a impunidade da violência opressora, fomenta o racismo, justifica o extermínio. Em suma: pode até ser uma noção com algum curso neste obscuro tempo presente, mas transforma-se na normalização do regresso à barbárie.

Mas ainda porque pensar historicamente a sociedade é sempre um trabalho indissociável do uso público da História e das suas repercussões políticas. Estudar a História e escrevê-la significa, como sugere Traverso, oferecer matéria-prima para o uso público do passado, ou seja, para poder agir sobre a realidade, para de alguma forma a transformar, seja qual for o sentido desse exercício. Não é, nunca foi um exercício asséptico, pretensamente puro, «uma forma de sabedoria intemporal», uma pretensa «neutralidade». O uso público da História como prática cidadã pressupõe, sem dúvida, por parte do historiador, além da indispensável autonomia crítica e do rigor do método, uma opinião interpretativa sobre a realidade do seu tempo presente e é dela de que sempre se parte, sobretudo na História Contemporânea.

Quando nos anos 80 e 90 do século passado me balancei no estudo da História do Estado Novo e do salazarismo, parti de uma perplexidade crucial para o futuro da jovem democracia portuguesa: como fora possível um regime com as características dessa ditadura durar durante 48 anos, quase meio século do século XX português? Um regime que se impôs ao cabo de uma espécie de guerra civil larvar e de acesa conflitualidade intestina entre 1926 e 1933; que se reforça com o triunfo franquista na Guerra Civil de Espanha; que sobrevive à derrota nazi-fascista da Segunda Guerra mundial; que se aguenta sob o terramoto delgadista de 1958-1959; que ainda consegue durar 13 anos de longa e injusta guerra colonial, apesar de esse ser o seu sangrento epílogo.

Seguramente tive de me defrontar com as pertinazes mistificações históricas legitimadoras dessa particular modalidade lusitana do fascismo e das diferentes fases da sua longa evolução. Tanto mais que o pós-novembrismo dos anos 80, a par de uma certa amnésia desculpabilizante da ditadura, fomentava um ambiente de revisão historiográfica neoconservadora que de alguma forma atapetava o terreno ideológico e cultural onde a nova extrema-direita fascizante havia de lançar amarras. Seguramente houve que encarar os discursos míticos oposicionistas de sinal contrário, ciosamente alimentados por longos anos de repressão, de clandestinidade e de sacrifícios em que a sobrevivência política e a resistência se ligaram a fortes e sectarizados discursos identitários, o que era natural por parte de correntes políticas cercadas pela perseguição, as prisões, a censura, a tortura e o assassinato. Nem sempre tem sido fácil fazê-lo, mas essa desconstrução/reconstrução é indispensável ser levada a cabo sem preconceitos numa democracia que luta contra a abolia e a desmemória e que se bate pela memória plural da resistência à ditadura como trave mestra da sua existência.

Todavia, nestes trabalhos da História do Estado Novo é claro que nunca me passou pela cabeça equiparar «neutralmente» o incomparável do ponto de vista de uma ética democrática: o fascismo com o antifascismo; o colonialismo e o anticolonialismo; a opressão e a repressão política e policial com a democracia e as liberdades públicas; a exploração dos grupos do capital financeiro com os direitos do trabalho. Esforcei-me por ter distância crítica em relação a estes fenómenos e rigor no seu tratamento. Mas soube sempre qual o lado da História a que pertencia e a que pertenço.

Da mesma forma, neste enovoado tempo presente carregado de presságios, se convoca a urgência da História e do seu uso público. Porque nele se cruzam quatro inquietantes tendências de regressão civilizacional: por um lado, o retorno impune da barbárie imperial e genocida, o império da lei do mais forte sobre o direito e a moral; por outro, essa cavalgada da nova extrema-direita fascizante pelo mundo fora, apoiada na chantagem trumpista; como coisa nova, o controlo oligopolístico de uma emergente tecnoligarquia sobre a manipulação algorítmica das redes sociais, semeando a abolia ou explorando os instintos primitivos de tanta gente perdida na crise do capitalismo tardio. Por fim, mas fator comum a todo o resto, essa produção social da indiferença que anda de par com a exploração manipulatória do medo e da raiva que escorrem desta arrastada crise histórica dos sistemas liberais.

E é urgente entender as condicionantes históricas destes fenómenos, saber que continuidades ou novidades comportam relativamente ao fascismo paradigmático da primeira metade do século XX, sobretudo ajudar a compreender os caminhos certos de resistência e superação que simultaneamente salvaguardem e renovem a democracia política e social.

Estudar para agir e agir para voltar a estudar. Dar sentido atual à velha máxima de Romain Roland: «pensamento que não age ou é aborto ou é traição». E assim continuo. Enquanto não me falecer juízo na cabeça e força nas pernas, contem comigo. Como cantavam os antigos contrabandistas da raia, pois «trema a terra que daqui ninguém arredou».

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